O que vivi com Viktor Frankl #7 | Relato logovivencial de Noely

A sexta edição da série “O que vivi com Viktor Frankl” conta a história de Noely, que ressignificou o diagnóstico de lúpus com diálogos com a obra de Viktor Frankl. Neste relato, ela recorre às principais citações de Frankl que a fortaleceram em sua busca de sentido, seja na profissão de enfermeira e professora, seja na vida, como alguém que diz sim à vida apesar de tudo. Conheça este diálogo edificante!


“Em minha história, passo a buscar um novo significado aos 18 anos de idade. Nessa idade, comecei a sentir dores nas mãos, dores que me impediam de tocar piano. Estudava e tocava o instrumento desde a infância. Descobrir que não poderia tocar mais piano e depois receber o diagnóstico de Lúpus Eritematoso Sistêmico, com todas as suas complicações, trouxe a necessidade de buscar novos significados para minha vida.

Nessa busca, encontro a enfermagem e, logo no início da graduação, tenho a oportunidade do encontro com minha mestra Margareth Angelo, que me ensinou que

“Fazer enfermagem é uma oportunidade de estar na primeira fila de um espetáculo chamado experiência humana em saúde. Para algumas pessoas, estar na primeira fila pode significar estar mais perto para presenciar dor e sofrimento, mas para mim tem um significado bastante diferente. Estar na primeira fila representa para mim a possibilidade de testemunhar como a vida, a experiência humana é bonita e grandiosa. É ver de perto como o homem pode transcender os obstáculos e crescer justamente por causa deles.”

Como amei essa enfermagem!!!

Eu não podia ensaiar a vida, tinha que acontecer. Eu me considerava a enfermeira já no primeiro estágio, eu tinha que dar o melhor, não era para ser a melhor, mas queria marcar a minha passagem, queria transformar os lugares por onde passaria. A minha mestra que teorizou os meus sonhos dessa enfermagem que sente o outro, me colocou em contato com teorias que faziam minha prática cada vez mais humana e ao mesmo tempo me transformava como pessoa, possibilitava encontros com as diferentes experiências de vida que me ensinavam a ser a melhor enfermeira do mundo, mas que primeiro me ensina a ser.

Meu encontro com Viktor Frankl aconteceu logo após a minha formatura, quando fiz o curso “A morte na prática do seu cotidiano”, no Instituto de Psicologia da USP, com Maria Julia Kovacs. Nesse curso realizei a leitura do livro, Morte e desenvolvimento humano. No capítulo sobre o idoso, Rosenberg apresenta Viktor Frankl. O fascínio foi imediato. Nessa época, no meu primeiro emprego na Clínica Médica do Hospital Universitário da USP, testemunhando a dor e o sofrimento de pacientes terminais, em sua maioria idosos, as lições de Frankl passam a qualificar a minha assistência ao mesmo tempo que qualificam minha vida.

Este ano, 2018, completo 20 anos de formada. Ao longo dos anos tive que mudar várias vezes os meus sonhos, não me rendendo à doença, mas aprendendo respeitar as limitações e a realidade. Muitas vezes era difícil abandonar o que o me fazia feliz, mas quando me rendia o milagre acontecia porque era mais uma missão que acenava. Não é “o que eu espero da vida, mas o que a vida espera de mim”, era entender qual a missão Deus me entregava.

O que vivi com Viktor Frankl…

Quando encontrei a Logoteoria e Análise Existencial já fazia um exercício de transformação do meu sofrimento, talvez pela minha vivência religiosa e espiritual, pelo meu amor à arte e à natureza e pela minha profissão que me permite me dedicar ao outro. Acredito que tinha um caminho de transformação da dor, mas meu encontro com Viktor Frankl passa a reforçar essa busca, traz reflexões, me incentiva, faz acreditar que pode dar certo, me fascina. Assim começam os nossos encontros: converso com Viktor Frankl primeiro para discutir minhas dores, minhas perdas, mas como ganho e sou feliz com minha profissão, mesmo buscando outras formas de exercê-la por causa do curso da doença.

Depois, Viktor Frankl me ajuda a qualificar minha assistência, primeiro com meus idosos, ajudando o outro a se despedir da vida, o impacto nos meus alunos, agora que ser enfermeira é ser professora, promovendo a vida dos pacientes com câncer, ajudando as crianças que vivenciam ou que sobreviveram ao câncer, ensinando aos meus alunos que promover saúde é fortalecer a dimensão noética e que competência profissional está relacionada com espiritualidade.

Essa trajetória de adaptações e prazer é possível porque Viktor Frankl me contou que “uma religiosidade sadia pode me direcionar a um relacionamento com o criador nos tornando abertos ao outro e à transcendência” e assim “dizer sim à vida apesar de tudo”. Que “o ser precisa ordenar-se em direção a algo ou a alguém: entregar-se a uma obra a que se dedica, a uma pessoa que ama, ou a Deus, a quem serve”. Também me ensinou que:


“o ser humano não apenas reage aos contingentes internos e externos, mas responde a eles, e, ao escolher dar uma resposta à vida, torna-se responsável pelo que vai ser no momento seguinte e que a vida é concebida, nessa perspectiva, como uma tarefa ou um dever, no qual cada ser humano é confrontado com uma ação específica no mundo, pela qual ele se torna único e insubstituível“. (Viktor Frank)

Ele enfatizou ainda:

“que inerente ao sofrimento, há uma conquista, que é uma conquista interior. A liberdade espiritual do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe até o último suspiro, configurar sua vida de modo que tenha sentido. A pessoa está colocada diante da decisão de transformar sua situação de mero sofrimento numa realização de valores.” (Viktor Frankl)

Ele também me garantiu que:

a felicidade precisa surgir, ela é efeito colateral, um subproduto e precisa permanecer um subproduto da realização de um significado, de uma razão de ser na vida, de sua dedicação a uma tarefa, de um significado, de uma razão de ser na vida, de sua dedicação a uma tarefa, uma causa maior do que você mesmo, ou a uma pessoa outra que não você mesmo”. (Viktor Frankl)

Em nossas conversas, entendi que Deus não me deu um corpo perfeito, saúde e plena capacidade física, mas o que de mais importante um ser humano precisa Ele me deu: capacidade de olhar o mundo, absorver teorias, pensar transformações. Me deu plenitude mental que me permite amar o que faço, amar a vida. Me deu fé que faz não apenas acreditar na Sua graça, mas amar a graça, amar mais a graça do que a vida. E quando você tem essa relação de fé com o seu Deus criador, você ama amar a vida pelo o que você pode produzir, porque Deus é amor e só podemos ver a Deus amando o outro, como bem disse o apóstolo João, e assim podemos ‘estar no mundo’, ressignificando problemas como desafios. A doença, portanto, passa a ser apenas um detalhe não para perda, mas para crescimento.

O mais significativo que Viktor Frankl me contou é que “cada pessoa tem uma instância que a doença jamais conseguirá atingir, a espiritualidade imaculada. O Deus vivo na intimidade da pessoa humana, o ponto de partida da fé que temos em cada pessoa”.

Por muito tempo, nossos encontros foram solitários, mas agora tenho uma rede de amigos logoviventes para termos rodas de conversa e crescermos juntos nessa busca do sentido.”

Noely Cibeli Santos

 

5 Comentários to “O que vivi com Viktor Frankl #7 | Relato logovivencial de Noely

  • Querida Noely, mulher incrível! Ensinou a me apaixonar pela logoteoria. Estar perto de vc Noely, é crescer sempre.

  • Lindo!!! Sua experiência e sua maneira de viver a vida traz motivação, mostrando que podemos agir sempre e melhor.

  • Parabéns professora, por toda essa lição de vida que a mim dispensas e por todo ensino. Quero ser uma semente sua, que germinará na vida de outras pessoas e partilhará muitos frutos. Grande abraço!

  • Maravilhosa experiência de vida, amei e me inspirei, muito obrigada por compartilhar.

  • Professora Noely, que lindo!
    Parabéns…por ter o nosso Deus sempre no comando de todas as decisões.
    A senhora me fez despertar para as mudanças…
    Deus continue lhe concedendo força e muita sabedoria pois para nós alunos que te admiramos é motivo de orgulho tê-la como nossa Prefessora de Enfermagem.

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