O impacto da Logoterapia no trabalho de educação física na terceira idade.

Imagem: Foto de Marcus Aurelius no Pexels

No trabalho de educador físico dedicado à promoção de saúde, meu foco sempre esteve voltado ao equilíbrio e à visão integral do corpo. Sempre entendi que não adianta ter uma musculatura definida se o organismo não está de acordo com a aparência. Nessa busca por uma saúde integral, promotora de bem-estar e longevidade, busquei recursos em outras áreas para complementar o meu trabalho como personal trainer e encontrei na Logoterapia um campo fértil para trabalhar corpo, mente, emoções e sentido da vida. Neste artigo, compartilho um pouco da minha trajetória profissional e o impacto que a abordagem logoterapêutica teve em minha atuação e nos resultados alcançados com meus alunos idosos e longevos, inclusive no contexto da pandemia da Covid-19.

A dedicação exclusiva ao público 70+ foi se moldando ao longo da carreira profissional. Já atuei como bailarina profissional e professora em academias, com aulas de dança, alongamento e ginástica. Nessas aulas, os alunos que traziam queixas de dores musculares, articulares ou que tinham alguma restrição ou indicação médica eram direcionados para minhas aulas de alongamento. O reconhecimento no trabalho com esse olhar mais voltado à saúde do que à estética corporal me levou, nos anos 80, a publicar algumas matérias na Revista Saúde. Numa das edições, o jornalista comentou que a diretora de outra revista estava procurando uma personal trainer e que iria gostar muito da minha abordagem. Fizemos contato e, logo em seguida, comecei a desenvolver um trabalho personalizado com ela.

O papel do educador físico é muito amplo, a abordagem do personal trainer é focada nos objetivos, nas necessidades e nas possibilidades individuais dos alunos. E essa habilidade de ter atenção e oferecer cuidados específicos era minha marca registrada como personal. Assim, o trabalho fluiu: aquela aluna me indicou a uma amiga que havia feito cirurgia plástica, depois me chamaram para trabalhar com uma família e segui construindo e consolidando essa atuação profissional – mas ainda atendia alunos de todas as idades. Foi então que um dos alunos me contratou para desenvolver um trabalho com seu pai (vou chamá-lo aqui de Sr. Samuel para preservar sua identidade). Ele já estava em idade bem avançada, havia perdido a voz, movia-se em cadeira de rodas e era acompanhado por um cuidador home care.

No trabalho como personal trainer com o Sr. Samuel, que apresentava diversas restrições, entendi que o foco do meu trabalho era oferecer caminhos, através das aulas, para que aquele senhor conquistasse algum nível de autonomia. Com esse intuito, fui trabalhando estímulos motores, lúdicos e sensoriais, bem como fortalecimento muscular e, aos poucos, ele recuperou a habilidade de segurar um copo sozinho. Tempo depois, numa festa de seu bisneto, mesmo que uma única vez, ele surpreendeu a todos e conseguiu subir as escadas e caminhar até o local do evento sem a ajuda do enfermeiro. Nessa época, eu ainda não tinha encontrado a Logoterapia, mas já via as aulas com uma qualidade de atenção focada individualmente – não olhava só o corpo, mas outras dimensões ligadas a ele.

Por que a Logoterapia potencializou minha atuação como educadora física de pessoas acima de 70 anos, especialmente na pandemia

Meu primeiro contato com a logoterapia foi em um workshop do Núcleo de Logoterapia AgirTrês, em São Paulo, em 2016. Naquele ano, dentre os meus alunos, eu já trabalhava com outro longevo: o “Sr. Ismael” (nome fictício para preservar sua identidade). Ele era judeu, com 89 anos, sobrevivente de um campo de concentração, com doença senil que progrediu para Alzheimer e outras enfermidades, e só falava dos horrores que viveu no campo de concentração.

Eu ainda não havia lido o livro Em busca de sentido, de Dr. Viktor Emil Frankl, que narra à história do autor nesse contexto dos campos de concentração. Viktor Frankl foi um neuropsiquiatra austríaco, criador da Logoterapia, que durante a Segunda Guerra Mundial passou por quatro campos de concentração e comprovou sua teoria sobre sentido de vida na prática. Para mim, foi um choque ouvir o Sr. Ismael, um senhorzinho de cabelos brancos, tão gentil, ter passado por tudo aquilo.

Quando iniciei o curso de introdução à Logoterapia, reconheci pontos de contato da narrativa do Dr. Viktor Frankl com a do meu aluno e, pouco a pouco, fui reconhecendo que tudo o que eu fazia, o método de trabalho que vinha introduzindo com meu aluno tinha muito da Logoterapia.

No início do trabalho com o Sr. Ismael, a solicitação era que eu apoiasse sua caminhada, conversasse sobre vários assuntos e oferecesse atividades motoras compatíveis com sua condição física. E assim começou: caminhávamos na Praça Buenos Aires, em Higienópolis, São Paulo, onde conversávamos muito. Com o passar dos anos, a doença foi comprometendo seus movimentos e ele quase não caminhava longos percursos. Foi então que tive a ideia de mudar a estratégia de trabalho para que ele não parasse com os exercícios que o ajudavam não só fisicamente, mas social e emocionalmente também.

De todas as técnicas de exercícios físicos, como a caminhada, exercícios com bola, com fita elástica, e principalmente as conversas, era no encontro entre o Eu e o Tu que ele se sentia livre e feliz. O Sr. Ismael morava sozinho com o auxílio de cuidadoras. Aos poucos, fui apresentando materiais e técnicas que utilizava para que as outras profissionais que o acompanhavam também pudessem interagir com o Sr. Ismael nos dias em que eu não estava presente. Foram nove anos trabalhando com esse aluno tão especial.

Na pandemia

Em 2020, em meio à pandemia de coronavírus, uma situação tão difícil como a que estamos vivenciando, meu trabalho (como o de muitos) sofreu grande impacto: não podia mais ir até os alunos como estava habituada, pois tanto eu quanto eles somos considerados grupo de risco.

No isolamento social, comecei a observar possibilidades de seguir promovendo saúde e bem-estar ao público da terceira idade. O efeito comum no contexto de isolamento social, especialmente em longevos, é desencadear sentimentos como solidão, estresse, depressão, tristeza, ansiedade, além de impactar a qualidade do sono e apetite. Além dos problemas decorrentes do isolamento social, as consequências emocionais aumentam quando se fala em doenças neste momento com a pandemia, quando os idosos se conscientizam de que o envelhecimento do sistema imunológico contribui significativamente para elevar a taxa de infecção e de mortes e que, com o enfraquecimento da defesa do organismo, pode até influenciar a eficácia da vacina, como afirma Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbin).

Como cuidar das pessoas acima de 70 anos para evitar outras doenças além da Covid-19?

No mês de junho de 2020, busquei formas de cuidar da saúde mental e impedir que a solidão tivesse grande impacto no cérebro e no corpo, principalmente dessa geração. Sabendo que os exercícios físicos e exposição ao Sol ajudam a evitar casos de transtorno de humor, passei a oferecer meu trabalho de personal trainer com Logoterapia aplicada para idosos no prédio em que moro. Dez alunos, na idade entre 80 e 92 anos, aderiram às aulas, com todos os cuidados necessários, máscaras, álcool em gel e distanciamento físico.

Iniciei este trabalho com exercícios respiratórios, alongamento, deslocamentos na quadra e, aos poucos, fui utilizando vários materiais, como bolas de borracha de vários tamanhos e texturas, bolas coloridas para facilitar o campo visual, desenvolvi exercícios físicos para melhorar a coordenação motora, equilíbrio, fortalecimento muscular e mobilidade articular. Os alunos contam que se sentem muito mais dispostos, ágeis, alegres, sem dores, com resultados visíveis.

Poder enxergar o ser humano na sua totalidade, ou seja, como único e irrepetível, como diz o Dr. Viktor Frankl, é muito relevante, especialmente para o aluno longevo, para que ele mantenha a saúde estável e a capacidade de independência o maior tempo possível na sua temporalidade. De acordo com Claudio Garcia Pintos, “a variável temporal é uma temática central na compreensão da existência humana porque o homem é um ser temporal. Conforme a pessoa envelhece e modifica suas necessidades, identifica-se o imperativo de conhecimento e recursos diferenciados que atendem multidimensionalmente essa pessoa.”

Atividade física, Logoterapia e prevenção de saúde no envelhecimento

De acordo com a OMS (2019), o Brasil tem mais de 28 milhões de idosos com mais de 60 anos, número que representa 13% da população do país e que, segundo pesquisas, irá dobrar nas próximas décadas. Não só no Brasil como no mundo todo vem se observando a tendência de envelhecimento da população. Até 2050, a estimativa é chegarmos a 2 bilhões de pessoas acima de 60 anos, ou seja, um quinto da população mundial. Logo mais, em 2030, o número de idosos ultrapassará o total de crianças entre 0 e 14 anos. Nesse contexto, como viver esse período de envelhecimento com saúde, autonomia e sentido?

A atividade física é um dos fatores que mais influenciam na qualidade de vida e na proteção do envelhecimento saudável. Exercícios praticados de forma regular impactam positivamente nos aspectos bio, psico, espiritual e social do indivíduo.

O profissional de educação física, em especial o personal trainer, por ter um contato mais pessoal com os alunos, sabe das consequências emocionais que os idosos enfrentam diante de uma doença ou da ausência de pessoas com quem eles possam conversar (familiares, amigos etc.). Assim, a atividade física focada na manutenção da saúde e da longevidade traz muitos benefícios, como:

– prevenção e diminuição de problemas cardiovasculares e pulmonares;

– auxílio no controle da diabetes, artrites e doenças cardíacas;

– fortalecimento muscular;

– manutenção da densidade óssea;

– redução de riscos de quedas.

A abordagem da Logoterapia no trabalho com esse público específico potencializa o trabalho corporal, pois inclui técnicas voltadas a questões existenciais dessa geração. Por exemplo, com a ênfase ao trabalho lúdico, uso a metodologia do diálogo socrático, possibilitando ao idoso encontrar suas próprias respostas em relação a seus medos, suas angústias e encontrar um sentido para sua vida apesar de tudo.

Para esse público, o tema da morte é muito presente. E, no contexto da pandemia, essa pauta se tornou aguda. Se a morte é inevitável, é a única certeza que temos desde que nascemos, é importante que cada um possa se preparar para a finitude, de maneira a chegar ao final sem tanto sofrimento.

Atividades físicas beneficiam todos os públicos, mas, neste momento, é importante nutrir um olhar diferenciado para aquelas pessoas que, na maioria das vezes, moram sozinhas ou em casal em idade avançada.

Sabendo que esse cenário pode se tornar cada vez mais comum com o envelhecimento da população, a visão do profissional de Educação Física precisa se voltar para a prevenção de saúde, geração de autonomia e qualidade de vida – o foco na beleza estética, em ficar mais “sarado” não é mais (e nunca foi) suficiente. As novas gerações de profissionais terão que se especializar no trabalho com idosos. O foco do trabalho de personal trainer com Logoterapia aplicada para pessoas 70+ está nos exercícios físicos e na interação social, para que todos se preparem para a finitude sem sofrimentos. Meu desejo é que este trabalho seja acessível a cada vez mais pessoas. Acredito que se todos os profissionais da área derem o melhor de seu conhecimento, da sua experiência, poderemos ter idosos autônomos e ativos, num mundo mais consciente e humano.   

Que cada um de nós possa iniciar esta revolução pessoal para um envelhecimento com muito sentido, pois “a grandiosa revolução de uma única pessoa irá um dia impulsionar a mudança total do destino de um país, e, além disso, será capaz de transformar o destino de toda a humanidade.” (Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), pacifista, escritor e educador)

Maísa Fulginitti | Personal Trainer & Care 70+

Instagram: @maisafull

Logoterapia e Promoção da Saúde

Saúde resulta de uma vida com sentido, realizado através do exercício da consciência, das atitudes em um viver  livre e responsável.

“Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.”

Começo este artigo tratando do conceito atual de saúde definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS): “um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social e não meramente a ausência de doença”. Este entendimento sobre o que é saúde está implícito na teoria desenvolvida por Viktor Frankl, na qual o ser humano é compreendido como um ser multi e interdimensional, tanto na saúde quanto na doença. A sanidade do ser humano não é apenas somática, nem apenas somática e psíquica, mas uma sanidade somática, psíquica e noética*, permeada pelo social.

A Logoterapia é uma abordagem com foco no sentido da vida, é a “terapia da esperança”, a “psicoterapia das alturas”, e pode ser utilizada para promover saúde através de prevenção e manutenção desta, ou seja, o foco está na saúde e não na doença.

Pensar em promoção da saúde implica em compreender a natureza do processo humano do adoecer. A Logoterapia parte do pressuposto que o ser humano sofre e adoece não apenas pelas necessidades primárias – sede, fome, sono, sexo – mas igualmente pela frustração de sua principal motivação – o imperativo de viver com sentido.

A falta de sentido, fragiliza, deixa o indivíduo desprotegido, vulnerável ao vazio existencial, a frustação noética e/ou a neurose noogênica, ao se perceber frustrado no caminho do sentido. Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.

Na minha prática clínica de 25 anos em atendimento psicoterapêutico, e desde 2000 como logoterapeuta, observo que os pacientes chegam ao consultório apresentando sintomas diversos e queixas variadas, contudo a ênfase é a busca de sentido no sofrimento, necessitando enfrentá-lo e aprender a cuidar de si de uma forma mais saudável, o que implica aprender a lidar com as dificuldades da vida, o que Frankl nomeou de tríade trágica – perdas, falhas e finitude (sofrimento, culpa e morte). Como nos ensina Frankl, “não é o que esperamos da vida, mas sim, o que a vida espera de nós”, essa é a pergunta que deve ser feita no mais profundo âmago do ser humano.

Para promover a saúde do ponto de vista logoterapêutico, precisamos lembrar que a realização pessoal não é o maior objetivo da existência humana, mas sim uma consequência do encontro de sentido na vida. Sentido que só pode ser encontrado através da autotranscendência, isto é, se direcionar para algo (ou alguém) além de si. A autorealização é um efeito secundário, aquilo que se denomina felicidade, que só pode ser alcançada como efeito, e não como meta.

Enquanto propósito significativo capaz de desenvolver a dimensão vital noética profunda, a questão fundamental para essa concretização é novamente modificar o questionamento interno, deixar de se questionar sobre os porquês da vida, e começar a se perguntar sobre os para quês. Pessoas são chamadas pela dimensão noética a despertar a consciência, tornarem-se responsáveis e a vivenciarem profundamente seus atributos de homo faberhomo amans e homo patiens (o homem que faz, ama e sabe sofrer, respectivamente).

A logoterapia não propõe libertar o ser humano daquilo que percebe como sofrimento, mas auxiliá-lo a lidar com ele. Partindo da hipótese de que não há situação na vida que não contenha em si alguma possibilidade de sentido. Esse é o primeiro e mais importante aspecto do caráter preventivo logoterapêutico: amparar pessoas sadias ou doentes na jornada individual da busca de sentido.

Para fortalecer os fatores protetores para prevenção e enfrentamento dos fatores de risco, utilizo na prática clínica recursos logoterapêuticos para despertar e afinar a consciência, apelar ao sujeito sadio interno (conceito encontrado na salutogênese, sintonizado com as propostas de nossa abordagem) engajamento nos pontos culminantes do passado, de concentração no presente e de chegada no futuro, percepção de possibilidades de sentido e incentivo à concretização do que foi percebido.

O segundo aspecto preventivo é que a Logoterapia ajuda a pessoa a tomar decisões que possuam sentido, como um processo psico-educativo contínuo. É necessário aprender a trabalhar com o senso de coerência entre intenção e ação. Elisabeth Lukas dizia a seus pacientes “Queiram aquilo que fazem! ” e não: “Façam o que querem! ”

Concluindo, o terceiro aspecto de prevenção e amparo ao ser humano no fortalecimento interno, para que mantenham suas decisões plenas de sentido, há um importante fator de conscientização, toda decisão contém em si vantagens e desvantagens a serem consideradas, e isto implica em exercer a liberdade de escolha e o consequente enfrentamento com responsabilidade pelo valor da decisão.

“A tese que nos serviu de ponto de partida: ser pessoa é ser livre e ser responsável”. Viktor Frankl

*O termo “noético” deriva da palavra grega nous que significa “espiritual” e é utilizado no lugar desta para evitar conotações religiosas.

Crédito da Imagem: www.pexels.com.br


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, e também coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O sentido da vida em tempos difíceis

Tempos extremos, como este que vivemos na atualidade, colocam nossa liberdade em questão. Quando a sobrevivência se torna um imperativo, há uma série de imposições externas e internas que impactam nosso modo de operar e de nos relacionar. A pandemia da COVID-19 nos fez instaurar novas medidas no dia a dia: preventivas, como o isolamento físico e procedimentos de higiene para evitar contágio e transmissão; de manutenção, como dos serviços básicos e de abastecimento; e também medidas emergenciais, como a atuação de profissionais de saúde, da área social e de pesquisa, na linha de frente de combate ao vírus. Somando a esse contexto complexo, enfrentamos uma grave crise econômica, que tem gerado desemprego e reduções orçamentárias drásticas. Tudo isso e ainda lidando com a preocupação, o sofrimento e o medo de um inimigo invisível aos nossos olhos.

Imersos neste cenário, podemos nos questionar: “é possível ser livre em tempos de isolamento?”, “como posso ser livre se estou enfrentando diariamente um vírus que pode ser muito grave e letal?” e “será que vou sobreviver à pandemia?” – questões que colocam, em seu centro, não a nossa, mas liberdade do vírus. No fundo, queremos nos ver livres logo desse inimigo externo que nos privou do mundo como o conhecíamos, que trouxe perdas e nos fez encarar nossa própria finitude. Então, a pergunta que é pano de fundo para as anteriores é: “qual o sentido desse sofrimento todo?”.

É essa falta de sentido no sofrimento que nos frustra, vulnerabiliza e fragiliza, a ponto de gerar ansiedade, estresse crônico, melancolia, irritabilidade, neuroses, fadiga mental e emocional e até vazio existencial. E sem dúvida isso afeta toda a nossa forma de ser e de nos relacionar: há pessoas sofrendo extrema pressão do trabalho (seja home office ou in loco, seja pelo excesso ou pela impossibilidade de trabalhar), há pessoas enfrentando solidão, outras cansaço, dificuldades e estresse na convivência privada (com familiares, parceiros e até problemas de violência doméstica). Não é à toa que, assim como hospitais, centros de atendimento psicológico e psicoterapêutico também estão lidando com o aumento exponencial de pessoas que precisam de apoio para lidar com questões psicoemocionais em meio à pandemia. A Federação Internacional da Cruz Vermelha, inclusive, publicou orientação provisória para profissionais e voluntários de primeiros cuidados psicológicos remotos durante o surto de COVID-19.

Mas o que sentido de vida tem a ver com liberdade? Buscar sentido na vida, mesmo em situação de sofrimento, é um caminho para a liberdade, segundo a cosmovisão de Viktor Frankl, médico vienense, sobrevivente de campo de concentração, que criou (e vivenciou) a Logoterapia. O exemplo do que ele enfrentou e, sobretudo, de como experienciou essa situação extrema pode nos trazer pistas de como lidar com o momento atual.

Em seu livro Em Busca de Sentido, onde narra o que viveu no campo de concentração, Frankl aborda o conceito de liberdade interior, trazendo como pergunta orientadora algo semelhante ao que levantamos acima: “Onde fica a liberdade humana?” (Frankl, 2008, p. 88); e discorre sobre a possibilidade de agir “fora do esquema” (no caso, o dos campos de extermínio), de pessoas que foram capazes, apesar das circunstâncias e condições degradantes, de não sucumbir à apatia, irritação, à sujeição do dominador ou perda de vitalidade:

no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. E havia uma alternativa! (Frankl, 2008, p. 89)

Ressalvadas as devidas diferenças, essa liberdade como atitude também é hoje uma chave para lidar com a pandemia, inclusive como um fator de preservação de saúde e manutenção da vitalidade humana. Não se trata de se livrar do que faz sofrer, mas de agir nessa situação, lidar com o sofrimento, compreendendo que também nele há possibilidades de sentido. Na experiência de vida dele nos campos de concentração, enquanto alguns se perguntavam se sobreviveriam àquela realidade, Frankl se questionava sobre o sentido do sofrimento e da morte, como parte da vida e da existência humana, afinal:

Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida. (Frankl, 2008, p. 91)

Uma vida com sentido é esta em que se tem liberdade de escolha de atitude diante do que ela espera de nós, enfrentando com responsabilidade as decisões tomadas. Para Frankl, a liberdade só é possível com responsabilidade. Para ele, “ser pessoa é ser livre e ser responsável”, e a liberdade está em realizar essa busca de sentido na vida, encontrar o “para que viver” de cada ser único e irrepetível que somos. Tempos difíceis, de sofrimento, nos colocam no enfrentamento direto com questões sobre o sentido de vida. Por isso, é fundamental compreender que sempre há uma decisão interior possível diante de uma situação extrema – e que é essa decisão (que pode ir da vitimização à manutenção da dignidade e humanidade) que vai conduzir ao tipo de transformação que podemos vivenciar nessa situação.

É adotando uma atitude humanizadora, de manutenção de sua dignidade, inclusive em situação de sofrimento, que o ser humano se põe em busca do seu sentido na vida. O sentido, para a Logoterapia, está na possibilidade de o ser humano encarar os sentidos que está para realizar, valores a realizar. Posto isso, é viver num campo polar de tensão estabelecida entre a realidade e os ideais por materializar. O sentido deve ser descoberto, ele não pode ser dado.

Então, que caminhos existem para encontrar esse sentido? Frankl aponta a vivência de valores de criação, a liberdade espiritual (sem atribuição dogmática ou religiosa) e a experiência com o que é belo, da natureza e da arte. Bebendo da mesma fonte, o escritor búlgaro Todorov reforça esses elementos, em seu livro Diante do Extremo, nomeando-os como exercício da vontade, cuidado de si (cuidar-se, nutrir-se, respeitar-se em primeiro lugar) e atividades do espírito (busca da beleza e da verdade).

Através desse exercício da liberdade com responsabilidade, é possível identificar o sentido daquilo que a vida apresenta no momento (especialmente em tempos em que nossos prazeres são reduzidos), mobilizar recursos internos, despertar nossa consciência e encontrar o sentido e o significado de nossa existência, para transcender o sofrimento e seguir em frente.

Referências bibliográficas

FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008

INTERNATIONAL FEDERATION OF RED CROSS AND RED CRESCENT SOCIETIES. Primeiros cuidados psicológicos, remotos, durante o surto de COVID-19. Mar. 20. 13p

TODOROV, T. Diante do extremo. Trad. Nícia Adan Bonatti. São Paulo: Ed. Unesp, 2017

Imagem: montagem sobre original de francescoch/iStockPhoto


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

9º Curso de Logoterapia e Análise Existencial – Teoria e Prática clínica para profissionais da saúde

curso logoterapia e análise existencial em São Paulo - Prática Clinica - Saúde

Crédito da imagem: Ethan Sykes

Nós temos muita alegria em comunicar que o Núcleo de Logoterapia AgirTrês abre mais uma turma do curso vivencial direcionado a profissionais da saúde. Psicólogos, médicos e outros profissionais da saúde lidam com questões profundas sobre sentido da vida, sentido do sofrimento, questões relacionadas à finitude da vida entre outros temas que demandam sabedoria e estudo.

Um curso presencial em 10 módulos, com aulas mensais e uma turma pequena para proporcionar uma vivência e troca intensas destinadas à:

  • discussão de casos clínicos
  • aplicação de métodos e técnicas da Logoterapia
  • estudo da vida e obra de Viktor Frankl
  • bases filosóficas e antropológicas.

Pré-requisitos: ser profissional da área da saúde ou aluno do último ano de graduação dessa área, leitura prévia do livro Em busca de sentido, de Viktor Frankl, inscrição e entrevista.

Duração: 10 módulos, encontros mensais aos sábados, das 14h30 às 17h30. São 10 (dez) módulos de 10 (dez) horas/aula cada um, perfazendo 100 horas (cem horas) de aulas presenciais, mais 30 horas (trinta horas) de atividades complementares à distância, com duração total de 130 horas (cento e trinta horas).

Datas dos encontros:
14 março, 04 abril, 09 maio, 06 junho, 04 julho, 01 agosto, 12 setembro, 03 outubro, 07 novembro e 05 dezembro

Apenas 8 vagas. Oferecemos descontos para estudantes de graduação.

Local: R. Joaquim Antunes, 490. São Paulo-SP

Para mais informações sobre investimento e inscrição, escreva para contato@agirtres.com.br.

Veja a experiência de um aluno da turma anterior:

“Durante o curso vocês me proporcionaram um novo olhar sobre a psicologia, olhar esse que vinha buscando neste tempo de formação e profissão. Sempre com humor e acolhimento, mesmo nos momentos tristes e nas aulas mais densas sobre o Sentido do Sofrimento.

Obrigada por despertar novos olhares e novos sentidos na minha vida. Sentirei saudades desses encontros mensais mas tenham certeza que levo um novo sentido, um sentido prazeroso e cheio de amor. Obrigada por tudo e continuem iluminando o caminho de muitos que passam pela AgirTrês.” Luciana R. V

VI Curso de Introdução à Logoterapia e Análise Existencial – teoria e prática clínica – 2017

Clique aqui, preencha o formulário e reserve sua vaga.

flyer-curso-saude-2017

Curso destinado à discussão de casos clínicos e aplicação de métodos e técnicas da Logoterapia, bem como o estudo da vida e obra de Viktor Frankl, sua bases filosóficas e antropológicas.

Pré-requisitos: ser profissional da área da saúde ou aluno do último ano de graduação dessa área, leitura prévia do livro Em busca de sentido, de Viktor Frankl, inscrição e entrevista.

Duração: 9 módulos, encontros mensais no 1o. sábado de cada mês, das 9h às 18h, de 4 de março a 4 novembro de 2017

Investimento: R$ 180,00 + 9 parcelas de R$ 510,00 (Desconto de 20% para estudantes e de 10% para membros ABLAE)

Local: R. Joaquim Antunes, 490, cj. 31. São Paulo-SP