O que vivi com Viktor Frankl #8 | Relato logovivencial de Claudia Mota

A oitava edição da série “O que vivi com Viktor Frankl” conta a história de Claudia Mota, que relata seu encontro com a Logoterapia a partir da Psicopedagogia e do confronto com a famosa tríade trágica de Viktor Frankl. Nesta história emocionante, Claudia compartilha como a Logoterapia a ajudou a vivenciar seu processo de luto pelo falecimento de sua filha e ainda nos dá de presente um logopoema que fez em sua homenagem. Confira!


“Em 2009 estabeleci, na escola onde eu trabalhava, um projeto de conclusão de curso. A escola tinha turmas até o 9º ano e muitos alunos estavam ali desde os 3 ou 4 anos. Entendi que de alguma maneira tinha que prepará-los para irem para o mundo. Naquela época, dando aulas de espanhol, escolhi o conto de Marina Colassanti – A moça tecelã – para iniciarmos o trabalho.

O conto fala sobre escolhas e sobre o estar na vida. A atividade foi um sucesso, os debates culminaram em um painel em que os alunos bordaram com seus nomes e fotografias, painel esse que ainda permanece na escola junto com outros trabalhos que minhas turmas fizeram até 2015, quando deixei a escola. Foi uma atividade muito significativa para eles. Anos depois, ao visitar a escola, pude encontrar um pouquinho de suas histórias ainda ressoando pelos corredores.

Sempre me angustiava quando pensava nos caminhos que aqueles meninos iriam trilhar quando saíssem dali, pois sabia, por experiência própria, que há poucos espaços para se falar sobre o sentido da vida e de escolhas no mundo atual.

É com grande satisfação e honra que por vezes encontro homens e mulheres, outrora meninos e meninas, que estão no mercado de trabalho, formando famílias e ainda têm aquele mesmo brilho nos olhos.

Sempre me sensibilizei com suas histórias e me interessava muito mais as relações, o encontro o EU e o OUTRO. Esses encontros são para mim a confirmação que acreditar e investir na educação do humano é o único caminho possível para a mudança na sociedade.

Meu nome é Claudia S. De Martino Mota, tenho 51 anos.

Sou formada em Letras pela Universidade Paulista de São Paulo e pós-graduada em Pedagogia Espírita e Psicopedagogia.

Lecionei em escolas públicas e privadas como professora de espanhol e português, também fui professora no Senai, por quase 20 anos. Nunca fiz parte da turma que se reunia na hora do café para criticar e culpar os alunos por suas dificuldades escolares ou pelas atitudes dentro da escola.

A pós em Pedagogia Espírita me possibilitou estudar e conhecer autores como Comenius, Pestalozzi e Rousseau, que tinham uma visão do homem integral, não esse homem bipartido da sociedade moderna – cabeça (intelecto) ou genitália (hiperssexualização).

Tratamos também de compreender o ser humano como espírito no seu sentido mais amplo. O estudo das diferentes correntes religiosas trouxe clareza para essa realidade que para além do senso comum, une todos os homens no que há de comum e universal o que caracteriza o humano, a dimensão espiritual.

Foi bebendo nessas fontes que cheguei a Viktor Frankl. E em paralelo com minha vida profissional, outros fatores me levaram ao encontro com Frankl.

Desde pequena era vista pela família e pelos amigos como a engraçada e risonha.

Me marcou um momento em que uma prima me perguntou por que eu era feliz. Certamente vão para mais de quarenta anos dessa pergunta e creio que hoje tenho mais solidez para essa resposta.

Há mais ou menos, três anos, nos preparativos para a concretização de um projeto ambicioso e inovador – a Terapia Pedagógica –  que nasceu dentro da Pedagogia Espírita, e tinha como intuito democratizar a terapia, tornando-a acessível ao grande público, conheci Viktor Frankl. Foi um ano intenso de preparação do projeto e as leituras fizeram parte desse período. Li um pouco sobre Freud, naquela época fazia pós-graduação em Arteterapia que tinha abordagem Junguiana, mas nada parecia me tocar mais profundamente até a leitura do livro base: Em busca de sentido – um psicólogo no campo de concentração.

Nesse mesmo ano, 2013, eu e minhas parceiras no projeto tivemos a oportunidade de participar do Congresso de Logoterapia no Rio Grande do Sul. Lembro com clareza a sensação de contentamento e de encontro de almas.

Foi nesse congresso que tive a oportunidade de ouvir Guillermo Herrera, Claudia García Pintos, Alejandro de Barbieri e outros queridos mestres logoterapeutas. Com muita alegria e satisfação percebi que a logoterapia era a chave para retomar meu trabalho com os jovens.

Ao longo dessa vida, tive que, por algumas vezes, confrontar-me com a tríade trágica narrada por Frankl. A mais pesada dessas experiências foi, sem dúvida, o falecimento da minha segunda filha aos três anos. Foi esse experimentum crucis que colocou em cheque o sentido da minha vida e me levou a tomar uma decisão: continuar a viver e ser feliz apesar da dor imensa.

Nesse momento, mais uma vez fui questionada sobre minha alegria e respondi que minha filha, mais velha, a sobrevivente, merecia ter uma mãe inteira. Foram 20 anos desde a morte de minha filha numa elaboração de luto intensa mais amorosa.

Neste ano, finalmente consegui me aprofundar na logoterapia e me sinto muito realizada em trabalhar a psicopedagogia com abordagem logoterapêutica.

Atualmente tenho um consultório onde atendo jovens e adultos no trabalho de psicopedagogia , orientação familiar e orientação vocacional com abordagem logoterapêutica.

Para finalizar minha história, compartilho aqui o poema que fiz para minha filha em fevereiro desse ano e que considero um logopoema.

Era um sábado de carnaval
Como outros tantos sábados de carnaval que ela tinha vivido
Tocavam as mesmas músicas de carnaval que ela tinha ouvido
Só que esse era um sábado diferente
Olhava ao seu redor e via a mesma gente
Buscando uma alegria numa data marcada

Era um sábado de carnaval
Mas não era um sábado qualquer
Não havia fantasia, maquiagem ou serpentina
Que pusessem de volta a alegria no seu rosto
Quem veio sem ser convidada de forma repentina
Foi ela, sem ter dado um aviso sequer

Deu o tom do sábado de carnaval
Levou sua menina
Tirou a máscara da alegria encomendada
Para aquele sábado de carnaval
E partiu sem despedida
Foi como chegou, num sábado de carnaval

Vinte anos se passaram
Daquele dia fatídico
Daquele sábado de carnaval
Vinte anos se passaram
Daquele sorriso idílico

Nas vésperas de outro sábado de carnaval
Deixo aqui meu agradecimento
Não por todo o sofrimento
Mas pela possibilidade de escolha
De uma alegria antes efêmera
Mas agora real
Depois de finalmente estourar a bolha
Viver uma vida plena
De uma felicidade serena

Não, não escolheria sofrer novamente
Mas agradeço sinceramente
Por poder encarar a vida de frente
Amar tanto e tão profundamente
E viver de uma forma mais convincente

Deixar de falar de amor e fé na teoria
Começar meu dia em cantoria
Batalhar pela harmonia do dia-a-dia
E fazer da minha vida uma alegoria
Por entender que a dor
É apenas uma das fantasias
que podemos vestir
para aprender as lições
de muitas vidas dentro de outra vida
e viver enfim, em pleno carnaval

Claudia S. De Martino Mota, psicopedagoga que atua na abordagem logoterapêutica

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