Dossiê | A questão da mulher sob o olhar da Logoterapia

“Eu vou responder como mulher e como logoterapeuta também. Já atuo como logoterapeuta há 6 anos, mas estudo há mais de 10 anos – quando entrei na graduação do curso de psicologia. Eu me inspiro muito na capa do livro de Lukas A força desafiadora do espírito e acho que a Logoterapia contribui com essa percepção da força que nós mulheres temos.

Outro dia estava dando aula sobre isso e estávamos falando como a sociedade reforça a ideia de que nós somos frágeis, somos incapazes e como a Logoterapia vem contribuindo justamente para mostrar que nós somos livres, que nós temos força, vontade para nos opormos não só a condicionantes biológicos. Como o próprio Frankl vai dizer: o homem tem condicionantes, mas ele não se limita a eles. Mas a condicionantes sociológicos, que a nossa sociedade ainda é extremamente machista e condicionantes psicológicos mesmo, porque nós mulheres terminamos sem perceber reforçando alguns comportamentos machistas.

No dia da mulher, alguns alunos da universidade em que eu trabalho fizeram um mural e colocaram a seguinte frase “O que você já deixou de fazer por ser mulher?”. Ali eu vi uma proposta extremamente logoterapêutica, no sentido de afinar a consciência feminina, daquelas ações inautênticas que a gente termina tendo. A gente se anula em prol, muitas vezes, do outro, do que o outro acha que a gente deveria ser. Vejo e vi isso na minha prática, na minha vida pessoal, enquanto mulher, e as dificuldades que passei. E hoje consigo ver: eu tenho muito orgulho da mulher que batalhei para ser. Isso se deve, sem dúvida, à percepção que tenho da vontade de sentido, a expressão dos valores tanto criativos, quanto experienciais e atitudinais. De me posicionar, de não aceitar, de não me calar. A Logoterapia contribui para que esse grito da mulher seja concretizado, para que ele aconteça!


Lorena Bandeira – Psicóloga – professora universitária – mestre pela UFPB – Campina Grande – Paraíba

 

 


“A Logoterapia tem um papel fundamental na questão dos valores. A percepção adequada destes nos confere identidade e coerência pessoal. Penso que falta muito disso na atualidade. Por exemplo, é fácil treinar para que se tenha determinados comportamentos, mas a adesão ao valor, às virtudes, é bem mais complexa. Então, veja, por exemplo: podemos treinar uma pessoa para agradecer, mas não podemos  impor que ela se sinta grata! A virtude da gratidão é bem mais exigente. Hoje, falta muito isso, a adesão real aos valores.

 

Perceber o valor de ser mulher. Assumir esta identidade e ser coerente. Num mundo em que tudo é relativo, em que se reduz tudo à emoção do momento, ao circunstancial, a Logoterapia vem trazer estabilidade, certezas, significados; melhor dizendo, SENTIDO ao ser mulher, num mundo que funciona de modo inadequado à formação da pessoa e produz instabilidade e desorientação.


Neide Rebouças- Escritora – Especialista em Logoterapia e Análise Existencial – Mossoró – Rio Grande do Norte

 

 


“Ao falar de Logoterapia e feminino contemporâneo, acho que o termo equidade é o que melhor define nosso momento atual. Mais do que buscar a igualdade – que pressupõe que todos são iguais independentemente de qualquer característica, a equidade considera as características e individualidades. O ativismo e o posicionamento a que me refiro é um ato, um movimento político, filosófico e social baseado na equidade.

Contudo, há fatos inequívocos a serem considerados, por exemplo, o Código Civil de 1916 definia a mulher casada como incapaz de realizar certos atos e previa que ela necessitava da autorização do marido para exercer diversas atividades, inclusive a de ter uma profissão ou receber uma herança. Somente em 1962, o Estatuto da Mulher Casada altera essa condição. Daí em diante o marido deixa de ser o chefe absoluto da sociedade conjugal. As mulheres brasileiras só podem votar a partir de 1932 e, pasmem, somente a partir de 1988, portanto há APENAS 30 anos, a Constituição Federal igualou, definitivamente, homens e mulheres em direitos e obrigações. E apenas em 2006 é sancionada a Lei Maria da Penha, considerada pela ONU como uma das três melhores legislações do mundo no enfrentamento à violência contra as mulheres. As mulheres ganham menos do que os homens em todos os cargos, diferenças entre 25% a 60%. O que justifica isto em pleno século 21, no ano de 2018?

E o que fazer diante disto?


A Logoterapia diz que os fatos existem, mas eles não determinam. Ao apelarmos para a consciência, para o refletir e o despertar, o ato de ter consciência do contexto, do próprio papel, de todas as responsabilidades e compromissos assumidos, nos possibilita trilhar o caminho da preparação para as escolhas maduras e responsáveis. 

Assim, pode-se trabalhar melhor com os fatos. Os fatos existem, são reais e concretos. Ainda vivemos numa sociedade desigual e arbitrária. O processo é lento e temos muito trabalho a fazer sobre a questão do feminino, da desigualdade de gênero, educacional e salarial. Mas esses fatos não limitam nem definem as escolhas individuais: como decidimos agir perante essas situações? Podemos enfrentar todos estes obstáculos e sair mais fortalecidas de tudo isso.


Como lidar com o que a Logoterapia nomeia como tríade trágica, ou seja, com os problemas cotidianos, as dificuldades, as adversidades, as dores, os preconceitos? Como você escolhe se posicionar perante todos os fatos que te desafiam a se superar?

A ideia é apelar para a “força desafiadora do espírito” e poder utilizar o enfrentamento dessa situação difícil para se fortalecer e amadurecer. “Transformar uma tragédia em triunfo” como dizia Frankl. Isso é uma escolha que pode ser feita.

Não é fácil, mas é possível.

 

Simone Guedes – Pedagoga, Especialista em Logoterapia , diretora educacional do Núcleo de Logoterapia AgirTrês, atua no Coletivo de Mulheres Empreendedoras “Põe no Mundo” e projetos de Empreendedorismo com refugiados – São Paulo – SP


“Pensar o feminino à luz da Logoterapia me faz pensar no sentido de ser mulher no contexto contemporâneo. Em tempos de tantos questionamentos em torno das questões de gênero, de denúncias de múltiplas formas de violência contra a mulher e de tanta aclamação por direitos iguais, considero  necessário nos indagarmos sobre o que afinal significa ser mulher hoje.

 

É fato que tal significado está atravessado pelos condicionamentos socioculturais próprios do nosso  tempo, que são muitas vezes geradores de dúvidas e angústias diante dos papéis sociais e expectativas ambíguas atribuídas à mulher hodierna. Mas aprendi com Frankl que não somos determinadas pelos condicionamentos, mas sim chamadas a nos  posicionarmos diante deles.

Acredito que a cada mulher cabe a tarefa de encontrar e responder ao sentido concreto de sua feminilidade, exercendo sua liberdade acima da condicionalidade, por meio da tomada de consciência de si e de seu mundo. Entendo que nos cabe também a responsabilidade pela história que construímos e que ficará eternamente depositada no celeiro de nossas realizações, dando testemunho do que é ser mulher.

 


Tatiana Carvalho – Psicóloga – logoterapeuta -mestre em Psicologia do Desenvolvimento Humano, diretora do Instituto Geist – presidente da ABLAE – São Luis – Maranhão

 

 


“Sou Denise Gersen, tenho 59 anos, 2 filhos, 3 netos. Sou casada e sou psicóloga clínica. Trabalho também como professora e coordenadora na Universidade Católica de Salvador, faço doutorado em psicologia clínica em Buenos Aires, Argentina.

Conheci a Logoterapia em 2011, quando me encantei pela história de Viktor Frankl, foi realmente um verdadeiro encontro. Ao conhecer aquela vida tão sofrida e todas as formas que ele encontrou de transcender o sofrimento, fiquei atenta aos seus ensinamentos.

Como mulher, a Logoterapia tem estado na minha vida de uma forma inteira, integrada. Até porque eu a vejo como uma filosofia de vida. Por ser vivencial, traz um lado muito humanizador, porque desponta o desejo e a capacidade do vir-a- ser, como mulher livre e responsável dentro das demandas do dia a dia como mãe, professora, profissional.

A Logoterapia proporciona uma visão ampla do ser humano integrado. Isso nos possibilita ver as diversas formas criativas para solucionar problemas. Aprendi a desenvolver na minha vida, em todos os sentidos, a dimensão noética, usar minha liberdade, responder à vida com certa habilidade. Isso me deixa muito tranquila em poder ser uma pessoa autêntica, genuína.
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Acredito que sou uma pessoa muito melhor depois da Logoterapia. Compreendi, na teoria, aquilo que eu já vivia na prática. Aprendi que nós não somos livres “de”, mas somos livres “para”. Podemos ir além e usar nossa criatividade, nosso potencial. Não ficar preso ao passado, mas viver o presente para que no futuro seja possível tornar-se uma pessoa melhor para o mundo.”



Denise Gersen – Psicóloga clínica – Coordenadora do projeto “O Sentido do Servir” – Salvador – Bahia

 


Quanto mais eu realizo o sentido, mais eu me torno eu mesma. Quanto mais eu entro no caminho da busca e realização do sentido, mais eu me encontro comigo mesma, mais eu entendo a minha identidade, mais eu me conheço, mais eu assumo a minha identidade. Identidade de pessoa humana, a minha identidade de mulher.

 

A grande contribuição da Logoterapia é mostrar esse caminho. Um caminho de realização humana, um caminho de vivência e de plenitude de vida. Proporcionar esse encontro com a identidade na medida em que eu realizo o sentido, quando eu sou despertada para a busca para desenvolver em mim essa vontade de realizar alguma coisa para o mundo, no mundo. Deixar a minha marca. Quando eu percebo que a essa minha vontade corresponde uma atitude, corresponde uma tarefa, uma ação, um sentido (uma obra a ser realizada, alguém a ser amado ou até um sofrimento a ser superado) isso leva à realização.”

 

 

Marina Lemos – Médica – diretora do IECVF de Ribeirão Preto – SP

 

 


“Compreendo que a logoterapia traz grandes contribuições para a vivência do feminino na vida contemporânea. Podemos ressaltar dentre outras as reflexões a partir da visão de pessoa. A Logoterapia, nos sinaliza como pessoas e como mulheres a importância, o valor, de sermos quem somos. De vivermos com entrega e responsabilidade também o nosso ser-mulher.

 

Compreender nosso papel, nosso lugar, o sentido de ser mulher em mim e de ser mulher no mundo, no mundo de hoje. Receber como dádiva e viver com consciência a experiência singular do feminino que se dá em mim, buscando realizar também com meu ser-mulher a ação única que me cabe no mundo.”


Maria Helena Budal – Psicóloga – logoterapeuta – professora universitária – Curitiba – PR