Logoterapia e Promoção da Saúde

Saúde resulta de uma vida com sentido, realizado através do exercício da consciência, das atitudes em um viver  livre e responsável.

“Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.”

Começo este artigo tratando do conceito atual de saúde definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS): “um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social e não meramente a ausência de doença”. Este entendimento sobre o que é saúde está implícito na teoria desenvolvida por Viktor Frankl, na qual o ser humano é compreendido como um ser multi e interdimensional, tanto na saúde quanto na doença. A sanidade do ser humano não é apenas somática, nem apenas somática e psíquica, mas uma sanidade somática, psíquica e noética*, permeada pelo social.

A Logoterapia é uma abordagem com foco no sentido da vida, é a “terapia da esperança”, a “psicoterapia das alturas”, e pode ser utilizada para promover saúde através de prevenção e manutenção desta, ou seja, o foco está na saúde e não na doença.

Pensar em promoção da saúde implica em compreender a natureza do processo humano do adoecer. A Logoterapia parte do pressuposto que o ser humano sofre e adoece não apenas pelas necessidades primárias – sede, fome, sono, sexo – mas igualmente pela frustração de sua principal motivação – o imperativo de viver com sentido.

A falta de sentido, fragiliza, deixa o indivíduo desprotegido, vulnerável ao vazio existencial, a frustação noética e/ou a neurose noogênica, ao se perceber frustrado no caminho do sentido. Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.

Na minha prática clínica de 25 anos em atendimento psicoterapêutico, e desde 2000 como logoterapeuta, observo que os pacientes chegam ao consultório apresentando sintomas diversos e queixas variadas, contudo a ênfase é a busca de sentido no sofrimento, necessitando enfrentá-lo e aprender a cuidar de si de uma forma mais saudável, o que implica aprender a lidar com as dificuldades da vida, o que Frankl nomeou de tríade trágica – perdas, falhas e finitude (sofrimento, culpa e morte). Como nos ensina Frankl, “não é o que esperamos da vida, mas sim, o que a vida espera de nós”, essa é a pergunta que deve ser feita no mais profundo âmago do ser humano.

Para promover a saúde do ponto de vista logoterapêutico, precisamos lembrar que a realização pessoal não é o maior objetivo da existência humana, mas sim uma consequência do encontro de sentido na vida. Sentido que só pode ser encontrado através da autotranscendência, isto é, se direcionar para algo (ou alguém) além de si. A autorealização é um efeito secundário, aquilo que se denomina felicidade, que só pode ser alcançada como efeito, e não como meta.

Enquanto propósito significativo capaz de desenvolver a dimensão vital noética profunda, a questão fundamental para essa concretização é novamente modificar o questionamento interno, deixar de se questionar sobre os porquês da vida, e começar a se perguntar sobre os para quês. Pessoas são chamadas pela dimensão noética a despertar a consciência, tornarem-se responsáveis e a vivenciarem profundamente seus atributos de homo faberhomo amans e homo patiens (o homem que faz, ama e sabe sofrer, respectivamente).

A logoterapia não propõe libertar o ser humano daquilo que percebe como sofrimento, mas auxiliá-lo a lidar com ele. Partindo da hipótese de que não há situação na vida que não contenha em si alguma possibilidade de sentido. Esse é o primeiro e mais importante aspecto do caráter preventivo logoterapêutico: amparar pessoas sadias ou doentes na jornada individual da busca de sentido.

Para fortalecer os fatores protetores para prevenção e enfrentamento dos fatores de risco, utilizo na prática clínica recursos logoterapêuticos para despertar e afinar a consciência, apelar ao sujeito sadio interno (conceito encontrado na salutogênese, sintonizado com as propostas de nossa abordagem) engajamento nos pontos culminantes do passado, de concentração no presente e de chegada no futuro, percepção de possibilidades de sentido e incentivo à concretização do que foi percebido.

O segundo aspecto preventivo é que a Logoterapia ajuda a pessoa a tomar decisões que possuam sentido, como um processo psico-educativo contínuo. É necessário aprender a trabalhar com o senso de coerência entre intenção e ação. Elisabeth Lukas dizia a seus pacientes “Queiram aquilo que fazem! ” e não: “Façam o que querem! ”

Concluindo, o terceiro aspecto de prevenção e amparo ao ser humano no fortalecimento interno, para que mantenham suas decisões plenas de sentido, há um importante fator de conscientização, toda decisão contém em si vantagens e desvantagens a serem consideradas, e isto implica em exercer a liberdade de escolha e o consequente enfrentamento com responsabilidade pelo valor da decisão.

“A tese que nos serviu de ponto de partida: ser pessoa é ser livre e ser responsável”. Viktor Frankl

*O termo “noético” deriva da palavra grega nous que significa “espiritual” e é utilizado no lugar desta para evitar conotações religiosas.

Crédito da Imagem: www.pexels.com.br


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, e também coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O sentido da vida em tempos difíceis

Tempos extremos, como este que vivemos na atualidade, colocam nossa liberdade em questão. Quando a sobrevivência se torna um imperativo, há uma série de imposições externas e internas que impactam nosso modo de operar e de nos relacionar. A pandemia da COVID-19 nos fez instaurar novas medidas no dia a dia: preventivas, como o isolamento físico e procedimentos de higiene para evitar contágio e transmissão; de manutenção, como dos serviços básicos e de abastecimento; e também medidas emergenciais, como a atuação de profissionais de saúde, da área social e de pesquisa, na linha de frente de combate ao vírus. Somando a esse contexto complexo, enfrentamos uma grave crise econômica, que tem gerado desemprego e reduções orçamentárias drásticas. Tudo isso e ainda lidando com a preocupação, o sofrimento e o medo de um inimigo invisível aos nossos olhos.

Imersos neste cenário, podemos nos questionar: “é possível ser livre em tempos de isolamento?”, “como posso ser livre se estou enfrentando diariamente um vírus que pode ser muito grave e letal?” e “será que vou sobreviver à pandemia?” – questões que colocam, em seu centro, não a nossa, mas liberdade do vírus. No fundo, queremos nos ver livres logo desse inimigo externo que nos privou do mundo como o conhecíamos, que trouxe perdas e nos fez encarar nossa própria finitude. Então, a pergunta que é pano de fundo para as anteriores é: “qual o sentido desse sofrimento todo?”.

É essa falta de sentido no sofrimento que nos frustra, vulnerabiliza e fragiliza, a ponto de gerar ansiedade, estresse crônico, melancolia, irritabilidade, neuroses, fadiga mental e emocional e até vazio existencial. E sem dúvida isso afeta toda a nossa forma de ser e de nos relacionar: há pessoas sofrendo extrema pressão do trabalho (seja home office ou in loco, seja pelo excesso ou pela impossibilidade de trabalhar), há pessoas enfrentando solidão, outras cansaço, dificuldades e estresse na convivência privada (com familiares, parceiros e até problemas de violência doméstica). Não é à toa que, assim como hospitais, centros de atendimento psicológico e psicoterapêutico também estão lidando com o aumento exponencial de pessoas que precisam de apoio para lidar com questões psicoemocionais em meio à pandemia. A Federação Internacional da Cruz Vermelha, inclusive, publicou orientação provisória para profissionais e voluntários de primeiros cuidados psicológicos remotos durante o surto de COVID-19.

Mas o que sentido de vida tem a ver com liberdade? Buscar sentido na vida, mesmo em situação de sofrimento, é um caminho para a liberdade, segundo a cosmovisão de Viktor Frankl, médico vienense, sobrevivente de campo de concentração, que criou (e vivenciou) a Logoterapia. O exemplo do que ele enfrentou e, sobretudo, de como experienciou essa situação extrema pode nos trazer pistas de como lidar com o momento atual.

Em seu livro Em Busca de Sentido, onde narra o que viveu no campo de concentração, Frankl aborda o conceito de liberdade interior, trazendo como pergunta orientadora algo semelhante ao que levantamos acima: “Onde fica a liberdade humana?” (Frankl, 2008, p. 88); e discorre sobre a possibilidade de agir “fora do esquema” (no caso, o dos campos de extermínio), de pessoas que foram capazes, apesar das circunstâncias e condições degradantes, de não sucumbir à apatia, irritação, à sujeição do dominador ou perda de vitalidade:

no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. E havia uma alternativa! (Frankl, 2008, p. 89)

Ressalvadas as devidas diferenças, essa liberdade como atitude também é hoje uma chave para lidar com a pandemia, inclusive como um fator de preservação de saúde e manutenção da vitalidade humana. Não se trata de se livrar do que faz sofrer, mas de agir nessa situação, lidar com o sofrimento, compreendendo que também nele há possibilidades de sentido. Na experiência de vida dele nos campos de concentração, enquanto alguns se perguntavam se sobreviveriam àquela realidade, Frankl se questionava sobre o sentido do sofrimento e da morte, como parte da vida e da existência humana, afinal:

Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida. (Frankl, 2008, p. 91)

Uma vida com sentido é esta em que se tem liberdade de escolha de atitude diante do que ela espera de nós, enfrentando com responsabilidade as decisões tomadas. Para Frankl, a liberdade só é possível com responsabilidade. Para ele, “ser pessoa é ser livre e ser responsável”, e a liberdade está em realizar essa busca de sentido na vida, encontrar o “para que viver” de cada ser único e irrepetível que somos. Tempos difíceis, de sofrimento, nos colocam no enfrentamento direto com questões sobre o sentido de vida. Por isso, é fundamental compreender que sempre há uma decisão interior possível diante de uma situação extrema – e que é essa decisão (que pode ir da vitimização à manutenção da dignidade e humanidade) que vai conduzir ao tipo de transformação que podemos vivenciar nessa situação.

É adotando uma atitude humanizadora, de manutenção de sua dignidade, inclusive em situação de sofrimento, que o ser humano se põe em busca do seu sentido na vida. O sentido, para a Logoterapia, está na possibilidade de o ser humano encarar os sentidos que está para realizar, valores a realizar. Posto isso, é viver num campo polar de tensão estabelecida entre a realidade e os ideais por materializar. O sentido deve ser descoberto, ele não pode ser dado.

Então, que caminhos existem para encontrar esse sentido? Frankl aponta a vivência de valores de criação, a liberdade espiritual (sem atribuição dogmática ou religiosa) e a experiência com o que é belo, da natureza e da arte. Bebendo da mesma fonte, o escritor búlgaro Todorov reforça esses elementos, em seu livro Diante do Extremo, nomeando-os como exercício da vontade, cuidado de si (cuidar-se, nutrir-se, respeitar-se em primeiro lugar) e atividades do espírito (busca da beleza e da verdade).

Através desse exercício da liberdade com responsabilidade, é possível identificar o sentido daquilo que a vida apresenta no momento (especialmente em tempos em que nossos prazeres são reduzidos), mobilizar recursos internos, despertar nossa consciência e encontrar o sentido e o significado de nossa existência, para transcender o sofrimento e seguir em frente.

Referências bibliográficas

FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008

INTERNATIONAL FEDERATION OF RED CROSS AND RED CRESCENT SOCIETIES. Primeiros cuidados psicológicos, remotos, durante o surto de COVID-19. Mar. 20. 13p

TODOROV, T. Diante do extremo. Trad. Nícia Adan Bonatti. São Paulo: Ed. Unesp, 2017

Imagem: montagem sobre original de francescoch/iStockPhoto


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

Precisamos falar sobre isso…

Quando o racismo salta aos olhos

Nas últimas semanas, nossos olhos e afetos têm sido impactados pelas notícias estarrecedoras de mortes de negros, incluindo crianças, como os casos dos meninos Miguel (em Recife) e Guilherme (em São Paulo). Mesmo com inúmeros casos assombrosos de vidas interrompidas aqui no nosso território natal, o estopim que trouxe o tema do racismo para a arena da discussão foi o caso do assassinato à luz do dia do afro-americano George Floyd, numa abordagem policial abusiva registrada em vídeo pelo celular de uma adolescente. A partir desse evento, a voz do movimento antirracista Black Lives Matter foi amplificada por uma série de protestos nos Estados Unidos, viralizando com a repercussão dos quadrados pretos nas redes sociais no mundo todo, que furou bolhas também em nosso país. O que temos visto como desdobramento desde então são discussões fundamentais sobre a pauta do racismo estrutural, branquitude, antirracismo, entre outras – algo inédito, na minha perspectiva pessoal.

Como brasileiro e negro, é a primeira vez que percebo um incômodo diferente no olhar de quem se deparou agora com o racismo estrutural que se manifesta há anos, de forma mais abrasiva em casos sinistros como os anteriores, em nossas frias estatísticas de desigualdade racial e também em nosso cotidiano, em formas capciosas de preconceito travestidas em humor, em condutas, falas e expressões. Como psicólogo e professor negro, busco olhar esta atual tomada de consciência desse tema de forma reflexiva e otimista, propondo aqui também minha voz, pela primeira vez expressando de forma pública minha opinião sobre o racismo.

Diante da força dos fatos que nos têm atravessado (e traumatizado), especialmente nestes tempos de pandemia, que têm exposto nossas maiores feridas públicas e privadas, chega o tempo em que precisamos falar sobre isso.

Precisamos falar sobre os episódios de violência (física, econômica ou simbólica) e discriminação que todos nós, negros, vivemos e que geralmente ficam guardados no nosso íntimo ou em nosso núcleo de confiança. Precisamos falar sobre a invisibilidade e o silenciamento que negros sofrem nesse país, reflexo de mais de 350 anos de escravidão que os últimos 130 anos desde a abolição jurídica ainda não conseguiram reparar. Precisamos falar que hoje, segundo dados do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE), pretos e pardos somam 56,4% da população brasileira, isto é, a maioria. Precisamos falar e dialogar a fim de cultivar uma nova cultura onde negros consigam respirar, ser vistos e ouvidos, por meio de projetos possíveis e reais em nossa sociedade, incluindo todas as raças e cores que a compõem.

Quando o racismo salta aos olhos, mas as pessoas se calam, o silêncio reforça a estrutura do preconceito por meio da manutenção do não saber e do tabu dos “assuntos sensíveis”. O que minha prática clínica de 30 anos em atendimento psicoterapêutico, e desde 2000 como logoterapeuta, me revela é que falar sobre temas que geram sofrimento e buscar sentido mesmo nas dores mais profundas é caminho viável para enfrentar as dificuldades que a vida impõe nas condições que se apresentam. Frankl nomeia as dificuldades fundamentais da vida como tríade trágica – perdas, falhas e finitude (ou sofrimento, culpa e morte). Essa tríade que o médico vienense viveu num período intenso de sua vida nos campos de concentração nazista, e que certamente gerou impactos profundos em sua existência, acaba se transformando em tridente que fere há centenas de anos quem traz na cor da pele o registro de um povo que teve sua humanidade sequestrada pela escravidão, por meio da privação do uso da própria linguagem, da liberdade de seu corpo e da memória de sua história e cultura. Dadas as proporções e as diferenças destes holocaustos (o massacre de judeus e minorias no regime nazista da Segunda Guerra Mundial e o de negros nas Américas coloniais que perdura até os dias atuais), há elementos da obra de Frankl que me movem a não me posicionar como vítima das circunstâncias que se impõem e me ajudam a extrair uma saída possível para essa tragédia – o que ele chama de otimismo trágico. Quando ele afirma que:

“Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal de contas, o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o destino e a morte. Aflição e morte fazem parte da existência como um todo.”
(Viktor Frankl, 2008, p. 90)

Ele não diminui o tamanho do sofrimento, nem propõe a imposição de um pensamento perverso de negação dessa dor ou sua aceitação passiva. Pelo contrário, ele propõe atitudes de dignidade, coragem e valor diante de um sofrimento inevitável (como é o caso do racismo hoje). A proposta de liberdade interna na situação de sofrimento certamente exige muito de nós, mas nos convoca a “assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas” e a entrever perspectiva de futuro.

Se os tempos atuais fizeram finalmente o racismo saltar aos olhos é porque há também possibilidades concretas de mudança dessa cultura. É tempo de cada um, do seu lugar de fala e atuação, refletir e agir com sua contribuição legítima e mais efetiva possível: seja na linha de frente da luta, seja na manutenção ou na mudança de hábitos, linguagem e escolhas no dia a dia. Do meu lugar como psicólogo, professor e pessoa, sigo propondo espaços de diálogo, acolhida e reflexão em prol de uma cultura em que possamos ver seres humanos antes da raça ou da cor, o que Frankl nomeia como monantropismo (“o saber em torno da unidade da humanidade, uma unidade que ultrapassa todas as diversidades, quer as da cor da pele, quer as da cor dos partidos.” (Frankl, 2010)) – e o que foi evidenciado como possível na fala de Patrick Hutchinson, personal trainer que impediu que outro homem fosse espancado nos protestos antirracistas em Londres, em 15 de junho (na foto, o homem negro é o personal carregando um homem branco desconhecido em seus ombros, salvando-o do pisoteamento). “Tinha um ser humano no chão, e vi que aquilo não ia acabar bem. Agachei e o carreguei nos ombros como fazem os bombeiros” – disse Hutchinson.

Acredito que é preciso falar do que estamos vendo. Porque a fala das dores, dos sofrimentos, e também dos lampejos de consciência que vemos acendendo nos olhos das pessoas e nas lentes da mídia, revela que é possível fazer-se visível aos olhos que estavam cegos para nossas questões raciais, afinal:

Quando é que o olho é capaz de enxergar-se, se prescindirmos do espelho? Somente quando está afetado de catarata. […] Sempre que puder olhar para si mesmo, será porque está com a capacidade visual prejudicada. (Frankl, 2012, p. 20)

Referências bibliográficas

FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

FRANKL, V. Logoterapia e Análise Existencial. São Paulo: Forense Universitária, 2012.

FRANKL, V. Psicoterapia e Sentido da Vida – Fundamentos da Logoterapia e Analise Existencial. São Paulo: Quadrante, 2010 – p.28.

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) 2020. Disponível em: <https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6403>. Acesso em: 14/6/20.

PINTO, Ana Estela de Sousa. “Só pensei em tirá-lo dali”, diz ativista negro que salvou branco de ser espancado. jun. 2020. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/06/so-pensei-em-tira-lo-dali-diz-ativista-negro-que-salvou-branco-de-ser-espancado.shtml

Imagem: Heraldo Galan


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

A hora da escolha

Escolhemos o tempo todo – quando podemos. Fazemos escolhas que se tornam automáticas ou fáceis no dia a dia, como alimentação, higiene, vestuário, horários… Escolher dentro da rotina é como dançar ritmos diferentes com passos conhecidos. Mas e quando o passo muda? Ou, ainda, quando só toca a mesma música que você já se cansou de dançar? Como escolher?

Este ano, nosso ritmo foi bastante afetado por tudo o que envolveu a pandemia: isolamento social preventivo, diversos planos por água abaixo, rotinas pessoal e profissional desconstruídas, lutos… Nosso padrão de escolhas foi forçado a se adaptar, muitas vezes, a partir dos cenários que se apresentaram em nossas vidas, estressando nosso cérebro – que é naturalmente conservador –, buscando sempre conexões já conhecidas e tidas como certas. Mas, em tempos incertos, é inevitável nos depararmos com o desconhecido e o erro. Em momentos assim, encarar os momentos de escolha e, em seguida, as consequências da decisão, pode ser extremamente estressante.

Da prática clínica psicoterapêutica associada à pesquisa da obra de Viktor Frankl (1905-1997), destaco três pontos ligados ao dilema humano em relação às escolhas: a liberdade, o sofrimento e a responsabilidade. 

Afinal, somos livres para escolher? Que liberdade de escolha é possível? Frankl conduz a discussão sobre liberdade com a perspectiva do livre-arbítrio, indicando que:

O ser humano não é livre de condicionamentos, sejam eles de natureza biológica, psicológica ou sociológica. Mas ele é, e sempre permanece, livre para tomar uma posição diante de tais condicionamentos; ele sempre conserva sua liberdade para escolher sua atitude perante esses condicionamentos. (FRANKL, 2020, p. 23)

Acrescento a esse conceito o do psicólogo argentino Claudio García Pintos (2017, p. 135), que afirma que “a pessoa, sendo livre, é capaz de criar, é capaz de se criar. Portanto, o grande condicionante da pessoa é a sua liberdade e o exercício que faz dela”.

A Logoterapia, abordagem frankliana, tem nesta a sua primeira premissa: a liberdade da vontade. Um de seus princípios é de que somos livres, mesmo numa sociedade ou contexto que cerceia nossa escolha. A liberdade, para Frankl, é interna e, muitas vezes, fica pulsando, adormecida, querendo encontrar saída.

Foi essa qualidade de liberdade que o neuropsiquiatra experimentou como prisioneiro em campos de concentração entre 1942 e 1945. O que nos conduz ao segundo ponto ligado às escolhas: Frankl define liberdade em situação de extremo sofrimento, ou seja, quando é colocado diante de momentos de escolha de vida ou morte. E você há de concordar que nem todas as escolhas que precisamos fazer carregam essa gravidade real. No entanto, é comum, na contemporaneidade, notar o sofrimento presente nos momentos inevitáveis de escolhas, seja quando há muitas opções disponíveis, seja quando estas são restritas ou quase nulas. O núcleo do sofrimento, aponta Frankl, reside no sentimento de vazio existencial que acomete nossa sociedade desde o século passado:

Esse sentimento de vazio tornou-se, em nossos dias, uma neurose de massa. […] Se me perguntais como eu explico a gênese desse sentimento de vazio, só posso dizer que, ao contrário do animal, o homem não tem nenhum instinto que lhe diga o que tem de ser, e, a contrário do homem de tempos anteriores, não há mais uma tradição que lhe diga o que deve ser – e, aparentemente, não sabe sequer o que quer ser de verdade. Por conseguinte, ele só quer o que os outros fazem – e então nos encontramos diante do conformismo – ou, só faz o que os outros querem dele – e então nos encontramos diante do totalitarismo. (FRANKL, 2015, p. 107-8)

Um vazio que vai se tornando um abismo, quando observamos os fenômenos decorrentes do uso viciante de aparelhos e aplicativos que convocam nossa atenção a todo momento, e a forma como as redes sociais acabam “produtizando” seres humanos, via algoritmos que sequer temos conhecimento de como operam. E ali, naquele ambiente virtual, vão se potencializando as fantasias relacionadas ao “ter que”, ao “dever” e ao “querer ser”, pois há muitas narrativas disponíveis – geralmente, figurando sucesso – para espelhar a própria existência e, com isso, as próprias escolhas. Nesse contexto, o sofrimento existencial geralmente se expressa na pergunta “como escolher?”, mas seu núcleo reside antes nas questões do “o que escolher?” e do “para que escolher?”, as quais buscam encontrar o sentido do processo de decisão dentro da liberdade possível a cada ser único. 

Escassas ou abundantes, as opções de escolha podem ser fatores geradores de estresse e inquietação, pois envolvem investimento emocional e, também, cerebral (lembram que gostamos de caminhos neuronais conhecidos? Novidade é sempre estressante para nosso cérebro). Os tipos de escolha que geram mais aflição são os dilemas, isto é, quando há apenas duas alternativas e elas são contrárias entre si e nenhuma delas nos satisfaz totalmente. Como exemplo disso, podemos lembrar das eleições presidenciais de 2018, em que a maior porcentagem de eleitores encarou o dilema de não se ver contemplado e representado por nenhum dos candidatos – tendo dificuldades, inclusive, de se posicionar a favor ou contra num discurso polarizado (que ainda produz efeitos nos dias de hoje). O dilema parece uma rua sem saída, mas o fato é que as rotas viáveis não nos parecem satisfatórias, o que pode nos paralisar.

Em situação de dilema, costumo adotar a técnica frankliana de buscar um denominador comum com o paciente, isto é, reduzir os elementos até chegar a duas opções irrepetíveis ligadas a valores vivenciais (que Frankl define como a relação do indivíduo com os outros, com a arte e a natureza). Para chegar nessas alternativas únicas do campo do “ou”, é necessário apoiar o indivíduo a levar em consideração uma espécie de balanço, e lidar com consciência e maturidade com o que é escolhido e o que é perdido. E isso implica no terceiro ponto fundamental para escolher: a responsabilidade que inclui não só o “eu”, mas também o entorno que será atingido pela minha escolha.

Não se pode escolher tudo, nem qualquer coisa. “A liberdade pode degenerar em arbitrariedade, caso não seja vivida com responsabilidade.” (FRANKL, 2015, p. 110). É por isso que ser livre não é poder tudo, nem fazer todas as escolhas com vistas apenas ao benefício próprio ou de um núcleo afetivo próximo. O denominador comum é uma técnica que nos oferece um percurso para fazer uma escolha consciente, não pensando só no nosso umbigo. Colocam-se na balança os prós e os contras, incluindo a reflexão de quem são os envolvidos e os atingidos com essa escolha. Se isso vai trazer prejuízo para a maioria das pessoas e para o meio envolvido, é preciso criar condições de mitigação dos impactos negativos da escolha da vontade própria nesse contexto, ou realmente abrir mão do desejo individual em prol do coletivo. 

Quanto menos repara em si mesmo, quanto mais esquece a si mesmo, ao entregar-se a uma causa ou a outras pessoas, mais ele é o próprio homem, mais se realiza a si mesmo. Só o esquecimento de si conduz à sensibilidade e só a entrega de si amplia a criatividade. (FRANKL, 2015, p. 107)

O chamado à responsabilidade na hora da escolha é, talvez, o ponto mais importante desta nossa conversa aqui. Isso porque, enquanto humanidade, muitas vezes fomos condicionados (ou obrigados) a entregar nossa responsabilidade de escolha a outros – como governos, religião, sistema social e, agora, algoritmos. Mas mesmo sabendo que essa bagagem histórica, social e tecnológica influencia nossas decisões, como podemos escolher a partir de um lugar de autorresponsabilidade? Começando a pensar menos somente em nós e mais para além de nós; entender que a posição de não escolha (para não sofrer ou se desgastar no processo decisório) também é uma escolha que gera impactos; passar a ver-se como um ser que integra a coletividade e o meio ambiente, buscando não apenas escolhas que promovam o bem-estar próprio, mas também a boa convivência com o outro. 

Escolher implica fazer algo. É tão fantasioso dizer que não temos escolha alguma quanto dizer que podemos escolher o que quisermos – ambas construções de um mundo alienado. A liberdade de escolha com responsabilidade envolve reflexão, enfrentar determinismos e condicionamentos, pensamento crítico e maturidade. Muitas vezes, a hora da escolha será cansativa e pode gerar algum nível de sofrimento, mas só assim estaremos ativos na arena da vida, vivendo de verdade. 

Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. O sofrimento de uma vida sem sentido: caminhos para encontrar a razão de viver. São Paulo: É Realizações, 2015.

FRANKL, Viktor E. Psicoterapia e Existencialismo. 1. ed. São Paulo: É Realizações, 2020.

GARCÍA PINTOS, Claudio. O mar me contou: a logoterapia aplicada ao dia a dia. Vargem Grande Paulista: Cidade Nova, 2017.

Imagem: colagem/Heritage Library


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

Onde buscar ajuda – Setembro amarelo

“Quando entrar setembro e a boa nova andar nos campos…”

Como disse Beto Guedes na música Sol de Primavera, setembro chegou e com ele a lembrança de que é possível reconquistar uma vida plena de sentido, independentemente dos cenários atuais que se apresentam na vida de cada pessoa. Este é um mês especial dedicado à prevenção do suicídio e do comportamento autodestrutivo e, mais especificamente, à valorização da vida a partir da campanha Setembro Amarelo.

Quando o vazio existencial aparece e perde-se de vista o sentido de vida, o que fazer? Como apoiar uma pessoa passando por essa dor? Como profissional, como se preparar para lidar com uma questão tão séria dentro do consultório? Listamos abaixo algumas informações que podem ser muito importantes nessas situações.

Se você está precisando de apoio agora, saiba onde pode contar com ajuda imediata! Você não está sozinho.

  • CVV – Centro de Valorização da Vida. É só discar 188 (ligação gratuita) ou usar o chat no site para uma conversa sigilosa. Os canais estão disponíveis 24 horas por dia, todos os 7 dias da semana.
  • CAPS e Unidades Básicas de Saúde (Saúde da família, Postos e Centros de Saúde).
  • UPA 24H, SAMU 192, Proto Socorro; Hospitais

Quando você procura ajuda, você merece:

  • Ser respeitado e levado a sério;
  • Ter o seu sofrimento levado em consideração;
  • Falar em privacidade com as pessoas sobre você mesmo e sua situação;
  • Ser escutado;
  • Ser encorajado a se recuperar.

Se por outro lado, você é um profissional da área de saúde ou correlatas, e sente que precisa se preparar para receber pacientes nessa situação, conheça algumas iniciativas e materiais que podem apoiá-lo:

Por último, fique atento à frases e ideias que, como um sinal de alerta, demonstram que há uma intenção suicida:

  • “Vou desaparecer.”
  • “Vou deixar vocês em paz.”
  • “Eu queria poder dormir e nunca mais acordar.”
  • “É inútil tentar fazer algo para mudar, eu só quero me matar.”

Fonte: Ministério da Saúde

 

Falar é a melhor solução! – Setembro amarelo

Este mês traz a cor amarela para representar uma campanha muito importante: a prevenção do suicídio. As estatísticas sobre esta questão são alarmantes: segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), o suicídio ceifa mais vidas de pessoas entre 15 e 29 anos do que a AIDS e o câncer em todo o mundo. No Brasil, diariamente cerca de 32 pessoas são vítimas de suicídio. Ocorre em todas as faixas etárias e classes sociais. 

Mas você sabia que é possível prevenir 90% dos casos de suicídio? Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e a educação é apontada como a primeira medida para a prevenção, sendo necessário falar sobre o assunto e compartilhar informações para quebrar os tabus sobre esse tema. A Logoterapia contribui como uma forma de prevenção do suicídio por meio da valorização da busca de sentido de vida. Falar é a melhor solução! Por isso, quanto mais pessoas buscarem ajuda e atenção de quem está à volta, especialmente de especialistas, certamente contribuirá para a redução dessas estatísticas.

Baixe o material “Falando abertamente sobre suicídio”, elaborado pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), que iniciou a campanha no Brasil em 2015 em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Ao apresentar o tema do suicídio no site Setembro Amarelo – Mês da prevenção do suicídio, o CVV aponta que é “um problema de saúde pública”, observa que é ainda um tabu, e propõe falar abertamente sobre o tema visando a diminuição dos índices que vêm aumentando atualmente.

Fonte: setembroamarelo.org.br (citado por ABLAE)

SETEMBRO AMARELO: Mês da prevenção do suicídio. A ABLAE apoia essa causa.

IV Jornada Sentido da Vida na Prevenção de Suicídio – Políticas públicas

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OBJETIVOS:
Agregar esforços públicos e privados na prevenção e no atendimento do comportamento suicida;
Preparação do Setembro Amarelo;
Apresentação da Logoterapia como abordagem preventiva e terapêutica.

PÚBLICO-ALVO: Servidores públicos, Autoridades públicas, Educadores, Professores, Médicos, Enfermeiros, Psicólogos, Terapeutas ocupacionais, Fisioterapeutas, Assistentes Sociais, Agentes de saúde, Políticos, Estudantes e pessoas afins.

LOCAL: CeTI-RP – Centro de Tecnologia da Informação de Ribeirão Preto – CAMPUS USP-RP,
Rua Pedreira de Freitas, casa 16.
Haverá transmissão simultânea pela IPTV – USP e gravação das palestras.

HORÁRIO: 9h às 12h e das 13h15 às 16h45.

PROGRAMA PARA PROFISSIONAIS:
8h30: RECEPÇÃO
9h: Vídeo de uma entrevista de Viktor Frankl https://www.youtube.com/watch?v=TXB85tjjJg8
Comentários:
9h20: MESA: Comportamento suicida, um problema da Educação e da Saúde Pública.
Representante da Secretaria Municipal da Educação
Representante da Secretaria Municipal da Saúde.
10h25: Café
10h50: PALESTRA: Comportamento suicida, uma epidemia silenciosa e silenciada. Prof. Dr. Neury Botega – UNICAMP
12h: Almoço
13h15: APRESENTAÇÃO ARTÍSTICA
13h30: PALESTRA: Programas de treinamento para profissionais da saúde e da educação. Prof. Dr. Neury Botega – UNICAMP
14h30: Café
14h45: MESA REDONDA: Setembro Amarelo, uma iniciativa significativa!
Coord.: Prof. Dr. Neury Botega
Possibilidades de contribuição da mídia –
Políticas públicas, uma ação necessária – Duarte Nogueira, Prefeito Municipal ou representante
Ações Secretaria Municipal da Saúde de Franca – SP – Mariana Ganzaroli
CVV e Sinn – Ribeirão Preto
16h10: PERGUNTAS E RESPOSTAS; PREPARAÇÃO SETEMBRO AMARELO
16h45: ENCERRAMENTO

REALIZAÇÃO: IECVF: Instituto de Educação e Cultura Viktor Frankl
APOIO: CVV-RP; Sinn, EsTraDA, CeTIRP-USP; Colégio Viktor Frankl.

Inscrições aqui.

Transmissão on-line pelo link: http://iptv.usp.br/portal/transmissao/IVjornada

 

Logoterapia e Promoção da Saúde

Saúde resulta de uma vida com sentido, realizado através do exercício da consciência, das atitudes em um viver  livre e responsável.

“Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.”

maos artigo saude e logoterapiaComeço este artigo tratando do conceito atual de saúde definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS): “um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social e não meramente a ausência de doença”. Este entendimento sobre o que é saúde está implícito na teoria desenvolvida por Viktor Frankl, na qual o ser humano é compreendido como um ser multi e interdimensional, tanto na saúde quanto na doença. A sanidade do ser humano não é apenas somática, nem apenas somática e psíquica, mas uma sanidade somática, psíquica e noética*, permeada pelo social.

A Logoterapia é uma abordagem com foco no sentido da vida, é a “terapia da esperança”, a “psicoterapia das alturas”, e pode ser utilizada para promover saúde através de prevenção e manutenção desta, ou seja, o foco está na saúde e não na doença.

Pensar em promoção da saúde implica em compreender a natureza do processo humano do adoecer. A Logoterapia parte do pressuposto que o ser humano sofre e adoece não apenas pelas necessidades primárias – sede, fome, sono, sexo – mas igualmente pela frustração de sua principal motivação – o imperativo de viver com sentido.

A falta de sentido, fragiliza, deixa o indivíduo desprotegido, vulnerável ao vazio existencial, a frustração noética e/ou a neurose noogênica, ao se perceber frustrado no caminho do sentido. Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.

Na minha prática clínica de 25 anos em atendimento psicoterapêutico, e desde 2000 como logoterapeuta, observo que os pacientes chegam ao consultório apresentando sintomas diversos e queixas variadas, contudo a ênfase é a busca de sentido no sofrimento, necessitando enfrentá-lo e aprender a cuidar de si de uma forma mais saudável, o que implica aprender a lidar com as dificuldades da vida, o que Frankl nomeou de tríade trágica – perdas, falhas e finitude (sofrimento, culpa e morte). Como nos ensina Frankl, “não é o que esperamos da vida, mas sim, o que a vida espera de nós”, essa é a pergunta que deve ser feita no mais profundo âmago do ser humano.

Para promover a saúde do ponto de vista logoterapêutico, precisamos lembrar que a realização pessoal não é o maior objetivo da existência humana, mas sim uma consequência do encontro de sentido na vida. Sentido que só pode ser encontrado através da autotranscendência, isto é, se direcionar para algo (ou alguém) além de si. A autorrealização é um efeito secundário, aquilo que se denomina felicidade, que só pode ser alcançada como efeito, e não como meta.

Enquanto propósito significativo capaz de desenvolver a dimensão vital noética profunda, a questão fundamental para essa concretização é novamente modificar o questionamento interno, deixar de se questionar sobre os porquês da vida, e começar a se perguntar sobre os para quês. Pessoas são chamadas pela dimensão noética a despertar a consciência, tornarem-se responsáveis e a vivenciarem profundamente seus atributos de homo faber, homo amans e homo patiens (o homem que faz, ama e sabe sofrer, respectivamente).

A logoterapia não propõe libertar o ser humano daquilo que percebe como sofrimento, mas auxiliá-lo a lidar com ele. Partindo da hipótese de que não há situação na vida que não contenha em si alguma possibilidade de sentido. Esse é o primeiro e mais importante aspecto do caráter preventivo logoterapêutico: amparar pessoas sadias ou doentes na jornada individual da busca de sentido.

Para fortalecer os fatores protetores para prevenção e enfrentamento dos fatores de risco, utilizo na prática clínica recursos logoterapêuticos para despertar e afinar a consciência, apelar ao sujeito sadio interno (conceito encontrado na salutogênese, sintonizado com as propostas de nossa abordagem) engajamento nos pontos culminantes do passado, de concentração no presente e de chegada no futuro, percepção de possibilidades de sentido e incentivo à concretização do que foi percebido.

O segundo aspecto preventivo é que a Logoterapia ajuda a pessoa a tomar decisões que possuam sentido, como um processo psico-educativo contínuo. É necessário aprender a trabalhar com o senso de coerência entre intenção e ação. Elisabeth Lukas dizia a seus pacientes “Queiram aquilo que fazem!”, e não: “Façam o que querem!”

Concluindo, o terceiro aspecto de prevenção e amparo ao ser humano no fortalecimento interno, para que mantenham suas decisões plenas de sentido, há um importante fator de conscientização, toda decisão contém em si vantagens e desvantagens a serem consideradas, e isto implica em exercer a liberdade de escolha e o consequente enfrentamento com responsabilidade pelo valor da decisão.

“A tese que nos serviu de ponto de partida: ser pessoa é ser livre e ser responsável”. (Viktor Frankl)

Por Francisco Carlos Gomes – Psicólogo clínico, logoterapeuta, mestre em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), especialista em Logoterapia pela Sobral (Sociedade Brasileira de Logoterapia), em Magistério do Ensino Superior (PUC-SP), e sócio-fundador de várias instituições, dentre elas o Núcleo de Logoterapia AgirTrês, onde atua como diretor clínico, psicólogo e professor, e a ABLAE – Associação Brasileira de Logoterapia e Análise Existencial, onde serve como membro do conselho deliberativo. Autor do livro: Magro e agora?, da Editora Vetor.

*O termo “noético” deriva da palavra grega nous que significa “espiritual” e é utilizado no lugar desta para evitar conotações religiosas.

**Artigo publicado originalmente no site da ABLAE, em 18 de maio de 2016: http://ablae.org.br/blog/logoterapia-e-promocao-da-saude

*Mensagem Nº 10* – 24/03/2017

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Nesta postagem estamos *Homenageando Viktor Frankl, pela data de seu aniversário de nascimento, em 26 de março de 1905*.
Indicamos a leitura de artigo do Prof. Marcelo V. Roehe, da Universidade Regional Integrada – URI – Frederico Westphalen, RS.
Em homenagem ao centenário de nascimento do psiquiatra e psicoterapeuta austríaco Viktor Frankl, o artigo apresenta uma síntese de sua vasta produção teórica. Frankl foi o criador da Logoterapia, chamada, por vezes, de terapia do sentido da vida em função de sua idéia básica, a de que o ser humano vive motivado, fundamentalmente, pela vontade de realizar sentido na vida; para isso, o homem deve se empenhar na realização de valores na forma de criações, vivências e atitudes. A teorização de Frankl, historicamente situada no campo fenomenológico-existencial, é uma das que mais radicalmente se opôs a qualquer reducionismo no entendimento do ser humano.
[…] O HOMEM E O SENTIDO PARA FRANKL
As idéias básicas de Frankl quanto ao procedimento psicoterapêutico podem ser assim resumidas:
– crítica à teoria psiquiátrica de Freud;
– necessidade de o terapeuta estar aberto à cosmovisão do paciente;
– relacionar o trabalho psicoterapêutico com os valores;
– interpretar o tratamento psicoterapêutico como aprendizagem de responsabilidade (Etcheverry, 1990).
Frankl considera que cada pessoa tem uma vocação própria ou missão específica na vida; cada um tem uma tarefa concreta exigindo realização. Mas tal tarefa – o sentido – não é algo estático: o sentido muda de acordo com a pessoa e a situação, uma vez que a existência de cada homem apresenta um caráter de algo único e as situações nas quais estamos envolvidos são irrepetíveis (Frankl, 1986). Ao contrário do que se possa pensar, o sentido da vida não é uma especulação abstrata, é uma realização concreta no mundo.”
Para ler o artigo completo acesse o link a seguir:
Que esta seja uma leitura plena de sentido e profícuas reflexões!
Abraços e até breve!
Simone Guedes