A hora da escolha

Escolhemos o tempo todo – quando podemos. Fazemos escolhas que se tornam automáticas ou fáceis no dia a dia, como alimentação, higiene, vestuário, horários… Escolher dentro da rotina é como dançar ritmos diferentes com passos conhecidos. Mas e quando o passo muda? Ou, ainda, quando só toca a mesma música que você já se cansou de dançar? Como escolher?

Este ano, nosso ritmo foi bastante afetado por tudo o que envolveu a pandemia: isolamento social preventivo, diversos planos por água abaixo, rotinas pessoal e profissional desconstruídas, lutos… Nosso padrão de escolhas foi forçado a se adaptar, muitas vezes, a partir dos cenários que se apresentaram em nossas vidas, estressando nosso cérebro – que é naturalmente conservador –, buscando sempre conexões já conhecidas e tidas como certas. Mas, em tempos incertos, é inevitável nos depararmos com o desconhecido e o erro. Em momentos assim, encarar os momentos de escolha e, em seguida, as consequências da decisão, pode ser extremamente estressante.

Da prática clínica psicoterapêutica associada à pesquisa da obra de Viktor Frankl (1905-1997), destaco três pontos ligados ao dilema humano em relação às escolhas: a liberdade, o sofrimento e a responsabilidade. 

Afinal, somos livres para escolher? Que liberdade de escolha é possível? Frankl conduz a discussão sobre liberdade com a perspectiva do livre-arbítrio, indicando que:

O ser humano não é livre de condicionamentos, sejam eles de natureza biológica, psicológica ou sociológica. Mas ele é, e sempre permanece, livre para tomar uma posição diante de tais condicionamentos; ele sempre conserva sua liberdade para escolher sua atitude perante esses condicionamentos. (FRANKL, 2020, p. 23)

Acrescento a esse conceito o do psicólogo argentino Claudio García Pintos (2017, p. 135), que afirma que “a pessoa, sendo livre, é capaz de criar, é capaz de se criar. Portanto, o grande condicionante da pessoa é a sua liberdade e o exercício que faz dela”.

A Logoterapia, abordagem frankliana, tem nesta a sua primeira premissa: a liberdade da vontade. Um de seus princípios é de que somos livres, mesmo numa sociedade ou contexto que cerceia nossa escolha. A liberdade, para Frankl, é interna e, muitas vezes, fica pulsando, adormecida, querendo encontrar saída.

Foi essa qualidade de liberdade que o neuropsiquiatra experimentou como prisioneiro em campos de concentração entre 1942 e 1945. O que nos conduz ao segundo ponto ligado às escolhas: Frankl define liberdade em situação de extremo sofrimento, ou seja, quando é colocado diante de momentos de escolha de vida ou morte. E você há de concordar que nem todas as escolhas que precisamos fazer carregam essa gravidade real. No entanto, é comum, na contemporaneidade, notar o sofrimento presente nos momentos inevitáveis de escolhas, seja quando há muitas opções disponíveis, seja quando estas são restritas ou quase nulas. O núcleo do sofrimento, aponta Frankl, reside no sentimento de vazio existencial que acomete nossa sociedade desde o século passado:

Esse sentimento de vazio tornou-se, em nossos dias, uma neurose de massa. […] Se me perguntais como eu explico a gênese desse sentimento de vazio, só posso dizer que, ao contrário do animal, o homem não tem nenhum instinto que lhe diga o que tem de ser, e, a contrário do homem de tempos anteriores, não há mais uma tradição que lhe diga o que deve ser – e, aparentemente, não sabe sequer o que quer ser de verdade. Por conseguinte, ele só quer o que os outros fazem – e então nos encontramos diante do conformismo – ou, só faz o que os outros querem dele – e então nos encontramos diante do totalitarismo. (FRANKL, 2015, p. 107-8)

Um vazio que vai se tornando um abismo, quando observamos os fenômenos decorrentes do uso viciante de aparelhos e aplicativos que convocam nossa atenção a todo momento, e a forma como as redes sociais acabam “produtizando” seres humanos, via algoritmos que sequer temos conhecimento de como operam. E ali, naquele ambiente virtual, vão se potencializando as fantasias relacionadas ao “ter que”, ao “dever” e ao “querer ser”, pois há muitas narrativas disponíveis – geralmente, figurando sucesso – para espelhar a própria existência e, com isso, as próprias escolhas. Nesse contexto, o sofrimento existencial geralmente se expressa na pergunta “como escolher?”, mas seu núcleo reside antes nas questões do “o que escolher?” e do “para que escolher?”, as quais buscam encontrar o sentido do processo de decisão dentro da liberdade possível a cada ser único. 

Escassas ou abundantes, as opções de escolha podem ser fatores geradores de estresse e inquietação, pois envolvem investimento emocional e, também, cerebral (lembram que gostamos de caminhos neuronais conhecidos? Novidade é sempre estressante para nosso cérebro). Os tipos de escolha que geram mais aflição são os dilemas, isto é, quando há apenas duas alternativas e elas são contrárias entre si e nenhuma delas nos satisfaz totalmente. Como exemplo disso, podemos lembrar das eleições presidenciais de 2018, em que a maior porcentagem de eleitores encarou o dilema de não se ver contemplado e representado por nenhum dos candidatos – tendo dificuldades, inclusive, de se posicionar a favor ou contra num discurso polarizado (que ainda produz efeitos nos dias de hoje). O dilema parece uma rua sem saída, mas o fato é que as rotas viáveis não nos parecem satisfatórias, o que pode nos paralisar.

Em situação de dilema, costumo adotar a técnica frankliana de buscar um denominador comum com o paciente, isto é, reduzir os elementos até chegar a duas opções irrepetíveis ligadas a valores vivenciais (que Frankl define como a relação do indivíduo com os outros, com a arte e a natureza). Para chegar nessas alternativas únicas do campo do “ou”, é necessário apoiar o indivíduo a levar em consideração uma espécie de balanço, e lidar com consciência e maturidade com o que é escolhido e o que é perdido. E isso implica no terceiro ponto fundamental para escolher: a responsabilidade que inclui não só o “eu”, mas também o entorno que será atingido pela minha escolha.

Não se pode escolher tudo, nem qualquer coisa. “A liberdade pode degenerar em arbitrariedade, caso não seja vivida com responsabilidade.” (FRANKL, 2015, p. 110). É por isso que ser livre não é poder tudo, nem fazer todas as escolhas com vistas apenas ao benefício próprio ou de um núcleo afetivo próximo. O denominador comum é uma técnica que nos oferece um percurso para fazer uma escolha consciente, não pensando só no nosso umbigo. Colocam-se na balança os prós e os contras, incluindo a reflexão de quem são os envolvidos e os atingidos com essa escolha. Se isso vai trazer prejuízo para a maioria das pessoas e para o meio envolvido, é preciso criar condições de mitigação dos impactos negativos da escolha da vontade própria nesse contexto, ou realmente abrir mão do desejo individual em prol do coletivo. 

Quanto menos repara em si mesmo, quanto mais esquece a si mesmo, ao entregar-se a uma causa ou a outras pessoas, mais ele é o próprio homem, mais se realiza a si mesmo. Só o esquecimento de si conduz à sensibilidade e só a entrega de si amplia a criatividade. (FRANKL, 2015, p. 107)

O chamado à responsabilidade na hora da escolha é, talvez, o ponto mais importante desta nossa conversa aqui. Isso porque, enquanto humanidade, muitas vezes fomos condicionados (ou obrigados) a entregar nossa responsabilidade de escolha a outros – como governos, religião, sistema social e, agora, algoritmos. Mas mesmo sabendo que essa bagagem histórica, social e tecnológica influencia nossas decisões, como podemos escolher a partir de um lugar de autorresponsabilidade? Começando a pensar menos somente em nós e mais para além de nós; entender que a posição de não escolha (para não sofrer ou se desgastar no processo decisório) também é uma escolha que gera impactos; passar a ver-se como um ser que integra a coletividade e o meio ambiente, buscando não apenas escolhas que promovam o bem-estar próprio, mas também a boa convivência com o outro. 

Escolher implica fazer algo. É tão fantasioso dizer que não temos escolha alguma quanto dizer que podemos escolher o que quisermos – ambas construções de um mundo alienado. A liberdade de escolha com responsabilidade envolve reflexão, enfrentar determinismos e condicionamentos, pensamento crítico e maturidade. Muitas vezes, a hora da escolha será cansativa e pode gerar algum nível de sofrimento, mas só assim estaremos ativos na arena da vida, vivendo de verdade. 

Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. O sofrimento de uma vida sem sentido: caminhos para encontrar a razão de viver. São Paulo: É Realizações, 2015.

FRANKL, Viktor E. Psicoterapia e Existencialismo. 1. ed. São Paulo: É Realizações, 2020.

GARCÍA PINTOS, Claudio. O mar me contou: a logoterapia aplicada ao dia a dia. Vargem Grande Paulista: Cidade Nova, 2017.

Imagem: colagem/Heritage Library


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

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