Esperança, eu quero uma pra viver

No final da década de 80, Cazuza e Frejat escreveram a canção clamando por ideologia, num contexto em que a juventude era representante de um espírito revolucionário diante das incertezas políticas e sociais da época. A geração do rock viveu ameaçada pelas perseguições e interdições da ditadura militar, sem poder expressar livremente seu posicionamento político, identitário e cultural. Numa época que prezava por uma determinada ordem e padrão de conduta recém-herdeira da mentalidade militar, caracterizada por um poder patriarcal, branco e heteronormativo, essa música fez e ainda faz sucesso pela mensagem que traz: precisamos de ideais que tragam sentido para a vida.

Naquela época, com o Brasil dando os primeiros passos no processo de redemocratização, o grito por ideologia[1], no sentido de profundidade de convicções políticas, sociais e filosóficas, era urgente, pois o presente era um cenário pouco promissor, com tamanha desigualdade social, econômica e uma série de preconceitos sobre as minorias e doenças como a aids. Hoje, mais de trinta anos depois, revisito essa música atualizando apenas o vocativo, para ampliá-lo. No contexto de pandemia mundial, somado à polarização política e partidária no mundo todo, crise financeira, de valores, desinformação e infotoxicação através do mundo digital, desemprego e depressão, ainda precisamos de ideologias, mas, mais que isso, precisamos de esperança.

Diferente do que comumente se pensa sobre esperança como sentimento positivo a ser cultivado do nada, sabemos que ela precisa de algo – seja concreto ou abstrato –, de um fundamento para que possa se manifestar no indivíduo e no coletivo. Não basta um conselho de alguém, a esperança exige confiança em algo que faz sentido para o sujeito e o direcione para além dele mesmo.

Não podemos ordenar a ninguém que seja otimista ou que espere contra toda a esperança. […] Pois ninguém pode obrigar a esperança, assim como tampouco se pode forçar os outros dois elementos da conhecida tríade, a fé e o amor. […] A felicidade precisa ter um fundamento cujo efeito compareça espontaneamente; em poucas palavras, a felicidade resulta, não se deixa obter, não é fabricável. (Frankl, 2019, p. 84-6)

Tendo isso em mente, afinal, o que esperamos hoje? No que depositamos esperança? No que perdemos a esperança?

Trazendo novamente a perspectiva de Viktor Frankl, que é minha base de reflexão para pensar o ser humano e seu modo de viver e também de minha atuação clínica, observo como ele concebe a esperança (assim como a felicidade) como sentimento edificante do que chama de otimismo trágico humano. Diferentemente de uma positividade infundada, que pode ser alienante, tóxica e até violenta para um indivíduo que atravessa uma fase de sofrimento, Frankl apresenta esse conceito de um otimismo que inclui e, portanto, dá sentido à chamada tríade trágica pela qual todo ser humano passa em vida, a saber: sofrimento, culpa e morte.

Esse otimismo humanizante coloca o indivíduo diante da realidade que se apresenta e, apesar da sensação da falta de sentido (sofrimento), ou da dificuldade de perdoar e aceitar falhas (culpa), ou da finitude da vida (morte), propõe a busca de caminhos para a conservação da vida. A grande pergunta de Frankl orientada à esperança é: “a despeito de todos esses aspectos trágicos da existência humana, apesar disso, como podemos dizer sim à vida?” (Frankl, p. 83)

Hoje, tão importante quanto dizer “sim” à vida individual, é tempo de buscar um “sim” à nossa vida na coletividade. Somos seres interdependentes e coabitantes do meio ambiente e, muitas vezes, esquecemos isso em favor de um “sim” voltado apenas ao nosso próprio umbigo. Esse “sim” alienante costuma ser resultado de três traços de sentimento e comportamento: tédio, ou seja, da falta de interesse genuíno pelo mundo e pelo outro; indiferença, que aparta o sujeito do mundo a partir da perda da iniciativa de mudança, de ação; e proteção narcísica, quando o sujeito, autocentrado, adota um comportamento egocêntrico e de superioridade, quando acredita que algo não pode atingi-lo[2]. No contexto pandêmico, esses traços aparecem em falas que diminuem a gravidade da doença e seus impactos sobre os afetados direta e indiretamente, aparecem em comportamentos que se negam a seguir o protocolo sanitário básico proposto nas diferentes fases, como o uso de máscara e o isolamento social preventivo – ao contrário disso, temos notícias de festas, shows, praias lotadas, como se os frequentadores estivessem numa grande celebração onde a COVID-19 é negada ou tira férias nos momentos de diversão. Uma série de questões envolve esses comportamentos negacionistas e escapistas, mas não são eles a base de uma esperança genuína.

O otimismo trágico exige de nós amadurecimento para encarar o que estamos atravessando nesta pandemia, juntos, mas em barcos com condições completamente diferentes. Atravessar esse mar com a lancha em festa cheia de amigos, nestes tempos, sem olhar para o lado ou para trás, não é dizer sim à vida, é se distanciar dela. Não é ser otimista, é ser egoísta e escapista.

E só posso ser um homem pleno e realizar por inteiro minha individualidade na medida em que transcendo a mim mesmo em direção a algo ou a alguém que se encontra no mundo. Preciso, pois, levar em consideração esse algo, respectivamente, esse alguém, e não a própria autorrealização.” (Frankl, 2019, p. 86)

Graças aos cientistas e profissionais de saúde, temos hoje um fato concreto para alimentar nossa esperança: o plano inicial de imunização em nosso país começou em meio de janeiro com a CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan com insumos chineses. Agora, ao lado do grande número de afetados pela doença, temos também um contador de imunizados. Uma dose de vacina que traz uma boa dose de esperança para o povo e a lembrança de que, cada vez mais, é preciso despertar para o coletivo, preservar a vida em comum, não só a própria vida.

Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. [1983] Argumento a favor de um otimismo trágico. O sofrimento humano (fundamentos antropológicos da psicoterapia). São Paulo: É Realizações, 2019. p. 84-88.

PEREIRA, A. B. (2018). Ideologia, eu quero uma pra viver: sujeito, discurso e busca por um posicionamento na letra musical de Cazuza. Linguagem: Estudos E Pesquisas, 21(1). https://doi.org/10.5216/lep.v21i1.52226

[1] “Em meio a tantas situações negativas, o sujeito se encontra perdido, sem posicionamento concreto, sente-se incapaz de reação frente às situações. Contudo, é possível perceber que há uma semente de esperança, que o sujeito busca por uma saída, que apesar de toda negatividade momentânea, é preciso tomar para si uma posição, uma ideologia.” (Pereira, 2018, p. 46)

[2] “Acham-se acima do comum dos mortais. Consideram que estão acima da lei e das normas sociais e que têm direito a um tratamento especial e exigem esse tratamento”. Daniel Rijo citado por Teresa Firmino em “As máscaras do narcísico”, 5/3/16. Disponível em: https://acervo.publico.pt/ciencia/noticia/narcisismo-outro-lado-da-confianca-1725240

Imagem: O Falso Espelho (1928) / René Magritte / Moma-NY


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

2021 – Um convite para viver o presente à luz da logoterapia

Todos nós aprendemos muito em 2020, mas talvez a lição mais importante que podemos tirar de todos os acontecimentos seja esta: nós precisamos viver o presente.

Ao longo desse ano, todos nós adiamos alguma coisa: um abraço apertado, uma reunião presencial, um passeio divertido, uma viagem especial ou um novo projeto.

Tivemos que evitar o contato físico e, por isso, reinventamos maneiras de nos relacionar. Intensificamos o uso da comunicação e ampliamos o nosso alcance social, descobrindo novas possibilidades de viver a vida. Segundo Viktor Frankl, nós não somos produto das circunstâncias, somos produto das nossas decisões. E estas são as grandes responsáveis pelas mudanças em nossa caminhada.     

Não sabemos o que o amanhã nos reservará, mas seguiremos ainda mais fortalecidos do que nunca. Em meio a esse turbilhão de emoções e frustrações, compreendemos a importância de saber ressignificar os acontecimentos, vivendo o agora.    

Um novo ano se inicia e com ele 365 novos momentos. Que 2021 seja um convite para vivermos cada dia de forma presente e significativa, com escolhas mais conscientes e responsáveis!


Crédito: Foto de Kaboompics.com no Pexels

Logoterapia e Promoção da Saúde

Saúde resulta de uma vida com sentido, realizado através do exercício da consciência, das atitudes em um viver  livre e responsável.

“Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.”

Começo este artigo tratando do conceito atual de saúde definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS): “um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social e não meramente a ausência de doença”. Este entendimento sobre o que é saúde está implícito na teoria desenvolvida por Viktor Frankl, na qual o ser humano é compreendido como um ser multi e interdimensional, tanto na saúde quanto na doença. A sanidade do ser humano não é apenas somática, nem apenas somática e psíquica, mas uma sanidade somática, psíquica e noética*, permeada pelo social.

A Logoterapia é uma abordagem com foco no sentido da vida, é a “terapia da esperança”, a “psicoterapia das alturas”, e pode ser utilizada para promover saúde através de prevenção e manutenção desta, ou seja, o foco está na saúde e não na doença.

Pensar em promoção da saúde implica em compreender a natureza do processo humano do adoecer. A Logoterapia parte do pressuposto que o ser humano sofre e adoece não apenas pelas necessidades primárias – sede, fome, sono, sexo – mas igualmente pela frustração de sua principal motivação – o imperativo de viver com sentido.

A falta de sentido, fragiliza, deixa o indivíduo desprotegido, vulnerável ao vazio existencial, a frustação noética e/ou a neurose noogênica, ao se perceber frustrado no caminho do sentido. Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.

Na minha prática clínica de 25 anos em atendimento psicoterapêutico, e desde 2000 como logoterapeuta, observo que os pacientes chegam ao consultório apresentando sintomas diversos e queixas variadas, contudo a ênfase é a busca de sentido no sofrimento, necessitando enfrentá-lo e aprender a cuidar de si de uma forma mais saudável, o que implica aprender a lidar com as dificuldades da vida, o que Frankl nomeou de tríade trágica – perdas, falhas e finitude (sofrimento, culpa e morte). Como nos ensina Frankl, “não é o que esperamos da vida, mas sim, o que a vida espera de nós”, essa é a pergunta que deve ser feita no mais profundo âmago do ser humano.

Para promover a saúde do ponto de vista logoterapêutico, precisamos lembrar que a realização pessoal não é o maior objetivo da existência humana, mas sim uma consequência do encontro de sentido na vida. Sentido que só pode ser encontrado através da autotranscendência, isto é, se direcionar para algo (ou alguém) além de si. A autorealização é um efeito secundário, aquilo que se denomina felicidade, que só pode ser alcançada como efeito, e não como meta.

Enquanto propósito significativo capaz de desenvolver a dimensão vital noética profunda, a questão fundamental para essa concretização é novamente modificar o questionamento interno, deixar de se questionar sobre os porquês da vida, e começar a se perguntar sobre os para quês. Pessoas são chamadas pela dimensão noética a despertar a consciência, tornarem-se responsáveis e a vivenciarem profundamente seus atributos de homo faberhomo amans e homo patiens (o homem que faz, ama e sabe sofrer, respectivamente).

A logoterapia não propõe libertar o ser humano daquilo que percebe como sofrimento, mas auxiliá-lo a lidar com ele. Partindo da hipótese de que não há situação na vida que não contenha em si alguma possibilidade de sentido. Esse é o primeiro e mais importante aspecto do caráter preventivo logoterapêutico: amparar pessoas sadias ou doentes na jornada individual da busca de sentido.

Para fortalecer os fatores protetores para prevenção e enfrentamento dos fatores de risco, utilizo na prática clínica recursos logoterapêuticos para despertar e afinar a consciência, apelar ao sujeito sadio interno (conceito encontrado na salutogênese, sintonizado com as propostas de nossa abordagem) engajamento nos pontos culminantes do passado, de concentração no presente e de chegada no futuro, percepção de possibilidades de sentido e incentivo à concretização do que foi percebido.

O segundo aspecto preventivo é que a Logoterapia ajuda a pessoa a tomar decisões que possuam sentido, como um processo psico-educativo contínuo. É necessário aprender a trabalhar com o senso de coerência entre intenção e ação. Elisabeth Lukas dizia a seus pacientes “Queiram aquilo que fazem! ” e não: “Façam o que querem! ”

Concluindo, o terceiro aspecto de prevenção e amparo ao ser humano no fortalecimento interno, para que mantenham suas decisões plenas de sentido, há um importante fator de conscientização, toda decisão contém em si vantagens e desvantagens a serem consideradas, e isto implica em exercer a liberdade de escolha e o consequente enfrentamento com responsabilidade pelo valor da decisão.

“A tese que nos serviu de ponto de partida: ser pessoa é ser livre e ser responsável”. Viktor Frankl

*O termo “noético” deriva da palavra grega nous que significa “espiritual” e é utilizado no lugar desta para evitar conotações religiosas.

Crédito da Imagem: www.pexels.com.br


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, e também coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

Sobre os Desafios da Educação Contemporânea

Quando Viktor  Frankl aborda a liberdade, sempre faz referência à correspondente responsabilidade. Nesse artigo você encontrará importantes reflexões “sobre os desafios da educação contemporânea” no que diz respeito à responsabilidade dos pais em relação à educação dos filhos. Certa vez indagado, Frankl respondeu que “na Logoterapia o paciente (…) precisa ouvir certas coisas que, às vezes, são muito desagradáveis de se ouvir”. Aceita o desafio?

“Existe um premente chamado para tomada de consciência por parte dos pais e mães da necessidade de acompanhar os seus filhos e da necessidade de se responsabilizar por essa criança ou por esse jovem. O que percebemos é que muitas famílias que não o fazem, ou estão sem referencial sobre o que deve ser feito ou não sabem como deve ser feito – por vezes até sem motivação para o fazer. Contudo, se pais e mães não educam, quem educará?”

Observo repetidas vezes situações que me levam a refletir… Pais e mães limitando sua participação na vida dos filhos, chegando quase a se autoexcluir. São pais e mães, é inegável, mas quase nunca estão lá. Delegam suas tarefas às babas, empregadas, avós e avôs e, algum tempo depois, delegam à escola a tarefa de educar. Parece-me que algo está fora de sintonia quando por alguma ou várias razões, pais e mães não desempenham seus papéis, não assumem sua responsabilidade, não dedicam tempo aos filhos, não cuidam da alimentação, do banho, do sono, da higiene, do brincar – ah! o brincar, fundamental! E não acompanham a lição de casa.

Quanto mais reflito, mais me questiono, por que será que tantas famílias agem dessa forma, assumindo apenas parcialmente a responsabilidade por seus filhos? A terceirização da educação dos filhos é o grande drama das famílias contemporâneas.

E nisso, leio uma reportagem sobre a mensagem do Papa Francisco durante a catequese aos peregrinos, na Praça São Pedro em 20 de maio de 2015, que realmente sustentou minhas reflexões sobre isso.

Segundo o Papa, há dois elementos essenciais da educação dos filhos: a sabedoria e o equilíbrio. Ele convida as famílias a retomar seu papel ativo: “Quando a educação familiar redescobre o contentamento de seu protagonismo, muitas coisas mudam para melhor para os pais incertos e desiludidos. Chegou a hora que os pais e as mães saiam de seu ‘exílio’ e reassumam plenamente o seu papel educativo.” Ainda alerta para a necessidade dos pais saberem acompanhar os filhos passo a passo e não exigirem que percorram o caminho do crescimento sozinhos.

Viktor Frankl nos ensina que para o ser humano, o mais importante não é a liberdade “de algo”, mas a liberdade “para algo”. Não é suficiente livrar-se dos obstáculos, deveres e compromissos, para ao final recair no vazio existencial. O importante é transformar a vida em algo que tenha sentido.

Existe um premente chamado para tomada de consciência por parte dos pais e mães da necessidade de acompanhar os seus filhos e da necessidade de se responsabilizar por essa criança ou por esse jovem. O que percebemos é que muitas famílias que não o fazem, ou estão sem referencial sobre o que deve ser feito ou não sabem como deve ser feito – por vezes até sem motivação para o fazer. Contudo, se pais e mães não educam, quem educará?

E o que significa reassumir plenamente o papel educativo paterno e materno? Qual é o papel educativo da família? A família contemporânea modificou-se, assumiu novos padrões. Ao mesmo tempo, como já foi dito, ficou sem referencial sobre o que deve ser feito e como fazer, perdendo-se na multiplicidade e descentramento da cultura pós-moderna. A

CULTURA PÓS-MODERNA E O DESCENTRAMENTO

Considero cultura pós-moderna como uma condição peculiar da cultura contemporânea, que principia no início da década de 70 do século XX, como uma consequência de profundas e irreversíveis transformações sociais. É também caracterizada pela presença de múltiplas redes, com signos e significados diversos, provisórios, incomensuráveis e alternativos. A cultura pós-moderna também tem expressão como condição existencial, pelo descentramento, pelo niilismo e pela expressão do desencanto. O tempo na cultura pós-moderna é o tempo instantâneo, imediato, do sempre jovem; num tipo de vida que nas cidades ocidentais contemporâneas é caracterizado pelo ativismo frenético. O que, em última instância, dificulta unir o passado e o presente ao futuro, bem como tomar consciência da própria biografia, da própria história.

Elisabeth Lukas aponta para as consequências críticas da descentralização da família, afirmando que a família nuclear está desintegrando e a vida familiar se tornou insuportável para muitas pessoas, perdendo seu sentido. O ser humano moderno obteve progresso e muitas vantagens, “libertação dos velhos costumes” e bens materiais, mas atingiu a felicidade que almejava?

Ainda parafraseando Lukas, ao considerarmos o aspecto do sentido da vida, o simples “ter” não garante um estado de “ser” pleno de sentido.

O OLHAR DA LOGOTERAPIA SOBRE A EDUCAÇÃO

Perante esse cenário busco o olhar da Logoterapia a respeito da educação. Educar é afinar a consciência. A educação logoterapêutica tem como fim o desenvolvimento da capacidade de tomar decisões independentes e autênticas, a partir de valores pessoais, pois parte do pressuposto que o ser humano tem em seu âmago a liberdade da vontade, a vontade de sentido e o sentido da vida. Assim, é papel da educação despertar e conduzir o ser humano a responder por si mesmo de forma criativa e concreta, de maneira que possa decidir e agir com responsabilidade perante todos os desafios que a vida lhe trouxer.

Se a infância é uma fase temporária, pré-requisito para a fase da vida adulta, se a criança é um ser em desenvolvimento, por que tanta dificuldade em efetivamente assumir esse papel na educação e prepará-los?

Então, surge outra pergunta: essa família a quem o Papa Francisco convida a reassumir seu protagonismo na educação dos filhos, proporciona a crianças e jovens o afinar da consciência e o despertar da responsabilidade que a Logoterapia propõe?

Enumero alguns fatores que possivelmente estão aumentando a dificuldade de pais e mães a assumirem plenamente o seu papel de educar:

1. crença absoluta que temos o direito de ser feliz,

2. falta de limites,

3. falta de diálogo genuíno,

4. ambição e consumismo,

5. delegação da educação para a escola.

Com a crença absoluta de que temos o direito de ser feliz, a qualquer preço e com quaisquer consequências, chegamos ao ponto nevrálgico, a geração do “eu mereço”, jovens que acreditam que a “felicidade” é um direito adquirido. Grande parte desta última geração, composta por jovens que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, são academicamente preparados, tem farto acesso a toda tecnologia, tem a ilusão de que a vida é fácil, possuem muitas habilidades e competências, mas não aprenderam a lidar com as dificuldades da vida, a tolerar frustrações e decepções.

Acreditam os jovens que é possível desfrutar de um lugar no mundo sem dedicação e esforço, e principalmente, acreditam que é possível viver sem sofrer. Não foram ensinados a lidar com o sofrimento, o conflito, a perda e a finitude – sim, são crentes no mito da eterna juventude e da total felicidade do Facebook. Para ajudá-los, é preciso ensiná-los a falhar, a criar a partir das dificuldades.

Novamente citando Lukas, a Logoterapia ensina que não é o bem-estar exterior que nos traz automaticamente o bem-estar interior, mas o critério decisivo para a satisfação interior do ser humano é a sua atitude interior perante as condições externas, positivas ou negativas.

A pedagoga e escritora Eloisa Miguez afirma que educar é promover a experiência de “oferecer algo de si” ao mundo ou ao outro, é educar para a criatividade, para a convivência, cooperação, solidariedade, ajuda mútua e sensibilização para perceber a relação entre o mundo do valor e da cultura.

Sobre a falta de limites, regras e valores, é constante a omissão familiar, muitas vezes é feita a opção pelo mais fácil, para não gerar atritos ou estresse dentro de um modo de vida já tão estressante.

O PAPEL DA AUTORIDADE

Há uma necessidade premente de mudança nas relações entre pais e filhos, reaprender a negociar com os filhos mantendo a autoridade. Mas a palavra autoridade soa como algo terrível! É natural que tenhamos essa má impressão da palavra quando entendemos que nas últimas três ou quadro décadas a sociedade foi se reorganizando de maneira que a questão da hierarquia foi sendo alterada. E hoje, a organização social está constituída como rede, o que acentua as dificuldades para estabelecer limites.

Até algumas décadas atrás, a família assumia o papel de transmissora de valores e regras, hoje o papel da família é compreendido como o de transmitir segurança, conforto e afeto. Nesta organização social constituída como rede não existe mais lugar diferenciado para a autoridade, não há poder legitimado, sequer o poder familiar, de pais e mães. Então, como trabalhar a questão de limites? Limites claros e compreensíveis, aplicados de forma coerente e firme, permitem que as crianças se desenvolvam sentindo-se seguras e protegidas. Quando as famílias não conseguem trabalhar a questão dos limites, a questão da responsabilidade perante aquilo que se escolhe, perante as decisões, deparamo-nos com a crescente dificuldade de lidar com a frustração. Em algum momento da vida haverá frustração e a Logoterapia nos ajuda a lidar com os conflitos, dificuldades, perdas, falhas, culpa. A Logoterapia diz que, em sua essência, o ser humano é um ser livre – se não livre “de”, livre “para”, livre para escolher que atitude tomar perante as situações que se lhe apresentam. É por isso importante trabalhar com os limites, aprender a dizer não aos filhos quando necessário: como ensina o professor e psicólogo Alejandro De Barbieri, educar sem culpa!

Viktor Frankl deixa claro qual o papel da educação à luz da Logoterapia: “Vivemos na era da sensação da falta de sentido. Nesta nossa época a educação deve procurar não só transmitir conhecimento, mas também aguçar a consciência, para que a pessoa receba uma percepção suficientemente apurada, que capte a exigência inerente a cada situação individual. Numa época em que os 10 mandamentos parecem perder sua validade para tantas pessoas, o ser humano precisa ser capacitado a captar os 10.000 mandamentos que se ocultam de forma cifrada em 10.000 situações com as quais se confronta na vida. De uma forma ou de outra, mais do que nunca a educação é educação para a responsabilidade.”

EDUCAR PARA A RESPONSABILIDADE

Faz parte da educação para a responsabilidade o aprendizado do diálogo genuíno. Quando essa prática não está presente, não há espaço para falar das emoções. E se os pais não ajudarem seus filhos a identificar e lidar com essas emoções, quem o fará? É necessário falar dos medos e da tristeza. – Mas, se a “felicidade” é um direito adquirido e somos todos felizes, jovens e bem-sucedidos, como falar dos problemas, dos sofrimentos, das dúvidas e dos temores? Como bem apresentado no filme Divertida Mente (2015), é importante aprender a lidar com todas as emoções, alegria, raiva e tristeza, e o quanto tudo isso pode ser curativo e transformador, lidar com esses sentimentos. Um momento de crise está repleto de possibilidades para encontrar sentido.

Ao retomar a prática do diálogo genuíno, conversando sobre tudo, trocando ideias, negociando possibilidades, estabelecendo limites e responsabilidades – como consequência da sociedade em rede – e reaprendendo a negociar com os filhos, a decisão final e a responsabilidade das escolhas são dos pais. Educar significa mobilizar a capacidade de decisão responsável.

A respeito de ambição e consumismo surge o louvável argumento de que os pais trabalham demais para dar uma vida “melhor” aos filhos. Mas melhor sobre qual ponto de vista? Material? Então, só isto basta? Esse argumento justifica muitas vezes o fato dos pais quase nunca estarem presentes, e para compensar a ausência constante, tanto física quanto emocional, utilizam dinheiro e presentes como moeda de troca. Sob esta perspectiva, o consumismo é muito útil. Entretanto, essa atitude – resolver as questões dos relacionamentos e vínculos familiares a partir do aspecto financeiro – transmite aos filhos a noção equivocada de que dinheiro substitui responsabilidade, e, que ter dinheiro e pagar a alguém para responsabilizar-se é suficiente. Como diz o filósofo e escritor Sergio Sinay – “Para dedicar tempo aos filhos, é preciso deixar outras coisas de lado”.

Os filhos passam a fazer exigências cada vez maiores, até mesmo de coisas materiais, e os pais acatam, pois são as necessidades materiais as mais fáceis de atender. Centrados nos objetos de consumo, as famílias criam uma rede sem sustentação, de forma que a angústia do vazio existencial está sempre presente e, a convivência supérflua não estabelece os vínculos necessários para que se vivencie os valores de experiência.

Esse vazio existencial, é aquele que Frankl descrevia afirmando que vivemos na era da sensação da falta de sentido, uma época na qual, principalmente nos países industrializados e nas sociedades abastadas, um número cada vez maior de pessoas possui recursos para viver, mas não de um significado para o qual viver. Mais do que nunca a educação necessita ser educação para a responsabilidade, promover a capacidade de tomar decisões autênticas e independentes, de ser seletivo, aprender a distinguir o que é essencial do que não é, o que tem sentido do que não tem.

OS PAIS, A ESCOLA E… AS CRIANÇAS

Ao longo dos anos, com tantas mudanças na organização social, a família foi gradativamente delegando para a escola a tarefa de educar, formar e socializar, porém essa situação já não se sustenta mais. A família é elemento indispensável para a educação e formação no âmbito pessoal. Elisabeth Lukas diz que a família é “o centro gravitacional do amor”, que ela constitui o centro da vida.

Voltamos a questão da responsabilidade, pois delegar é renunciar à responsabilidade pelos resultados.

Como nos lembra Alejandro De Barbieri, os pais são os que devem educar, a escola pode educar como segunda instância, não como primeira. Gostemos ou não, o fato é que, na família se educa emocionalmente e na escola se transmite conhecimentos, a educação formal.

Assim, é importante pensar sobre a questão formativa dos adultos, dos pais e mães, que tem a responsabilidade de educar, ou seja, a concomitante “educação dos pais” trará resultados mais efetivos do que apenas trabalhar a “educação dos filhos”.

O filósofo e escritor Fernando Savater atribui ao “ fanatismo pela juventude” a causa de que agora os pais já não exercem o papel de formadores, senão tentam ser amigos de seus filhos; e este fato, diz o autor, é uma das causas da família como núcleo social ter-se tornado tão informal. Porém, para que uma família funcione adequadamente, é indispensável que alguém nela decida e seja adulto. A vida em família precisa ser valorizada novamente, a experiência da paternidade e da maternidade novamente ser percebida através de seu sentido existencial. Reassumam o protagonismo na educação dos filhos, conclama o Papa Francisco!

É em família que se aprende a conviver com limites e frustrações, a refletir sobre as consequências positivas e negativas de escolhas e atitudes, os filhos precisam da presença constante dos pais, da orientação amorosa e firme para desenvolver uma efetiva capacidade de tomada de decisão responsável.

Parece-me que o mais importante é relembrar o compromisso assumido e ajudar os pais a ampliarem seu campo de visão e despertar para sua responsabilidade de educar os filhos, da urgência em agir e participar amorosamente dessa tarefa.

“Se quisermos estender uma ponte de pessoa a pessoa – e isto é válido também para uma ponte de conhecimento e compreensão – as cabeças da ponte não devem ser precisamente as cabeças, mas os corações”.

Viktor Frankl

Crédito: Foto de Andrea Piacquadio no Pexels


Este artigo foi escrito pela nossa diretora educacional, Simone Guedes, que é pedagoga, especialista em RH e Logoterapia e coordena os estudos e programas de desenvolvimento humano na Núcleo de Logoterapia Agir Três.

O sentido da vida em tempos difíceis

Tempos extremos, como este que vivemos na atualidade, colocam nossa liberdade em questão. Quando a sobrevivência se torna um imperativo, há uma série de imposições externas e internas que impactam nosso modo de operar e de nos relacionar. A pandemia da COVID-19 nos fez instaurar novas medidas no dia a dia: preventivas, como o isolamento físico e procedimentos de higiene para evitar contágio e transmissão; de manutenção, como dos serviços básicos e de abastecimento; e também medidas emergenciais, como a atuação de profissionais de saúde, da área social e de pesquisa, na linha de frente de combate ao vírus. Somando a esse contexto complexo, enfrentamos uma grave crise econômica, que tem gerado desemprego e reduções orçamentárias drásticas. Tudo isso e ainda lidando com a preocupação, o sofrimento e o medo de um inimigo invisível aos nossos olhos.

Imersos neste cenário, podemos nos questionar: “é possível ser livre em tempos de isolamento?”, “como posso ser livre se estou enfrentando diariamente um vírus que pode ser muito grave e letal?” e “será que vou sobreviver à pandemia?” – questões que colocam, em seu centro, não a nossa, mas liberdade do vírus. No fundo, queremos nos ver livres logo desse inimigo externo que nos privou do mundo como o conhecíamos, que trouxe perdas e nos fez encarar nossa própria finitude. Então, a pergunta que é pano de fundo para as anteriores é: “qual o sentido desse sofrimento todo?”.

É essa falta de sentido no sofrimento que nos frustra, vulnerabiliza e fragiliza, a ponto de gerar ansiedade, estresse crônico, melancolia, irritabilidade, neuroses, fadiga mental e emocional e até vazio existencial. E sem dúvida isso afeta toda a nossa forma de ser e de nos relacionar: há pessoas sofrendo extrema pressão do trabalho (seja home office ou in loco, seja pelo excesso ou pela impossibilidade de trabalhar), há pessoas enfrentando solidão, outras cansaço, dificuldades e estresse na convivência privada (com familiares, parceiros e até problemas de violência doméstica). Não é à toa que, assim como hospitais, centros de atendimento psicológico e psicoterapêutico também estão lidando com o aumento exponencial de pessoas que precisam de apoio para lidar com questões psicoemocionais em meio à pandemia. A Federação Internacional da Cruz Vermelha, inclusive, publicou orientação provisória para profissionais e voluntários de primeiros cuidados psicológicos remotos durante o surto de COVID-19.

Mas o que sentido de vida tem a ver com liberdade? Buscar sentido na vida, mesmo em situação de sofrimento, é um caminho para a liberdade, segundo a cosmovisão de Viktor Frankl, médico vienense, sobrevivente de campo de concentração, que criou (e vivenciou) a Logoterapia. O exemplo do que ele enfrentou e, sobretudo, de como experienciou essa situação extrema pode nos trazer pistas de como lidar com o momento atual.

Em seu livro Em Busca de Sentido, onde narra o que viveu no campo de concentração, Frankl aborda o conceito de liberdade interior, trazendo como pergunta orientadora algo semelhante ao que levantamos acima: “Onde fica a liberdade humana?” (Frankl, 2008, p. 88); e discorre sobre a possibilidade de agir “fora do esquema” (no caso, o dos campos de extermínio), de pessoas que foram capazes, apesar das circunstâncias e condições degradantes, de não sucumbir à apatia, irritação, à sujeição do dominador ou perda de vitalidade:

no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. E havia uma alternativa! (Frankl, 2008, p. 89)

Ressalvadas as devidas diferenças, essa liberdade como atitude também é hoje uma chave para lidar com a pandemia, inclusive como um fator de preservação de saúde e manutenção da vitalidade humana. Não se trata de se livrar do que faz sofrer, mas de agir nessa situação, lidar com o sofrimento, compreendendo que também nele há possibilidades de sentido. Na experiência de vida dele nos campos de concentração, enquanto alguns se perguntavam se sobreviveriam àquela realidade, Frankl se questionava sobre o sentido do sofrimento e da morte, como parte da vida e da existência humana, afinal:

Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida. (Frankl, 2008, p. 91)

Uma vida com sentido é esta em que se tem liberdade de escolha de atitude diante do que ela espera de nós, enfrentando com responsabilidade as decisões tomadas. Para Frankl, a liberdade só é possível com responsabilidade. Para ele, “ser pessoa é ser livre e ser responsável”, e a liberdade está em realizar essa busca de sentido na vida, encontrar o “para que viver” de cada ser único e irrepetível que somos. Tempos difíceis, de sofrimento, nos colocam no enfrentamento direto com questões sobre o sentido de vida. Por isso, é fundamental compreender que sempre há uma decisão interior possível diante de uma situação extrema – e que é essa decisão (que pode ir da vitimização à manutenção da dignidade e humanidade) que vai conduzir ao tipo de transformação que podemos vivenciar nessa situação.

É adotando uma atitude humanizadora, de manutenção de sua dignidade, inclusive em situação de sofrimento, que o ser humano se põe em busca do seu sentido na vida. O sentido, para a Logoterapia, está na possibilidade de o ser humano encarar os sentidos que está para realizar, valores a realizar. Posto isso, é viver num campo polar de tensão estabelecida entre a realidade e os ideais por materializar. O sentido deve ser descoberto, ele não pode ser dado.

Então, que caminhos existem para encontrar esse sentido? Frankl aponta a vivência de valores de criação, a liberdade espiritual (sem atribuição dogmática ou religiosa) e a experiência com o que é belo, da natureza e da arte. Bebendo da mesma fonte, o escritor búlgaro Todorov reforça esses elementos, em seu livro Diante do Extremo, nomeando-os como exercício da vontade, cuidado de si (cuidar-se, nutrir-se, respeitar-se em primeiro lugar) e atividades do espírito (busca da beleza e da verdade).

Através desse exercício da liberdade com responsabilidade, é possível identificar o sentido daquilo que a vida apresenta no momento (especialmente em tempos em que nossos prazeres são reduzidos), mobilizar recursos internos, despertar nossa consciência e encontrar o sentido e o significado de nossa existência, para transcender o sofrimento e seguir em frente.

Referências bibliográficas

FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008

INTERNATIONAL FEDERATION OF RED CROSS AND RED CRESCENT SOCIETIES. Primeiros cuidados psicológicos, remotos, durante o surto de COVID-19. Mar. 20. 13p

TODOROV, T. Diante do extremo. Trad. Nícia Adan Bonatti. São Paulo: Ed. Unesp, 2017

Imagem: montagem sobre original de francescoch/iStockPhoto


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

Precisamos falar sobre isso…

Quando o racismo salta aos olhos

Nas últimas semanas, nossos olhos e afetos têm sido impactados pelas notícias estarrecedoras de mortes de negros, incluindo crianças, como os casos dos meninos Miguel (em Recife) e Guilherme (em São Paulo). Mesmo com inúmeros casos assombrosos de vidas interrompidas aqui no nosso território natal, o estopim que trouxe o tema do racismo para a arena da discussão foi o caso do assassinato à luz do dia do afro-americano George Floyd, numa abordagem policial abusiva registrada em vídeo pelo celular de uma adolescente. A partir desse evento, a voz do movimento antirracista Black Lives Matter foi amplificada por uma série de protestos nos Estados Unidos, viralizando com a repercussão dos quadrados pretos nas redes sociais no mundo todo, que furou bolhas também em nosso país. O que temos visto como desdobramento desde então são discussões fundamentais sobre a pauta do racismo estrutural, branquitude, antirracismo, entre outras – algo inédito, na minha perspectiva pessoal.

Como brasileiro e negro, é a primeira vez que percebo um incômodo diferente no olhar de quem se deparou agora com o racismo estrutural que se manifesta há anos, de forma mais abrasiva em casos sinistros como os anteriores, em nossas frias estatísticas de desigualdade racial e também em nosso cotidiano, em formas capciosas de preconceito travestidas em humor, em condutas, falas e expressões. Como psicólogo e professor negro, busco olhar esta atual tomada de consciência desse tema de forma reflexiva e otimista, propondo aqui também minha voz, pela primeira vez expressando de forma pública minha opinião sobre o racismo.

Diante da força dos fatos que nos têm atravessado (e traumatizado), especialmente nestes tempos de pandemia, que têm exposto nossas maiores feridas públicas e privadas, chega o tempo em que precisamos falar sobre isso.

Precisamos falar sobre os episódios de violência (física, econômica ou simbólica) e discriminação que todos nós, negros, vivemos e que geralmente ficam guardados no nosso íntimo ou em nosso núcleo de confiança. Precisamos falar sobre a invisibilidade e o silenciamento que negros sofrem nesse país, reflexo de mais de 350 anos de escravidão que os últimos 130 anos desde a abolição jurídica ainda não conseguiram reparar. Precisamos falar que hoje, segundo dados do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE), pretos e pardos somam 56,4% da população brasileira, isto é, a maioria. Precisamos falar e dialogar a fim de cultivar uma nova cultura onde negros consigam respirar, ser vistos e ouvidos, por meio de projetos possíveis e reais em nossa sociedade, incluindo todas as raças e cores que a compõem.

Quando o racismo salta aos olhos, mas as pessoas se calam, o silêncio reforça a estrutura do preconceito por meio da manutenção do não saber e do tabu dos “assuntos sensíveis”. O que minha prática clínica de 30 anos em atendimento psicoterapêutico, e desde 2000 como logoterapeuta, me revela é que falar sobre temas que geram sofrimento e buscar sentido mesmo nas dores mais profundas é caminho viável para enfrentar as dificuldades que a vida impõe nas condições que se apresentam. Frankl nomeia as dificuldades fundamentais da vida como tríade trágica – perdas, falhas e finitude (ou sofrimento, culpa e morte). Essa tríade que o médico vienense viveu num período intenso de sua vida nos campos de concentração nazista, e que certamente gerou impactos profundos em sua existência, acaba se transformando em tridente que fere há centenas de anos quem traz na cor da pele o registro de um povo que teve sua humanidade sequestrada pela escravidão, por meio da privação do uso da própria linguagem, da liberdade de seu corpo e da memória de sua história e cultura. Dadas as proporções e as diferenças destes holocaustos (o massacre de judeus e minorias no regime nazista da Segunda Guerra Mundial e o de negros nas Américas coloniais que perdura até os dias atuais), há elementos da obra de Frankl que me movem a não me posicionar como vítima das circunstâncias que se impõem e me ajudam a extrair uma saída possível para essa tragédia – o que ele chama de otimismo trágico. Quando ele afirma que:

“Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal de contas, o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o destino e a morte. Aflição e morte fazem parte da existência como um todo.”
(Viktor Frankl, 2008, p. 90)

Ele não diminui o tamanho do sofrimento, nem propõe a imposição de um pensamento perverso de negação dessa dor ou sua aceitação passiva. Pelo contrário, ele propõe atitudes de dignidade, coragem e valor diante de um sofrimento inevitável (como é o caso do racismo hoje). A proposta de liberdade interna na situação de sofrimento certamente exige muito de nós, mas nos convoca a “assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas” e a entrever perspectiva de futuro.

Se os tempos atuais fizeram finalmente o racismo saltar aos olhos é porque há também possibilidades concretas de mudança dessa cultura. É tempo de cada um, do seu lugar de fala e atuação, refletir e agir com sua contribuição legítima e mais efetiva possível: seja na linha de frente da luta, seja na manutenção ou na mudança de hábitos, linguagem e escolhas no dia a dia. Do meu lugar como psicólogo, professor e pessoa, sigo propondo espaços de diálogo, acolhida e reflexão em prol de uma cultura em que possamos ver seres humanos antes da raça ou da cor, o que Frankl nomeia como monantropismo (“o saber em torno da unidade da humanidade, uma unidade que ultrapassa todas as diversidades, quer as da cor da pele, quer as da cor dos partidos.” (Frankl, 2010)) – e o que foi evidenciado como possível na fala de Patrick Hutchinson, personal trainer que impediu que outro homem fosse espancado nos protestos antirracistas em Londres, em 15 de junho (na foto, o homem negro é o personal carregando um homem branco desconhecido em seus ombros, salvando-o do pisoteamento). “Tinha um ser humano no chão, e vi que aquilo não ia acabar bem. Agachei e o carreguei nos ombros como fazem os bombeiros” – disse Hutchinson.

Acredito que é preciso falar do que estamos vendo. Porque a fala das dores, dos sofrimentos, e também dos lampejos de consciência que vemos acendendo nos olhos das pessoas e nas lentes da mídia, revela que é possível fazer-se visível aos olhos que estavam cegos para nossas questões raciais, afinal:

Quando é que o olho é capaz de enxergar-se, se prescindirmos do espelho? Somente quando está afetado de catarata. […] Sempre que puder olhar para si mesmo, será porque está com a capacidade visual prejudicada. (Frankl, 2012, p. 20)

Referências bibliográficas

FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

FRANKL, V. Logoterapia e Análise Existencial. São Paulo: Forense Universitária, 2012.

FRANKL, V. Psicoterapia e Sentido da Vida – Fundamentos da Logoterapia e Analise Existencial. São Paulo: Quadrante, 2010 – p.28.

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) 2020. Disponível em: <https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6403>. Acesso em: 14/6/20.

PINTO, Ana Estela de Sousa. “Só pensei em tirá-lo dali”, diz ativista negro que salvou branco de ser espancado. jun. 2020. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/06/so-pensei-em-tira-lo-dali-diz-ativista-negro-que-salvou-branco-de-ser-espancado.shtml

Imagem: Heraldo Galan


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

Curso Judaísmo, Viktor Frankl e o sentido da vida

O nosso próximo evento é especial por duas razões: pelo tema muito importante e pela parceria formada. A convite da Dra. Andrea Kohgan, nós do Núcleo de Logoterapia AgirTrês, estaremos presentes na PUC-SP para o curso de extensão “Judaísmo, Viktor Frankl e o sentido da vida”. O curso é oferecido pelo LABÔ – Laboratório de Política, Comportamento e Mídia.

A Logoterapia – escola psicológica fundada pelo Dr Viktor Frankl – parte do pressuposto que o ser humano é um buscador de sentido. Esta proposta humanizadora trabalha temas como liberdade como responsabilidade, conduta única e foco na alegria com as pequenas coisas da vida. O “sentido na vida” compreende também a ideia de propósito vital, valores e respostas pessoais às questões que a vida apresenta, envolve a conscientização e o despertar dos valores que nos convidam a agir de um modo particular ante situações específicas, proporcionando congruência, coerência e identidade pessoal.

O judaísmo tem o foco na ação perante as contingências da vida – desde pequenos aborrecimentos a grandes tragédias. Conhecer a lógica do pensamento judaico, nos possibilita maior profundidade no conhecimento da Logoterapia, o grande legado de Viktor Frankl ao mundo.

Data: 5 de outubro, sábado
Horário: 9h as 13h
Tipo de curso: Curso de extensão, com certificado de 4 horas emitido pelo COGEAE.

Faça sua inscrição aqui.

Aguardamos você lá!

5º Grupo de estudos de aprofundamento em Logoterapia

Grupo de Estudo - Aprofundamento em logoterapia. AgirTrês

Crédito da foto: Shopify

Grupo de Estudos com foco em apoiar um maior embasamento teórico e aprimoramento da práxis logoterapêutica. | de março a dezembro de 2020.

Pré-requisitos: formação em Logoterapia

Encontros (sexta-feira, à tarde):
13 março, 3 abril, 8 maio, 5 junho, 3 julho, 7 agosto, 11 setembro, 2 outubro, 6 novembro, 4 dezembro.

Local: R. Joaquim Antunes, 490. São Paulo-SP

Depoimento que quem já participou:

O grupo de estudos oferece a possibilidade de aprofundamento nos conceitos teóricos da Logoterapia, bem como a troca de vivências e experiências da aplicação das técnicas logoterapêuticas na prática clínica. Um espaço no qual acontece o encontro de pessoas únicas e irrepetíveis que buscam a construção do conhecimento e o crescimento pessoal.”  – Lucia

Clique aqui e conheça outras experiências de quem já participou.

Para mais informações sobre investimento e inscrições, escreva para contato@agirtres.com.br

9º Curso de Logoterapia e Análise Existencial – Teoria e Prática clínica para profissionais da saúde

curso logoterapia e análise existencial em São Paulo - Prática Clinica - Saúde

Crédito da imagem: Ethan Sykes

Nós temos muita alegria em comunicar que o Núcleo de Logoterapia AgirTrês abre mais uma turma do curso vivencial direcionado a profissionais da saúde. Psicólogos, médicos e outros profissionais da saúde lidam com questões profundas sobre sentido da vida, sentido do sofrimento, questões relacionadas à finitude da vida entre outros temas que demandam sabedoria e estudo.

Um curso presencial em 10 módulos, com aulas mensais e uma turma pequena para proporcionar uma vivência e troca intensas destinadas à:

  • discussão de casos clínicos
  • aplicação de métodos e técnicas da Logoterapia
  • estudo da vida e obra de Viktor Frankl
  • bases filosóficas e antropológicas.

Pré-requisitos: ser profissional da área da saúde ou aluno do último ano de graduação dessa área, leitura prévia do livro Em busca de sentido, de Viktor Frankl, inscrição e entrevista.

Duração: 10 módulos, encontros mensais aos sábados, das 14h30 às 17h30. São 10 (dez) módulos de 10 (dez) horas/aula cada um, perfazendo 100 horas (cem horas) de aulas presenciais, mais 30 horas (trinta horas) de atividades complementares à distância, com duração total de 130 horas (cento e trinta horas).

Datas dos encontros:
14 março, 04 abril, 09 maio, 06 junho, 04 julho, 01 agosto, 12 setembro, 03 outubro, 07 novembro e 05 dezembro

Apenas 8 vagas. Oferecemos descontos para estudantes de graduação.

Local: R. Joaquim Antunes, 490. São Paulo-SP

Para mais informações sobre investimento e inscrição, escreva para contato@agirtres.com.br.

Veja a experiência de um aluno da turma anterior:

“Durante o curso vocês me proporcionaram um novo olhar sobre a psicologia, olhar esse que vinha buscando neste tempo de formação e profissão. Sempre com humor e acolhimento, mesmo nos momentos tristes e nas aulas mais densas sobre o Sentido do Sofrimento.

Obrigada por despertar novos olhares e novos sentidos na minha vida. Sentirei saudades desses encontros mensais mas tenham certeza que levo um novo sentido, um sentido prazeroso e cheio de amor. Obrigada por tudo e continuem iluminando o caminho de muitos que passam pela AgirTrês.” Luciana R. V

Acontece na AgirTrês (Nov/Dez 2018): Congresso ABLAE 2018, Hospital Sírio Libanês, Clínica Médica da SMCC

Muito movimento e conhecimento nos últimos meses do ano aqui no Núcleo AgirTrês! Confira os destaques e alguns registros desses momentos especiais:

  • De 15 a 17 de novembro, marcamos presença no tradicional Congresso da ABLAE (IX Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial & IV Congresso de Logoterapia Aplicada ao Envelhecimento), em Ribeirão Preto-SP. Além das valiosas palestras, troca de conhecimento e networking com profissionais ligados à Logoterapia, na ocasião, foi eleita a nova gestão da associação e Simone Guedes recebeu homenagem por sua contribuição como vice-presidente até este ano.

  • A convite do amigo Plinio Cutait, nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, ministrou uma aula no curso de Cuidados Integrativos do Hospital Sírio Libanês com o tema: O Sentido da Vida.

  • Com cerca de 40 participantes, o Departamento de Clínica Médica da SMCC encerrou as atividades do Grupo de Estudos em Cuidados Paliativos deste ano com um encontro neste último sábado (01/12) na sede social da entidade. O evento com o tema: “O Sentido da Vida: Para que viver até o fim?” contou com a palestra de Francisco Carlos Gomes.

  • Em 7 de dezembro, Simone Guedes, nossa diretora educacional, palestrou no evento on-line I Cumbre Virtual de Logoterapia y Análisis Existencial para o Instituto Venezuelano de Logoterapia Viktor Frankl, sobre o tema “Educar para a criatividade, para a convivência e para a resiliência”.

 

 

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