O que vivi com Viktor Frankl #4 | Relato logovivencial de Maria Matilde Fenocchi Guedes

A quarta edição da série “O que vivi com Viktor Frankl” conta a história de Maria Matilde Fenocchi Guedes desde a infância no pós-guerra, a chegada ao Brasil, sua vida e encontro com a obra de Viktor Frankl e sua viagem à Itália, num reencontro com sua família. Imperdível!

O DIA EM QUE ENCONTREI VIKTOR FRANKL – COMPREENDI A GUERRA EM MIM

Nasci em 1948 na Itália, no pós-guerra numa pequena cidade, Montese, nas montanhas de Modena (perto de Monte Castelo), onde foi vivida a brutalidade e destruição da 2ª Guerra Mundial. Essa região ficou totalmente devastada. Sou a 2ª filha de um casal que, assim como os outros moradores da região sofreram muito durante a guerra e continuaram a sofrer no pós-guerra, visto que a cidade, as casas e os campos estavam destruídos. Como retomar o dia a dia da vida que conheciam?

No livro  Em busca do sentido, Viktor Frankl fala sobre a vivência do prisioneiro no que define de 3ª fase, após a libertação, quando as pessoas podem voltar para as suas casas e não encontrarem nem a casa, nem aqueles a quem esperavam ansiosamente reencontrar. Percebem que é possível sofrer ainda mais, ao ter que lidar com o desemprego e as necessidades da vida cotidiana. Passado o sofrimento inicial algumas pessoas conseguem buscar força dentro de si e se reorganizar.

Uma das possibilidades que surgiu para os meus pais se reorganizarem foi a migração. Em fevereiro de 1951, meu pai migra para o Brasil! Todo o processo de migração dependia de órgãos governamentais que convocavam para o embarque de um dia para o outro. Ou seja: inscrito para migrar e aceito pelo Departamento de Migração, o candidato deveria estar sempre com o baú em ordem, pois poderia ser chamado para partir de uma hora para outra. Meu pai parte da Itália, deixando na casa dos seus pais, uma jovem esposa e 3 filhos pequenos (o mais novo com apenas 2 meses de idade). Com todas as angústias e dúvidas: quando se reencontrariam? Para onde eles iriam? O que os espera? Onde é o Brasil?

A família fica assim, à espera, seguindo a vida com dúvidas, angústias, forças e fraquezas. A esposa e os filhos aguardando a chamada para o embarque. Após feita essa escolha, honrá-la e responsabilizar-se por ela, buscar dentro de si o que pode ajudar a desenvolver a resistência para suportar o necessário para ir reencontrar seu marido e juntamente com os filhos se desenvolverem e poderem honrar todo o vivido.

Dia 5 de maio de 1953, no meu aniversário de 5 anos, ganho de volta um pai. Desembarcamos, os 4, no porto de Santos. A lembrança que tenho é de confusão, muitas pessoas e um homem que me abraça chorando e me chama de filha. Lembrança viva e forte junto com um caos de não compreender nada do que falavam, por muitos meses fiquei sem entender, não compreendia ninguém, não tinha amigos e os meus avós me perguntavam “cadê eles?”

Meu primeiro amigo brasileiro foi o bêbado do bairro, nos entendíamos, o dialeto dele era igual ao meu. Até hoje admiro e agradeço minha mãe por permitir que eu ficasse no portão do sítio conversando com ele, tivesse um amigo. Tudo isto vivido lá atrás e as vivências e experiências fortes reverberando dentro de mim com 69 anos vividos, formo esta mulher que sou hoje: esposa, mãe, avó que tem como hobby trabalho com pérolas e espelhos. Sou psicóloga, formada em 1973 e Logoterapeuta em formação.

Fui por 21 anos (de 1991 a 2012) diretora de uma empresa familiar, empresa de ônibus, e sei que fui uma boa diretora. Foi muito difícil tomar posse da empresa por conta de uma fatalidade e luto. Um dos 3 irmãos sócios, o mais velho sofre um acidente e morre aos 45 anos de idade. Assumi a diretoria! Vivi isto como uma imposição da vida…, precisei …, fui obrigada… saudosa cuidei de três famílias, demorei a entender que foi minha escolha. Entendi com Viktor Frankl: tive sim liberdade de escolha, poderia continuar com meu caminho como vinha sendo traçado ou me distanciar e olhar o todo e escolher fazer como fiz, mesmo chorando e sofrendo em muitas ocasiões.

Em 2012 vendemos a empresa e eis-me solta na vida profissional. Que fazer? Como? Para queê? Em respeito à minha natureza, volto para a psicologia, profissão que tinha exercido até 1991. De 2012 até início de 2014 vivi “titubeante”, não me reconhecia: “tudo estava bem”, mas “nada estava bem”. Sentia um vazio, “uma dor na alma”, este vazio aumentava dia a dia, de repente se aquietava e logo quanta dor, em seguida quanta esperança e assim ia, dia a dia. Até que fui presenteada por minha filha, que também é psicóloga, ela me fala de Viktor Frankl e da Logoterapia, ofereceu algumas referências e fui procurar…fuçar…buscar.

Me encantei, fiz um curso à distância e vi que estudar e praticar a Logoterapia seria do meu tamanho exato… Vamos lá…1º passo: busquei Logoterapia para mim, encontrei um Logoterapeuta amoroso, duro e com a gargalhada que ganha da minha (olha que a minha é suficientemente vivaz, escandalosa e marcante).

Juntamente com a terapia, busquei e aceitei participar de cursos, congressos, estudos, grupo de formação, lá fui eu aproveitando e sendo aproveitada. Primeiro convite que recebo foi de participar de um encontro de Logoterapia e análise existencial em São Paulo com Aureliano Pacciolla, que foi aluno de Viktor Frankl e ITALIANO, (agora o bêbado fala minha língua) vejam … a Logoterapia chega no meu quintal! Assim começo meus estudos e formação de Logoterapeuta!

Nesta época, em natural ato contínuo, conheci o Núcleo de Logoterapia AgirTrês, que o meu terapeuta, juntamente com sua mulher (eita!!!! mulher forte! decidida! clara! e trabalhadora!) administram na busca do desenvolvimento da Logoterapia no Brasil.

Para entender, estudar e me desenvolver em Logoterapia, a primeira exigência foi ler o livro de Viktor Frankl Em busca de sentido. Quanta angústia e quantas passagens eu compreendia na alma, nas emoções, lembranças e passagens que estão marcadas forte em mim! Foi preciso 3 longos meses para lê-lo, quanta dor, cenas de desespero, parecia que eu já as tinha vivido, senão concretamente, as conhecia de tanto tê-las ouvido desde sempre!

Sei que fui ninada ao som de músicas de guerra, as clássicas histórias infantis não existiram, mas passagens dramáticas vividas por todos me eram seguidamente contadas com a dramaticidade cabível e na época não entendia o porquê esticarem tanto. A guerra acabara, mas para todos que a viveram na sua dramaticidade ela não acabara, todos se sentiram e muitos ainda se sentem em luta, presos nos seus privados campos de concentração.

Em julho de 2017 numa viagem pela Itália em visita aos meus parentes (são muitos primos, alguns tios e filhos dos primos etc.), visito a casa onde nasci e vivi os 4 primeiros anos da minha vida (aí é outra história que fica para outra ocasião). Numa linda noite de verão, convidados por primos, fomos comer pizza a céu aberto numa colina em Bologna (Colina della Chiesa di San Lucca). Pizza ótima, vinho espetacular, papo delicioso, deliciosas risadas. Eu me atenho mais a uma conversa com um dos primos mais velhos (nasceu em 1945), lembramos da nossa infância, na época éramos muito próximos, com este primo já me encontrei várias vezes na Itália, não sei nem como, nem porque, nem para quê, mas neste dia a conversa tomou o rumo saudosista, ele me pergunta como foi o sair da Itália, como chegamos ao Brasil, como vivemos este começo? Falo da solidão, de não entender ninguém, da saudade dos avós, dos meus brinquedos (nenhum foi trazido, por causa do volume, ficou tudo lá), comento mais algo e de repente ele se põe a chorar, me abraça e diz: “você não imagina como nós sofremos, minha mãe chorava todos os dias de saudade e de angústia, sem saber como vocês estariam! Será que chegaram no Brasil? Será que encontraram o Erio (meu pai), será que se perderam uns dos outros?” A 1ª. carta a chegar do Brasil para a Itália demorou mais de 5 meses!

Este momento me permitiu viver o que Viktor Frankl relata na 3ª fase após a libertação, sobre a psicologia do recém-liberto: no reencontro dos prisioneiros com as pessoas da cidade que não foram aprisionadas, relata que a dor dos que ficaram era tão forte ou maior do que as de quem viveu todos os males dos campos de concentração.

Maria Matilde Fenocchi Guedes matildeguedes@uol.com.br

2 Comentários to “O que vivi com Viktor Frankl #4 | Relato logovivencial de Maria Matilde Fenocchi Guedes

  • É uma honra imensa ter te conhecido, é mais ainda por ter seu carinho de sogra, meio mãe e amiga!
    Sofri, chorei e vivi toda a intensidade ao assistir sua palestra. E hoje, mais uma vez, senti tudo isso ao ler seu relato. Tenho certeza que meus filhos, seus netos, sentirão todo esse orgulho quando puderem ler e entender o que foi o seu passado. Hoje eles já sabem o quanto são afortunados por fazerem parte da sua vida! E eu também! Te amo, Ma… Matilde, Maria, Madre, Mãe… ❤️

  • Quantas histórias, quantos sofrimentos e na busca: quanta compreensao !!!!!
    Maravilhoso…

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