O que vivi com Viktor Frankl #6 | Relato logovivencial de Ana Clara Dumont

A sexta edição da série “O que vivi com Viktor Frankl” conta a história de Ana Clara Dumont, mineira “de coração e berço”, como ela diz. Neste relato, você vai ver como o ponteiro da bússola de sentido de Ana foi se ajustando e alinhando ao longo de sua trajetória profissional – e como a Logoterapia está no clímax de sua narrativa!

“Minha história não envolve grandes dificuldades, dramas e superações. Sempre tive uma vida tranquila e possibilidade de seguir os caminhos que escolhesse. Mas sempre fui muito indecisa e acho que não valorizava a vida como, hoje, valorizo. Era até muito reclamona e pessimista. Minha história seria uma história como outra qualquer, mas não se conta uma história qualquer, quando sua estrela-guia é o sentido.

Mineira de coração e berço, vivi toda a minha infância e adolescência no interior, em Araxá. Filha de um médico com uma artista plástica, eu era uma boa aluna no colégio, inclusive com as exatas, o que dificultava ainda mais a minha vida nas decisões relacionadas à profissão. As apostas eram grandes com relação ao que eu faria, muitos acreditavam que eu seguiria os passos do meu pai, mas poucos sabiam que eu tinha medo de sangue. Para as artes, eu tinha até um jeitinho, mas a minha mãe mesmo me desencorajou da ideia: “Se for fazer, faça como hobby”.

Até que o colégio ofereceu um teste vocacional. “Você é muito criativa! Deveria fazer Publicidade!” E não foi difícil convencer a libriana, eu precisava que alguém me desse uma direção mais concreta. Então, me mudei para São Paulo, depois de passar numa faculdade que se utilizava de marketing até para nos fazer acreditar que estávamos estudando na melhor escola do Brasil e que sairíamos de lá já empregados. E eu acreditei. Me formei e, contradizendo as estatísticas, eu não saí de lá com emprego. Poxa… o que estava acontecendo com a boa aluna que sempre fui?

A situação de desemprego na área da Publicidade me impulsionou para novas experiências. Morei no Canadá, estudei e trabalhei com Teatro, fui ser voluntária fazendo visitas a hospitais vestida de palhaça. Eu parecia bem perdida, mas nem eu mesma sabia que eu estava começando a me encontrar.

A pressão de não encontrar um emprego de trainee em uma grande multinacional adicionada a uma situação de conflito amoroso me fez procurar terapia. Foram algumas tentativas: Lacan, Jung, entre outros manejos clínicos que não me faziam sentir acolhida, à vontade, e ainda me sentia julgada.

Até que uma prima, que é psicóloga, me enviou o link da Sociedade Brasileira de Logoterapia (SOBRAL): “Talvez você goste dessa abordagem”. Eu abri, li por alto e me pareceu interessante. Escolhi uma das terapeutas indicadas, por uma questão de logística (a que era mais fácil de chegar), sem saber que, mais uma vez, eu estava abrindo uma porta enorme, talvez uma das mais importantes da minha vida.

Diferente das demais terapias, dessa vez o encontro foi mágico. Eu me via crescendo, mais forte e mais decidida a cada sessão. Era dolorido, mas era transformador. Aquele processo era tão incrível que eu passei a nutrir uma admiração enorme pela minha psicóloga. Em paralelo, mais conectada com meus valores, comecei a perceber que de tudo que importava na minha vida, as pessoas eram o mais importante e que eu tinha uma facilidade enorme para escutar, ponderar, acolher quem estava ao meu redor, dos familiares aos amigos, até um desconhecido no hospital. Comecei a ter certeza de que trabalhar com produtos em uma multinacional definitivamente não fazia sentido algum para mim. Talvez no RH? Eu até tentei, mas também não era aquilo.

Até que um belo dia (eu não me lembro, mas o sol devia estar em seu esplendor), eu olhei nos olhos da minha psicóloga e falei: “É isso. Eu quero fazer para as pessoas o que você está fazendo por mim”. Desde, então, eu soube que o grande sentido da minha vida estaria em ajudar outras pessoas a encontrarem o sentido da vida delas.

Comecei a estudar Psicologia. Li Em Busca de Sentido. Comecei a ficar bem mais atenta a minha intuição, aos sinais que a vida estava me dando, e passou a ser bem mais fácil tomar decisões, mesmo para uma libriana.

Encontrei um emprego no terceiro setor. A vaga era de Comunicação. E mais um monte de descobertas vieram. Não é que eu não gostasse da minha primeira formação, eu não gostava do viés comercial, capitalista, mas usar a comunicação para “o bem”, foi uma experiência que me fez crescer como profissional, pessoa e perceber o poder transformador da comunicação nas relações humanas.

Recebi alta da terapia com o seguinte recado: “Volte para sermos colegas”. Conheci a AgirTrês e comecei a estudar Logoterapia. Reli Em Busca de Sentido. Li outros livros do Viktor Frankl e de outros seguidores. Passei a falar da Logoterapia sempre e onde quer que eu fosse. Para os colegas, nos trabalhos da faculdade, na semana da psicologia. Conhecer a Logoterapia não podia ser privilégio de tão poucos em um mundo tão precisado de sentido.

Fiz vários estágios na área da psicologia. Adorei todos eles. A cada encontro com o outro, em que eu podia exercitar meu olhar de logoterapeuta, a certeza aumentava. Descobri que minha criatividade poderia ser usada no consultório. No TCC eu consegui falar também de Logoterapia, claro. Virou até artigo em revista especializada. Me formei. E na primeira oportunidade, eu tirei meu CRP e fui ser psicóloga. Eu tinha pressa, eu tinha urgência, eu tinha certeza.

“Nossa! Mas é muito difícil se formar e começar a atender como psicóloga clínica”. “ A vida de psicólogo é muito instável”. “Você é louca de deixar um trabalho CLT por algo incerto”. Nada disso me abalou. Eu tinha paixão, eu tinha brilho no olhar, eu nunca tinha tido tanta certeza.

Voltei à porta que tinha me sido aberta ao final do meu processo terapêutico. Fui ser colega da minha psicóloga. A princípio em uma sala alugada, dividindo com meu trabalho no terceiro setor. Depois, ampliando minha dedicação e ocupando horários vagos na clínica dela. Por fim, deixei meu trabalho CLT, mergulhei na clínica, conquistei novos pacientes. Me encantei pelos adolescentes, mas continuei forte também com os adultos. Passei a viver como psicóloga, como logoterapeuta.

Sem nunca mais perder o olhar para o sentido, continuei atuando no terceiro setor, por meio de oficinas com comunidades pelo Brasil. Fiz uma especialização da área de educação, e mais uma vez levei a Logoterapia para um novo universo: também tive a oportunidade de falar do que me movia no meu TCC. Passei a escrever para um blog sobre relações humanas. Participei de grupos de estudos, seminários, de Congressos no Brasil e na América do Sul. Conheci gente extremamente inspiradora, me senti acolhida, me identifiquei, me senti pertencendo aquele grupo de pessoas que acreditam na busca do sentido como transformadora do mundo. Que privilégio!

Hoje, faço da Logoterapia não somente a minha profissão, mas a minha filosofia de vida. Quem conhece Viktor Frankl sabe que não dá para ser diferente, é uma questão de conduta única. As dificuldades ainda surgem? Claro, mas nunca mais olho para elas sem entender os “para quês”. As segundas-feiras, as chuvas e os invernos passaram a ter seu encanto. Depois que me conectei com a minha bússola de sentido, a vida vem fluindo de forma leve e linda, sou muito grata e tenho a certeza de que tudo vai dar certo hoje, amanhã e sempre. Mostrar esse olhar para a vida em encontros diários com o outro é o que me move.”

Ana Clara Dumont

anaclara@vinculare.com.br

www.vinculare.com.br

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