A felicidade é uma conquista da vontade autônoma?

Para ser feliz basta querer? Depende do que se quer. Esta é a provocação: o que queremos é a felicidade, mas não é possível colocá-la como alvo que ela nos escapa. O que fazer, então, para não cair na frustração de uma busca ilusória como essa nem no outro extremo, em um excesso de positividade, fabricado para tentar controlar a felicidade perto de nós? 

Não tenho a pretensão de trazer definições para esse tema que inquieta pensadores há milênios, que abordaram felicidade como virtude, objetivo moral, estado de espírito, aspecto biológico, circunstancial, bem-estar etc. Quero propor um olhar para as nossas escolhas hoje que podem gerar ou não felicidade como efeito colateral. Escolha no sentido de convidar a revisitar onde estamos depositando nossos esforços e refletir sobre a autenticidade dessa busca, pois:

a ‘busca da felicidade’ equivale a uma autocontradição: quanto mais lutamos por felicidade, menos a obtemos. […] Uma consciência realmente tranquila nunca pode ser alcançada por um esforço direto por ela, mas somente por meio de uma ação visando ao bem de uma causa, de uma pessoa envolvida, ou por amor a Deus. Uma boa consciência é uma daquelas coisas que só podem ocorrer como um efeito colateral não intencional, e que se destrói quando é perseguida diretamente. (Frankl, 2020, p. 61, grifo nosso)

A felicidade pode ser obtida, portanto, como consequência, não como meta. Como Guimarães Rosa escreveu, “felicidade se acha é em horinhas de descuido”, ela se dá no tempo do acontecimento, quando estamos abertos não só a ela, mas a todos os afetos que podem nos atravessar. A busca da grande e eterna Felicidade é ilusória, como alerta a psiquiatra Elisabeth Lukas, quando fala da felicidade inquietante, esta que acomete quem está sempre contemplado por grandes felicidades mascaradas de reconhecimento, poder, beleza, luxo, entre outras. Ela afirma que esse tipo de felicidade “já carrega dentro de si o germe da decadência” que “está à espreita no interior da pessoa, numa ponta de sua ‘alma’ que, aos poucos, sem que ninguém o perceba, começa a embrutecer e a apodrecer no reflexo da grande felicidade.” (Lukas, 2012, p. 172). Nesse sentido, ela vai orientar nosso olhar para o que chama de “enigma da pequena felicidade”, que gera momentos de contentamento e se conecta com a singularidade de cada indivíduo. Lukas (2012, p. 172) traz uma bela definição para esse tipo de felicidade: “Não é algo que move o mundo, move somente um coração”. 

A Logoterapia tem uma visão otimista da vida, mas nem por isso positivista no sentido de camuflar ou abafar emoções ditas negativas. Enganar-se com palavras e atitudes falsamente positivas em momentos de dor e sofrimento nos desconecta de nossos instintos e potencial de escolha a partir de nossas múltiplas inteligências (emocional, lógica, criativa, corporal etc.). Do ponto de vista psíquico, é bem perigosa a estratégia de se impor um estado feliz e positivo, pois gera uma fragmentação autocentrada, que pode evoluir para transtornos e até uma personalidade narcisista, ou seja, em que o indivíduo tem uma percepção distorcida de si, supervalorizando sua imagem e necessidades em detrimento dos demais. 

O filósofo e psicólogo Alexander Batthyány (2020), comentando sobre uma entrevista que deu a um jornal austríaco que lhe pediu uma mensagem positiva diante da crise de covid-19, diz algo precioso: “Como podemos manter uma mentalidade e um pensamento positivos? […] Existe algo muito mais útil e maduro do que o pensamento positivo: o pensamento realista”.

otimismo é uma peça-chave dentro da concepção de felicidade de Viktor Frankl; não por acaso vem acompanhado do adjetivo trágico. É uma proposta de extrair o melhor que a vida possa oferecer, dentro das condições que são apresentadas. É dizer “sim” à vida e, nesse tempo de existência, realizar sentido. A vontade de sentido é um caminho importante, porque contém um “motor propulsor” que faz com que a pessoa se oriente em direção a realizar algo de concreto e, nessa realização, encontre felicidade como “subproduto”. A porta para a felicidade só pode ser aberta pelo lado de fora, precisamos olhar para além de nós mesmos, olhar para o que está no mundo e evitar um olhar embotado para dentro de si, pois podemos ficar presos, trancados, deixando a chave do lado de fora. O otimismo trágico é, portanto, adotar uma postura ativa, engajada, mesmo diante de situações extremas.

O que caracteriza essa qualidade de postura? A busca dos sentidos de criação, conexão e humor. Por exemplo, olhar para aquilo que está criando no mundo, ou seja, como você realiza o seu trabalho, o que você dá ao mundo de forma genuína, algo que tenha um valor para a sociedade. O valor de criação, como nomeia a Logoterapia, é fundamental para que o sujeito se perceba importante dentro de um espaço social. Outro fator importante está relacionado à possibilidade de amar alguém, entregando o seu melhor numa atitude amorosa, sem deixar de olhar para si, permitindo que possa ocorrer uma troca. Só é possível receber amor quando se enxerga o outro e se ajuda o outro em seu processo de realização no mundo. Outro espaço importante é como você lida com as adversidades, com aquilo que não consegue controlar, principalmente em circunstâncias relacionadas ao sofrimento, aqueles períodos em que você se desconecta da vida. Descobrir qual sofrimento é evitável em meio a situações difíceis é fundamental para se conectar novamente a um mundo de possibilidades. O humor pode ser uma excelente ferramenta para isso, quando nos permite ter uma visão crítica e leve das situações.

Mafalda, por Quino

Qual a sua chave para a felicidade? Talvez você sinta que tem várias sem uso, ou talvez você só precise da primeira para abrir a porta para fora de si e depois notar que não precisa de mais nenhuma. Porque o foco não está no modelo de chave ideal, mas na vida que quer realizar do lado de fora, no mundo, com as pessoas. É nesse caminhar que vamos desvendando alguns enigmas da nossa pequena felicidade. 

Referências bibliográficas

BATTHYÁNY, Alexander. “Otimismo trágico”, a ferramenta psicológica criada para tempos difíceis. El País, 300 dez. 20 [LINK].

FRANKL, Viktor. Psicoterapia e existencialismo: textos selecionados em logoterapia. Trad. Ivo Studart Pereira. São Paulo: É Realizações, 2020.

LUKAS, Elisabeth. Psicoterapia em dignidade: orientação de vida baseada na busca de sentido de acordo com Viktor E. Frankl. Ribeirão Preto: IECVF, 2012.

Imagem: iStockphoto + tratamento

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Este artigo foi escrito pelo nosso Diretor Clínico, Francisco Carlos Gomes, que é coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC – SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lates que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC – SP – LABÔ.

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