*Mensagem Nº 2* – 12/01/2017

Nesta nova postagem, apresentaremos 3 artigos sobre Logoterapia a partir de visões bem diferentes entre si:

a 1ª originária do site http://www.coisasjudaicas.com,
a 2ª proveniente do site http://www.oespiritismo.com.br e
a 3ª publicada no site  http://cleofas.com.br.

Boa leitura!

1º – Um Psicoterapeuta em Auschwitz – 28/05/10 – Por Chana Weisberg

Shema Yisrael Hashem Elokeinu Hashem Echad… ouve, ó Israel, o Eterno é nosso D’us, o Eterno é Um.

Essas palavras são o ponto alto das nossas preces diárias, expressando poderosas pérolas de fé.

Essas palavras têm sido murmuradas no decorrer dos tempos, em épocas de grave desafio, em porões escuros, por aqueles que exalavam seu último suspiro, num auto-de-fé na Espanha ou numa câmara de gás na Alemanha nazista.

Há também palavras de esperança e felicidade, entoadas com alegria ao celebrar importantes acontecimentos.

Porém eu não esperava ler essas palavras hebraicas num clássico campeão de vendas, um livro de psicologia que foi considerado pela Biblioteca do Congresso como um dos dez livros mais influentes nos Estados Unidos.

“A Busca do Homem por um Significado”, por Viktor Frankl, vendeu mais de doze milhões de cópias em todo o mundo. Frankl descreve suas experiências nos campos de concentração nazistas, porém mais que as suas provações, ele escreve como psicólogo sobre o que lhe deu força para sobreviver.

Frankl descreve pungentemente como os prisioneiros que desistiram da vida e da esperança por um futuro eram inevitavelmente os primeiros a morrer. Eles morreram menos pela falta de comida que pela falta de algo pelo qual viver. Em contraste, Frankl se manteve vivo pensando em sua mulher, e sonhando em fazer palestras sobre como as suas experiências reforçaram aquela que já era uma parte importante de sua tese antes de entrar nos campos – que a força de motivação fundamental de toda pessoa é a busca por um significado.

A autobiografia de Frankl é seguida por um esboço de sua doutrina terapêutica de cura da alma encontrando significado na vida. Sua teoria ganha credibilidade a partir do pano de fundo de suas experiências pessoais nos campos de concentração e como ele encontrou significado enquanto enfrentava seu sofrimento.

Um forte encadeamento implícito em todo o livro é a força e o amor que ele extraiu não somente das lembranças de sua mulher, como também de sua fé.

Como ele declara em seu livro, “A Busca do Homem por um Significado Definitivo”: “D’us não está morto, nem mesmo depois de Auschwitz.” Pois a crença em D’us é incondicional, ou então não é crença. Se for incondicional, enfrentará o fato de que seis milhões morreram no Holocausto; se não for incondicional, então vai desmoronar se apenas uma única criança inocente tiver de morrer…

Não adianta barganhar com D’us, ele diz e argumenta: ‘Até o ponto de seis mil ou até um milhão de vítimas no Holocausto eu mantenho minha fé em Ti; porém acima de um milhão nada mais pode ser feito, e sinto muito mas devo renunciar à minha fé em Ti… Uma fé fraca é enfraquecida por provações e catástrofes, ao passo que uma fé forte fica ainda mais fortalecida por elas. ”

Pouco depois de chegar a Auschwitz, Frankl foi privado do objeto mais precioso que possuía – um manuscrito que era a obra de sua vida, e que tinha escondido no bolso do casaco. Percebendo que as chances de sobreviver eram pequenas, “não mais que uma em vinte e oito”, ele teve aquela que descreve como “talvez a experiência mais profunda nos campos de concentração. ”

“Eu tive de passar e superar a perda de minha criança mental. E parecia como se nada nem ninguém fosse sobreviver a mim; nem uma criança física nem uma mental que fosse minha. Portanto fui confrontado com a questão de que sob tais circunstâncias minha vida, em última análise, estava vazia de significado.

“Eu ainda não tinha percebido que uma resposta a essa pergunta com a qual eu lutava tão apaixonadamente já estava reservada para mim, e que pouco depois essa resposta me seria dada. Foi isso que aconteceu quando tive de entregar minhas roupas e por minha vez recebi os trapos rasgados de um interno que já tinha sido enviado à câmara de gás… Em vez das muitas páginas do meu manuscrito, encontrei no bolso no casaco recém-ganho uma única página de um livro de preces em hebraico, contendo a prece mais importante, Shema Yisrael. Como poderia eu ter interpretado tamanha “coincidência” como não sendo um desafio para viver meus pensamentos em vez de meramente colocá-los no papel? ”

E então na sentença que conclui este livro campeão de vendas que foi traduzido em vinte e quatro idiomas, Frankl novamente expõe essa eterna proclamação de fé.

“Nossa geração é realista, pois chegamos a conhecer o homem como realmente é. Afinal, o homem é aquele ser que inventou as câmaras de gás de Auschwitz; no entanto, ele é também aquele ser que entrou naquelas câmaras de cabeça erguida com a oração do Shemá Yisrael nos lábios. ”

O que há na prece Shemá Yisrael que tem inspirado tantos através das maiores dificuldades e tem conferido tamanho significado e propósito para nos ajudar a sobreviver até mesmo nas circunstâncias mais desesperadoras?

Creio que além da simples afirmação de fé num único poder Superior e o profundo significado místico oculto nas palavras dessa prece especial, há quatro elementos psicológicos vitais que fizeram dela nosso alicerce da fé:

1 – Relevância: Ouve, ó Israel – Uma religião ou estilo de vida não pode começar e terminar com teorias; deve também dirigir-se à parte humana dentro de nós. O Shemá não começa no âmbito da ideologia, nos céus, com uma declaração de fé despersonalizada. Fala endereçando todos e cada um de nós. Ouve, ó Israel, ouve essa mensagem, e faz dela uma parte do teu ser, porque não está falando sobre ti, não para ti, mas está te chamando.

2 – Pertencer: A prece Shemá está no plural (“nosso D’us” e não “meu D’us”), falada como um grupo coletivo, dirigindo-se a nós todos como Israelitas. Os seres humanos têm uma necessidade de se identificarem uns com os outros. O senso de fazer parte. Recebemos força uns dos outros e a fortaleza de sermos parte de algo maior que nós mesmos. Mais atraente que a ideologia é uma sensação de pertencer a uma família expandida – apesar das barreiras. Aquele senso de comunidade é um dos nossos alicerces mais fortes.

3 – Personalização: D’us é nosso D’us. D’us é “nosso”. D’us que é transcendental e infinito é também nosso D’us pessoal que está conosco em todos os momentos, segurando nossa mão tanto em tempos de celebração quanto nas horas de desespero. D’us não é apenas um governante objetivo, que cria e regula o cosmos. Ele é “nosso”, está perto de nós, entendendo subjetivamente a parte mais profunda de nós mesmos, mais do que a entendemos; Ele está conosco em tempos de necessidade, júbilo e sofrimento.

4 – Individualidade: Por mais que precisemos todos de um senso de pertencer e de comunidade, não devemos negar nossas diferenças individuais. A declaração do Shemá termina com as palavras “D’us é um” (em vez de D’us é “singular” ou “sozinho”). A unicidade de D’us está presente na diversidade do mundo. Como disseram os mestres chassídicos: “Não há nada além d’Ele. ” Enquanto a conformidade tolhe o crescimento, a “unicidade de D’us” deveria nos possibilitar descobrir e cultivar a unicidade e unidade Divina dentro de cada um de nós.

Uma base da teoria de Frankl é que forças além do nosso controle pode levar tudo que possuímos exceto uma coisa – nossa liberdade de escolher como vamos reagir à situação.

Após descrever a angústia de suas experiências em Auschwitz, Frankl conclui suas memórias pessoais: “A experiência mais elevada, para o homem que regressa ao lar, é a maravilhosa sensação de que após tudo que ele sofreu, não há nada de que precise temer – exceto seu D’us.”

Esta pode tornar se nossa crença mais poderosa.

Fonte:http://www.coisasjudaicas.com/2010/05/um-psicoterapeuta-em-auschwitz.html

2º – Nostalgia e Depressão – Autor: Joanna de  ngelis – Psicografia de Divaldo Franco

As síndromes de infelicidade cultivada tornam-se estados patológicos mais profundos de nostalgia, que induzem à depressão. O ser humano tem necessidade de auto expressão, e isso somente é possível quando se sente livre. Vitimado pela insegurança e pelo arrependimento, torna-se joguete da nostalgia e da depressão, perdendo a liberdade de movimentos, de ação e de aspiração, face ao estado sombrio em que se homizia.

A nostalgia reflete evocações inconscientes, que parecem haver sido ricas de momentos felizes, que não mais se experimentam. Pode proceder de existências transatas do Espírito, que ora as recapitula nos recônditos profundos do ser. lamentando, sem dar-se conta, não mais as fruir; ou de ocorrências da atual.

Toda perda de bens e de dádivas de prazer, de júbilos, que já não retornam, produzem estados nostálgicos. Não obstante, essa apresentação inicial é saudável, porque expressa equilíbrio, oscilar das emoções dentro de parâmetros perfeitamente naturais. Quando, porém, se incorpora ao dia-a-dia, gerando tristeza e pessimismo, torna-se distúrbio que se agrava na razão direta em que reincide no comportamento emocional.

A depressão é sempre uma forma patológica do estado nostálgico. Esse deperecimento emocional, fez-se também corporal, já que se entrelaçam os fenômenos físicos e psicológicos.

A depressão é acompanhada, quase sempre, da perda da fé em si mesmo, nas demais pessoas e em Deus… os postulados religiosos não conseguem permanecer gerando equilíbrio, porque se esfacelam ante as reações aflitivas do organismo físico. Não se acreditar capaz de reagir ao estado crepuscular, caracteriza a gravidade do transtorno emocional.

Tenha-se em mente um instrumento qualquer. Quando harmonizado, com as peças ajustadas, produz, sendo utilizado com precisão na função que lhe diz respeito. Quando apresenta qualquer irregularidade mecânica, perde a qualidade operacional. Se a deficiência é grave, apresentando-se em alguma peça relevante, para nada mais serve.

Do mesmo modo, a depressão tem a sua repercussão orgânica ou vice-versa. Um equipamento desorganizado não pode produzir como seria de desejar. Assim, o corpo em desajuste leva a estados emocionais irregulares, tanto quanto esses produzem sensações e desarmonias perturbadoras na conduta psicológica.

No seu início, a depressão se apresenta como desinteresse pelas coisas e pessoas que antes tinham sentido existencial, atividades que estimulavam à luta, realizações que eram motivadoras para o sentido da vida. À medida que se agrava, a alienação faz que o paciente se encontre em um lugar onde não está a sua realidade.

Poderá deter-se em qualquer situação sem que participe da ocorrência, olhar distante e a mente sem ação, fixada na própria compaixão, na descrença da recuperação da saúde. Normalmente, porém, a grande maioria de depressivos pode conservar a rotina da vida, embora sob expressivo esforço, acreditando-se incapaz de resistir à situação vexatória, desagradável, por muito tempo.

Num estado saudável, o indivíduo sente-se bem, experimentando também dor, tristeza, nostalgia, ansiedade, já que esse oscilar da normalidade é característica dela mesma. Todavia, quando tais ocorrências produzem infelicidade, apresentando-se como verdadeiras desgraças, eis que a depressão se está fixando, tomando corpo lentamente, em forma de reação ao mundo e a todos os seus elementos. A doença emocional, desse modo, apresenta-se em ambos os níveis da personalidade humana: corpo e mente.

O som provém do instrumento. O que ao segundo afeta, reflete-se no primeiro, na sua qualidade de exteriorização. Ideias demoradamente recalcadas, que se negam a externar-se – tristezas, incertezas, medos, ciúmes, ansiedades – contribuem para estados nostálgicos e depressões, que somente podem ser resolvidos, à medida que sejam liberados, deixando a área psicológica em que se refugiam e libertando-a da carga emocional perturbadora. Toda castração, toda repressão produz efeitos devastadores no comportamento emocional, dando campo à instalação de desordens da personalidade, dentre as quais se destaca a depressão.

É imprescindível, portanto, que o paciente entre em contato com o seu conflito, que o libere, desse modo superando o estado depressivo. Noutras vezes, a perda dos sentimentos, a fuga para uma aparência indiferente diante das desgraças próprias ou alheias, um falso estoicismo contribui para que o fechar-se em si mesmo, se transforme em um permanente estado de depressão, por negar-se a amar, embora reclamando da falta de amor dos outros.

Diante de alguém que realmente se interesse pelo seu problema, o paciente pode experimentar uma explosão de lágrimas, todavia, se não estiver interessado profundamente em desembaraçar-se da couraça retentiva, fechando-se outra vez para prosseguir na atitude estoica em que se apraz, negando o mundo e as ocorrências desagradáveis, permanecerá ilhado no transtorno depressivo.

Nem sempre a depressão se expressará de forma autodestrutiva, mas com estado de coração pesado ou preso, disfarçando o esforço que se faz para a rotina cotidiana, ante as correntes que prostram no leito e ali retêm.

Para que se logre prosseguir, é comum ao paciente a adoção de uma atitude de rigidez, de determinação e desinteresse pela sua vida interna, afivelando uma máscara ao rosto, que se apresenta patibular, e podem ser percebidas no corpo essas decisões em forma de rigidez, falta de movimentos harmônicos…

Ainda podemos relacionar como psicogênese de alguns estados depressivos com impulsos suicidas, a conclusão a que o indivíduo chega, considerando-se um fracasso na sua condição, masculina ou feminina, determinando-se por não continuar a existência. A situação se torna mais grave, quando se acerca de uma idade especial, 35 ou 40 anos, um pouco mais, um pouco menos, e lhe parece que não conseguiu o que anelava, não se havendo realizado em tal ou qual área, embora noutras se encontre muito bem. Essa reflexão autopunitiva dá gênese a estado depressivo com indução ao suicídio.

Esse sentimento de fracasso, de impossibilidade de êxito pode, também, originar-se em alguma agressão ou rejeição na infância, por parte do pai ou da mãe, criando uma negação pelo corpo ou por si mesmo, e, quando de causa sexual, perturbando completamente o amadurecimento e a expressão da libido.

Nesse capítulo, anotamos a forte incidência de fenômenos obsessivos, que podem desencadear o processo depressivo, abrindo espaço para o suicídio, ou se fixando, a partir do transtorno psicótico, direcionando o paciente para a etapa trágica da autodestruição.

Seja, porém, qual for a gênese desses distúrbios, é de relevante importância para o enfermo considerar que não é doente, mas que se encontra em fase de doença, trabalhando-se sem autocomiseração, nem autopunição para reencontrar os objetivos da existência. Sem o esforço pessoal, mui dificilmente será encontrada uma fórmula ideal para o reequilíbrio, mesmo que sob a terapia de neurolépticos.

O encontro com a consciência, através de avaliação das possibilidades que se desenham para o ser, no seu processo evolutivo, tem valor primacial, porque liberta-o da fixação da ideia depressiva, da autocompaixão, facultando campo para a renovação mental e a ação construtora.

Sem dúvida, uma bem orientado disciplina de movimentos corporais, revitalizando os anéis e proporcionando estímulos físicos, contribui de forma valiosa para a libertação dos miasmas que intoxicam os centros de força.

Naturalmente, quando o processo se instala – nostalgia que conduz à depressão – a terapia bioenergética (Reich, como também a espírita), *a logoterapia (Viktor Frankl)*, ou conforme se apresentem as síndromes, o concurso do psicoterapeuta especializado, bem como de um grupo de ajuda, se fazem indispensáveis.

A eleição do recurso terapêutico deve ser feita pelo paciente, se dispuser da necessária lucidez para tanto, ou a dos familiares, com melhor juízo, a fim de evitar danos compreensíveis, os quais, ocorrendo, geram mais complexidades e dificuldades de recuperação.

Seja, no entanto, qual for a problemática nessa área, a criação de uma psicosfera saudável em torno do paciente, a mudança de fatores psicossociais no lar e mesmo no ambiente de trabalho constituem valiosos recursos para a reconquista da saúde mental e emocional. O homem é a medida dos seus esforços e lutas interiores para o auto crescimento, para a aquisição das paisagens emocionais.

Fonte: http://www.oespiritismo.com.br/mensagens/ver.php?id1=402

3º – Logoterapia de Victor Frankl – EB

Revista: “PERGUNTE E RESPONDEREMOS” – Nº 310 – Ano 1988 – p. 131 –  Por José Carlos Vitor Gomes

Em síntese: Viktor Frankl é o fundador da Escola de Psicologia dita “Logoterapia”, que conscientemente discorda de Sigmund Freud (o homem seria o joguete de impulsos sexuais) e de Alfred Adler (o homem é movido fundamentalmente pela procura do poder). Para Frankl, o anseio básico do ser humano é o de conhecer o sentido ou o “para quê” da vida; afirma isto apoiando-se em experiência feita em campos de concentração, como também na sua reflexão pessoal, que sabia levar em conta a Lei de Moisés (Frankl é judeu). A Logoterapia tenciona, pois, ajudar os pacientes a descobrir (não se trata de criar ou inventar…) o sentido da vida, (…), descobrir, porque desde o nascimento de alguém existe uma tarefa ou uma missão que essa pessoa é chamada a cumprir para ocupar seu lugar na sociedade. Existe, pois, um Ser Transcendental (Deus), que deixou sua marca congênita no homem; trata-se de saber auscultar esse Deus oculto ou o senso religioso do homem, para mobilizar as energias e a vitalidade do indivíduo.

[…]

Examinemos agora as principais concepções de V. Frankl.

Que é a Logoterapia? A Logoterapia é a psicoterapia baseada no encontro e no cultivo do Logos ou da razão, do sentido da vida (Logos, no caso, significa razão, sentido; terapia, cura).

1. Segundo V. Frankl, a necessidade fundamental do ser humano é a de saber o “para quê” viver ou o sentido da vida. Quem tem uma resposta para esta indagação, mobiliza as suas energias e equilibra sua personalidade.
Nota o psicólogo que não se trata de procurar um sentido qualquer para a vida ou de inventar uma justificativa para esta, porque já existe o sentido da vida incutido no interior de cada pessoa. Com efeito, segundo Frankl, todo homem é portador de uma religiosidade inconsciente, ignorada, mas pulsante no íntimo da pessoa. Essa religiosidade, é uma energia, que Frankl, na sua linguagem de psicólogo, chama Deus, Deus oculto, mas Deus vivo no fundo de cada indivíduo¹.

Em 1947, escreveu uma obra intitulada “O Deus Inconsciente”, em que defendia a presença de Deus no íntimo de cada indivíduo. Esta tese se tornou clara a Frankl durante os seus anos em campo de concentração: percebeu, entre os companheiros de prisão, que na angústia intensa aqueles que concebiam a fé em Deus e a esperança no futuro, conseguiam sobreviver heroicamente, ao passo que aqueles que não cultivavam a religiosidade ou a presença de Deus oculto em seu íntimo, pereciam desgraçadamente por desânimo e inércia.
Esse “Deus oculto” é uma energia que aparece e persiste mesmo quando todas as outras formas de energia se extinguem. Permanece incólume ou sempre viva, mesmo no auge da dor e da moléstia, em meio a delírios e alucinações. V. Frankl chama-a também “a dimensão noética” do ser humano, a espiritualidade incorruptível ou uma vitalidade que pode emergir inexplicavelmente nos momentos mais trágicos.

2. Desta premissa segue-se que o ser humano é imprevisível ou não está sujeito a leis mecanicistas e deterministas. Neste ponto Frankl se opõe a toda corrente psicológica behaviorista, gestaltica, estruturalista ou reflexológica, que reduz o ser humano a um joguete de impulsos, condicionados pelas circunstâncias e impelido para cá ou para lá; o homem não é mero fruto do seu ambiente. A pessoa é livre por sua natureza, e chamada a exercer a liberdade. Esta é a sua expressão típica. A liberdade é para a pessoa humana o que as cores são para a pintura o que o sim é para a melodia.

Tais ideias são, segundo Frankl, corroboradas pelas observações seguintes: como poderíamos punir um delinquente se ele fosse mero fruto do seu meio? Com que Moral prenderíamos um assassino, se a responsabilidade não é dele, mas da sociedade?  – “Mas a sociedade é composta de indivíduos! Você se imagina sendo preso para pagar dívidas da sociedade? ”

Quatro Preocupações – V. Frankl julga que há quatro preocupações essenciais que fazem parte da existência do ser humano no mundo: o sentido da vida, a liberdade, o isolamento e a morte. Cada uma destas preocupações gera um conflito existencial.

O Sentido da Vida – Frankl afirma que a falta de sentido para a vida está na base das psicopatologias modernas, porque a humanidade nunca viveu tão sem perspectivas. A falta de sentido dá origem a um vazio existencial e ao mal-estar da civilização contemporânea. Todo homem precisa de encontrar algo que se dedique e pelo qual valha a pena dar a vida. Cada indivíduo tem uma missão que só ele é capaz de executar e que não pode deixar de assumir. Cada pessoa é como peça de um quebra-cabeça. Só ela pode ocupar o espaço vazio e, se não o ocupar, ficará deslocada e o todo ficará incompleto. Se alguém não assume a sua responsabilidade, todo o universo estará prejudicado, porque uma missão pessoal não pode ser realizada por outrem. O mundo perde, todas as vezes que alguém se omite frente às suas tarefas; perdemos valores que jamais poderão ser recuperados, porque a vida é única.

Quem não se entrega à sua tarefa neste mundo, corre o risco de se fechar em si mesmo, esquecendo o mundo exterior; a pessoa mergulha num vazio existencial, ponto de partida de enfermidades noogênicas ou espirituais ou conflitos morais.

Ora a Logoterapia tenciona ajudar o paciente a descobrir o sentido de sua vida, que desencadeia uma resposta pessoal e o engajamento na tarefa própria da pessoa. – Para libertar o homem de si mesmo e levá-lo a descobrir o sentido da vida, a Logoterapia propõe a derreflexão, ou seja, o desvio da atenção tendente a se fixar no passado ou no presente, para induzi-la a se dirigir para o futuro ou para que é preciso realizar ou, ainda, para os apelos que a vida formula ao íntimo de cada pessoa.

A liberdade – A preocupação com a liberdade é tão intensa que a história da humanidade parece resumir-se na luta para consegui-la; resoluções e derramamentos de sangue atestam este anseio. Mais importante do que a liberdade extrínseca (isenção de coação exterior) é a liberdade intrínseca ou a
liberdade de consciência ou a capacidade de tomar atitudes que respondam aos desafios da vida. A liberdade assim entendida não depende de fatores externos; só pode ser limitada pelos valores éticos ou pela responsabilidade pessoal. Cada indivíduo deve ser responsável pelo uso da sua liberdade.
Isolamento – A terceira preocupação existencial do homem é o isolamento ou o fato de não poder transferir para outrem as suas dores e as suas alegrias.

Cada pessoa nasce e morre sozinha no mundo; é única na imensidão do universo; tem características absolutamente pessoais, desde as impressões digitais até a cor dos olhos e o tipo de pensamento e afetos.

Doutro lado, verifica-se que o homem precisa de relacionamento com os outros para crescer. Deve, pois, exercitar-se nessa comunhão social, tentando intuir o que os outros sentem, integrar-se em algum grupo e procurar a proteção que torna possível o crescimento do indivíduo. – Se alguém não consegue progredir nesta direção, o seu isolamento ou a sua singularidade pode-lhe gerar profundo conflito existencial.

A Morte – A morte constitui a preocupação diante da qual não há escapatória e que, por isto, desperta no homem uma sensação de insegurança total. – Ela obriga a pessoa a procurar descobrir por quê vive numa existência fadada a ser arrebatada pela morte. Descobrindo esta razão, o homem valoriza a sua vida, porque sabe que ela é finita e tem que ser aproveitada em todos os seus momentos.

A tarefa de Frankl como psicólogo de campo de concentração foi tentar resgatar a esperança e o sentido da vida, utilizando a técnica da derreflexão; esta consistia em se desviar a atenção do sofrimento e da ameaça de morte “aqui e agora” para a conquista da liberdade e a execução plena de tarefas que haviam ficado interrompidas. Muitas vezes o fato de se encontrar o sentido do sofrimento faz que ele seja mais facilmente suportável, especialmente nos casos em que a possibilidade de cura é remota, como o é na situação dos prisioneiros dos campos de concentração e dos pacientes terminais de doenças incuráveis.

A Presença de Deus – Frankl define a religião como sendo a consciência que o homem tem da sua dimensão sobre-humana. Nesta dimensão se apoia a convicção de que a vida tem seu sentido último e definitivo. O fato de que o homem se vê como um ser no mundo, dotado, porém, de dimensão sobre-humana ou voltado para o Infinito, torna-o cheio de fé no valor da vida e de esperança.
O psiquiatra lembra uma frase de Blaise Pascal (+ 1661), filósofo e matemático francês, que atribui a Jesus os seguintes dizeres: “Tu não me procurarias, se já não me tivesses encontrado”. Toda a história da humanidade parece marcada por intensa procura de Deus ou pelo desejo de compreender o
mistério de cada coisa. Ora essa busca de Deus significa, para Frankl, que o homem já conhece Deus; … conhece-o seja pelas obras da criação, seja em decorrência da fragilidade da vida neste mundo, seja mediante arquétipos…  Mas o que interessa, é que parece haver uma necessidade básica de acreditar.

Neste ponto Frankl e Jung divergem entre si. Com efeito, Jung diria que o homem de fé tem uma dimensão religiosa congênita, mas que esta é meramente subjetiva, pois Deus não passa de uma projeção de psique humana. Ao contrário, Frankl afirma que Deus é uma realidade viva e existente fora do homem, embora não seja possível contemplar Deus com os olhos das ciências positivas. Com Martin Buber, também judeu, Viktor Frankl acredita na existência de um Tu Eterno, um Deus com o qual o homem precisa de conviver o que está aninhado na intimidade de cada um, sem deixar de ser o Supremo Ser existente também fora do homem¹.

A Logoterapia, levando em conta esta dimensão, específica do homem, é uma psicoterapia que parte do espiritual. Todavia não se confunde com Teologia nem com seita religiosa, como dito.

Conclusão – A Escola de Viktor Frankl, por mais oposta que seja às correntes famosas de Psicologia, tem encontrado grande ressonância: diante do materialismo que leva à conspurcação e ao menosprezo da pessoa humana, considerada joguete, a Logoterapia afirma, com base na experiência mais crua e cruel possível, que o ser humano é capaz de superar os condicionamentos que o querem coisificar; tem dentro de si uma energia (a  religiosa) que o leva a tolerar o que nenhuma outra energia tolera e que, por isto, o faz, de certo modo, construtor do seu futuro, ultrapassando obstáculos mortais.

Esse senso religioso, segundo Frankl, não é mera ficção subjetiva, mas tem algo que lhe corresponde fora de si e que é o próprio Deus. Frankl é muito atento, neste ponto, a não infringir os limites da Psicologia; por isto, ao insinuar a realidade objetiva de Deus, diz simplesmente: “Não precisamos de inventar tarefas para preencher o tempo, nem de fabricar um sentido ou uma tarefa artificial. A vida já tem um sentido a partir do momento em que somos atirados neste mundo. Falta a cada um descobri-lo. Esta é a intenção da Logoterapia”

É a este título que V. Frankl se aproxima da antropologia cristã, ilustrando as proposições desta como judeu, sem preocupação apologética, mas guiado unicamente pela experiência e pela reflexão.

¹ estas afirmações de Frankl nada têm que ver com o panteísmo, embora o possam insinuar. Trata-se de um linguajar de psicólogo; Frankl faz questão de notar que a Logoterapia não é religião nem Teologia. Pessoalmente, ele é um judeu monoteísta, cultor de Deus como a Bíblia o revela.

¹ A linguagem de V. Frankl, como dito, é a de um psicólogo; quando ele fala de “Deus aninhado na intimidade de cada um”, intenciona referir-se ao senso religioso congênito em cada homem, marca do Deus Criador.

Fonte: http://cleofas.com.br/logoterapia-de-victor-frankl-eb

Sobre o autor –  José Carlos Vitor Gomes – Conhece Logoterapia através do Prof. Dr. Van Den Aardweg durante um curso de especialização em Terapia Antiqueixa em Campinas. Conhece Viktor Frankl pessoalmente no Congresso Internacional Psicoterapia no Rio de Janeiro e passa a contribuir para a sua vinda ao Brasil para um curso. Isto acontece três anos depois em 1984 quando ele vem a Porto Alegre. Especializa-se em Logoterapia pela Sobral em 1985. Torna-se um dos fundadores e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Logoterapia – Sobral, na gestão de Halley Alves Bessa, ex-presidente do CFP – Conselho Federal de Psicologia.

Para concluir, lembramos aos nossos leitores que os textos publicados, referem-se à opinião pessoal de cada autor, lembrando que nem todos são estudiosos da Logoterapia, embora a usem como referência, e que é recomendável fazer uma leitura cuidadosa à luz das bases filosóficas e antropológicas de Viktor Frankl, justamente assunto da próxima postagem na semana que vem.

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