O sentido da vida na logoterapia de Viktor Frankl e o despertar da humanidade

Crédito : Foto de Tobi no Pexels

O homem é jogado na existência e confrontado com a condição de que há um tempo limitado para sua vida, a percepção de sua vulnerabilidade e impermanência, leva-o a questionar sobre o sentido que pode ter a vida. Assim, a condição humana é marcada não apenas por sua finitude, mas, principalmente, pelo que esta condição engendra e provoca em urgência de uma resposta: dado que a vida tem um fim, o que cabe somente a mim realizar, neste tempo que me é dado?  

Muito cedo Viktor Frankl, fundador da logoterapia, se questionou sobre o sentido da vida. A sua pergunta fundamental não era sobre os motivos que nos levavam a concretizar, voluntariamente, o ato da morrer, através do suicídio, mas o que nos mantinham vivos. Se o suicídio pode ser uma alternativa para escapar do sofrimento inevitável que a vida nos impõe, como apostar na promessa de um futuro, como continuar dando significado em uma existência, muitas vezes marcada por perdas, medo, culpa e desespero? Para quê viver afinal?

Para Viktor Frankl, o que nos define enquanto humano é ter consciência de nossa própria morte. O animal não tem esta percepção, não sabe da importância que pode ter cada momento da vida. Ter esta consciência deveria nos convocar a realizar uma ação no mundo e não nos paralisar, gerar controles ou defesas na tentativa de nos proteger do acaso ou ainda perpetuar a perspectiva da morte a cada passo dado, como se ela estivesse sempre a espreita de se realizar. Ou negar a possibilidade da morte, com todos os recursos disponíveis para “garantir” nossa longevidade.   

O fato é que a vida se abre em múltiplos caminhos e generosas oportunidades, são muitas as possibilidades que nos deparamos ao longo da vida, que nos convocam a responder ao seu apelo de sentido. Somos livres para responder e para decidir o que realizar, qual caminho tomar; mas, na mesma medida de nossa liberdade somos responsáveis por nossas escolhas. Assim, ao tomar consciência de nossa existência, temos o compromisso de responder de modo livre e responsável ao apelo de sentido que a vida nos faz.

Somos convocados a uma existência livre e responsável, conscientes não apenas de quem somos, mas, em perspectiva futura, de quem queremos nos tornar. Se a vida nos convoca a encontrar um sentido na existência, deveria haver uma aposta de onde almejamos chegar enquanto seres humanos, o que queremos ser, o que queremos realizar no mundo.

Se não tomamos consciência da nossa condição humana, vivemos como um animal irracional que busca apenas o prazer: o alimento, o sexo e o descanso. Podemos escolher viver uma vida inteira diante da Netflix, buscar o alimento pelo IFood e ter algum relacionamento via  Tinder ao simples toque do celular, de modo que nunca tivemos tantos recursos à nossa disposição, tanto conforto, mas, ao mesmo tempo, nunca tivemos uma clínica tão permeada pelo discurso de vazio existencial, solidão, falta de perspectiva na vida, alto índice de depressão, violência, uso abusivo de drogas e suicídio.

Para onde estamos indo enquanto humanidade quando nos anestesiamos diante da amplitude que pode ter a vida?  Podemos nos lançar para a infinitas possibilidades de vida, com toda profundidade que ela nos oferece. Basta ter olhos para ver e entrar em contato com a dimensão de possibilidades, que mesmo em condições das mais diversas, estão ao alcance de nossa (1) liberdade de vontade, (2) vontade de sentido e (3) sentido da vida.

Estes são os três pilares que sustentam a visão de homem segundo a logoterapia: (1) liberdade da vontade, dado que o homem não é livre de suas contingências, mas é livre para tomar uma atitude diante de qualquer circunstância; (2) vontade de sentido, como o esforço mais básico do homem na direção de encontrar e realizar sentidos e propósitos; e (3) sentido de vida, dado que ser humano significa ser em face de um sentido a ser preenchido, de valores a concretizar e a realização de sentido sempre implicará na tomada de decisão, pois cabe ao ser humano a responsabilidade de encontrar ou descobrir um sentido em sua vida, para além do sofrimento, da culpa e da morte.  

A logoterapia nos lembra que se a vida tem sempre um sentido e nos cabe descobrir e realizá-lo, devemos nos lançar na vida e estar atento aos sinais que nos convocam a realizar nossa condição humana, nosso poder de decidir que destino devemos cumprir, nesta tensão necessária, entre quem somos e quem devemos nos tornar.

Viktor Frankl já havia formulado sua teoria em torno do sentido da vida, quando sobreviveu a quatro campos de concentração na 2º Guerra Mundial. Sobre esta experiência, me chama a atenção para sua percepção de que “existem sobre a terra duas raças humanas e realmente apenas essas duas: a “raça” das pessoas direitas e das pessoas torpes…o que é então o ser humano? É o ser que decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás, mas é também aquele que ser que entrou nas câmaras de gás ereto, com uma oração nos lábios.”

Para a logoterapia, não somos todos iguais, somos cada um, únicos e irrepetíveis e há graus de humanidade. Podemos ser como porcos, podemos ser santos, temos a liberdade para decidir o que queremos ser e o que queremos nos tornar. Não há “desculpa”, ou truque nem instinto que justifique uma existência que não queira beirar a santidade e os valores de dignidade humana. Assim, a realização de sentido na vida sempre implica numa tomada de decisão, que vai nos situar nesta amplitude humana e mais, apenas quando preenchemos um sentido no mundo é que realizamos a nós mesmos.

De fato, ser consciente das nossas escolhas pressupõe a capacidade humana de nos elevar sobre nós mesmo, de julgar e avaliar nossas próprias ações e a própria realidade em termos morais e éticos. Para Viktor Frankl, “quanto mais a pessoa esquecer de si mesma, dedicando-se a servir a uma causa ou amar outra pessoa, mais humana será e mais se realizará.” pois, se a vida tem um sentido a ser descoberto, se não existo apenas para cumprir uma satisfação particular, é na relação e no compromisso com o outro que posso realizar o sentido próprio de minha vida.

É o que acontece no cotidiano do meu trabalho enquanto psicóloga e logoterapeuta, e que Viktor Frankl bem expressou ao dizer que encontrou o sentido de sua vida ao ajudar seus pacientes a encontrarem sentido em suas próprias vidas. Enquanto, psicóloga, assim como terapeutas, médicos, padres, ou qualquer pessoa que se dispõe a ouvir e ajudar o outro em sofrimento, temos o privilégio, no exercício da clínica, ou da vida, de ser testemunha de histórias que nos inspiram e nos conectam com a humanidade pulsante em cada voz que escutamos. Somos privilegiados em acompanhar alguém na intimidade de seu sofrimento, alguém que se coloca inteiro e disponível em uma esperança confiante e que nos convoca a ser, não uma pessoa portadora de uma técnica, mas um ser humano diante de outro, à serviço de recuperar a dignidade humana de cada paciente, como ser único e irrepetível.

Garcia Pintos em seu livro “Os contos do peregrino” nos fala que o homem que busca sentido é um peregrino. Peregrino como aquele que se encaminha para um lugar sagrado. O homem se encaminha para a realização e descoberta de sentido, nos valores que estão esperando para serem realizados no mundo, a fim de cumprir o sagrado que existe em cada um de nós.  

Como peregrino, só encontramos o caminho se nos direcionamos ao outro, ao nos dedicar a uma causa, ou amar alguém. É este o espírito do peregrino: sair de si próprio para alcançar o sagrado, sair de si para encontrar o sentido de sua própria vida e ser o que somente você pode ser ao realizar um ato humano no mundo.

Não importa a dimensão que seu trabalho pode alcançar, a quem se destina a realização dos valores que lhe cabem cumprir e o caminho que percorre em direção a realização de sentido, dado que, muitas vezes é na rotina silenciosa de seu lar, na intimidade de nossos consultórios e encontros que a vida nos proporciona, que travamos as maiores lutas e enfrentamos os maiores desafios e conquistas. A realização de sentido não precisa estar vinculada ao sucesso, nem mesmo a felicidade. Percorrer o caminho que nos leva ao sentido pode ser árduo e solitário, mas, nem por isso ter menos significado ou menor valor.

Neste contexto, a logoterapia serve como um despertador de nossa própria humanidade ao revelar o valor de cada vida apenas quando nos debruçamos ao cuidado com o outro, ao nos convocar a realizar e descobrir o sentido da vida, na medida em que nos voltamos para além de nós mesmos.  Trata-se de um compromisso com a nossa consciência, entre a responsabilidade e a liberdade, com a convicção de que a vida sempre tem um sentido a ser realizado e que, ao dar os primeiros passos no caminho que decidimos percorrer, somos todos peregrinos, em busca de realizar o sagrado que há em nós, a serviço da humanidade.

Juliana Aguiar Labes, psicóloga, mestre em psicologia clínica PUC-SP, Logoterapeuta em formação – Unilife e Agirtrês, psicanalista pelo CEP, atende em consultório criança, adolescente e adulto

Instagram: @julianalabespsico

Cansaço nosso de cada dia

Estou cansado. As pessoas que atendo no consultório também estão, minha família também está, e imagino que você, que me lê agora, também esteja cansado(a). Que cansaços têm consumido você nestes tempos? Compartilho os meus: estou cansado por conta do aumento exponencial dos atendimentos no consultório psicológico, cansado das pessoas que não têm compaixão consigo e com o próximo, de não poder abraçar as pessoas significativas na minha vida. Cansado dos negacionistas, das pessoas que divulgam fake news. Cansado de olhar a fadiga pandêmica, de acompanhar pessoas afetadas direta e indiretamente pelo vírus, muitas delas que perderam musculatura, que não conseguem andar, que não conseguem respirar. Cansado de lidar com o medo, o medo do medo de contrair a doença, das neuroses que surgem, das relações desfeitas por conta de um mundo onde é cada vez mais difícil conviver. Cansado das telas, do computador, do celular, da televisão, que mostram sempre um mundo (especialmente um Brasil) que poderia ser conduzido de uma maneira diferente, se a questão da união das pessoas tivesse sido prioridade, de ver pessoas passando fome, do luto coletivo.

Falta pão e sobra cansaço. Um cansaço extremo que pode levar à apatia, à dificuldade de levantar para a vida. O choque diante da realidade que se apresenta, de maneira dura e, muitas vezes, cruel. Um grande mar que todos estamos atravessando, só que com embarcações bem diferentes: uns poucos de iate, outros de barco à vela, outros de canoa e a grande maioria nadando, contando com a própria sorte.

Estou cansado das notícias de UTIs lotadas, um ano após o início da pandemia, de ver profissionais de saúde esgotados diante de um trabalho insano, de olhar todos os dias as pessoas em alto grau de sofrimento, muitas delas morrendo sem a possibilidade de se despedir dos entes queridos. O luto que cobre o país e que poderia ser vivenciado de maneira diferente, mais humanizada.

Cansado de home officehome school e da invasão do trabalho no espaço privado das casas, alterando completamente nosso modo de viver. Cansado da falta de empatia, de oferecer um ombro amigo para poder descansar, de poder enxugar as lágrimas que caem a todo instante, clamando por uma resposta que possa acalmar os seus corações. Cansado dos carrascos que ocupam o poder em benefício próprio, deixando a população em risco, desinformando e promovendo o caos.

Resgatando um verso de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, para resumir o sentimento que predomina hoje (quase um século depois do poema): “o que há em nós é sobretudo cansaço”.

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo.
Cansaço.
[…]
(Álvaro de Campos, “O que há”, 1934)

Talvez o desabafo até aqui dê voz ao seu cansaço também. E dar nome para o que nos tem atravessado é uma chave importante para abrir portas diferentes das que temos visto abertas atualmente: exaustão, fadiga pandêmica, estresse, esgotamento, apatia, burnout

A pandemia escancarou todas essas portas, que já estavam entreabertas para muitos de nós há pelo menos uma década. Basta uma pesquisa simples no Google Trends, ferramenta gratuita da empresa que disponibiliza informações de palavras-chave e tópicos pesquisados pelas pessoas no buscador, para ver que os termos “cansaço”, “exaustão” e “fadiga” já são bastante presentes nas pesquisas na internet, especialmente o primeiro termo. Chamam atenção os picos de pesquisa, no Brasil, dos termos “cansaço pós-covid”, em agosto de 2020 e, recentemente, em abril de 2021, nos Estados de MG, SP e RJ; já “fadiga” apresenta pico de interesse nos meses de março de 2020 e março de 2021, incluindo a maioria dos estados brasileiros. O termo “fadiga pandêmica”, que tem circulado em jornais e mídias sociais, especialmente no primeiro trimestre de 2021, ainda não apresenta dados na ferramenta. Sobre esse termo, recorro à definição da Organização Mundial de Saúde:

O que queremos dizer com fadiga pandêmica?
• Trata-se de uma reação natural e esperada diante de adversidades suportadas e não resolvidas na vida das pessoas.
• Expressa-se como uma desmotivação emergente para se envolver em comportamentos de proteção e buscar informações relacionadas à COVID-19, e também como complacência, alienação e desesperança.
• Ela evolui gradualmente ao longo do tempo e é afetada por uma série de emoções, experiências e percepções, bem como pelo ambiente cultural, social, estrutural e legislativo.
(OMS, 2020, p. 7, tradução livre)

Após mais de um ano de pandemia, o cansaço caracterizado como “fadiga pandêmica” se assemelha a uma resposta diante do trauma, no caso, coletivo. Viktor Frankl (2008) aponta a “apatia” como uma das fases vividas nesse contexto (naquela circunstância, o trauma vivido dentro dos campos de concentração). Esse desânimo multifatorial é relatado pelo neuropsiquiatra como resultante da saudade de seus familiares, do nojo da realidade ao redor, da mortificação de sentimentos normais (“indiferente e já insensível, pode ficar observando sem se perturbar”, relata Frankl).

A apatia e a insensibilidade emocional, o desleixo interior e a indiferença – tudo isso são características do que designamos de segunda fase dentro das relações psicológicas do recluso no campo de concentração – muito cedo também tornam a vítima insensível aos espancamentos diários e em quase cada hora. Essa ausência de sensibilidade constitui uma couraça sumamente necessária da qual se reveste em tempo a alma dos prisioneiros. (FRANKL, 2008, p. 38)

Nossa couraça atual tem se constituído de diversas violências mentais, emocionais, físicas e econômicas geradas tanto por um inimigo invisível – o vírus que nos coloca em estado de vigilância constante – quanto pela frustração diante do cenário atual e a constante incerteza em relação ao presente e futuro político e econômico. O estado de desmotivação e esgotamento nos colocam em estado de maior vulnerabilidade, especialmente para tomar decisões, pois dificulta a visão da situação em perspectiva.

O cansaço de esgotamento não é um cansaço da potência positiva. Ele nos incapacita de fazer qualquer coisa. O cansaço que inspira é um cansaço da potência negativa, a saber, do não-para. (HAN, 2017, p. 76).

Em Sociedade do Cansaço, o filósofo Byung-Chul Han descreve, com concisão e profundidade, os contextos e gatilhos desse estado de aborrecimento que experimentamos nos anos 2000 e 2010, decorrentes de uma violência neuronal a que fomos submetidos – porém, como ele aponta, ainda não vivíamos uma época viral:

Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. […] Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. (HAN, 2017, pp. 7-8).

A paisagem patológica predominantemente neuronal, de que fala o filósofo, somou-se a uma pandemia viral, potencializando os sintomas e as consequências catastróficas desse estado de fadiga. Diante desse cenário, como lidar com o cansaço nosso de cada dia?

A OMS recomenda ações governamentais e fortalecimento do apoio público, com base em quatro estratégias-chave: a) entender as pessoas, que implica a escuta ativa dos indivíduos para o estabelecimento de políticas, intervenções e comunicações eficazes; b) reduzir risco; c) envolver as pessoas como parte da solução, não do problema; d) reconhecer e discutir os impactos da pandemia na vida das pessoas (OMS, 2020, p. 4) – todas apontando que a saída é coletiva, começando por ações locais, em grupos, até a escala nacional e global. Nesse sentido, torna-se urgente à nossa nação encontrar sentido na vida de nossos conterrâneos, de nossa comunidade. Colocar ao lado dessa busca a busca de sentido individual, não à frente dela.

Encontrar sentido, para sair do modo sobrevivência e nutrir valores de vivência, é uma chave fundamental. Esse encontro com o sentido da vida começa nos pequenos atos, no cotidiano, em fazer, por amor ao próximo não por medo, as condutas de prevenção do vírus, como respeitar distanciamento social e usar corretamente a máscara; bem como condutas de prevenção mental e emocional, buscando espaços de acolhida, escuta, desabafo. Precisamos de um descanso possível, cuidando uns dos outros com entendimento, compaixão e senso de comunidade, a fim de que possamos, em vez de cansaço, compartilhar pão.

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Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

CAMPOS, Álvaro de (Heterônimo de Fernando Pessoa). [1944] Lisboa: Ática, 1993. OMS – ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Pandemic fatigue – reinvigorating the public to prevent COVID-19. Policy framework for supporting pandemic prevention and management. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe; 2020. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.

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Imagem: “The Lovers” – René Magritte, 1928 (detalhe da obra em preto e branco)

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Este artigo foi escrito pelo nosso diretor diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

“Otimismo trágico”, a ferramenta psicológica criada para tempos difíceis

Agustina Cañamero, 81, d Pascual Pérez, 84, se beijam com a proteção de máscaras e um plástico em Barcelona.EMILIO MORENATTI / AP

Faz pouco tempo fui entrevistado por um importante jornal austríaco. O jornalista claramente esperava que eu, na condição de diretor do Instituto Viktor Frankl de Viena e titular da cátedra Viktor Frankl em Liechtenstein e Budapeste, transmitisse uma mensagem positiva; e mais ainda, percebi que tudo o que realmente queria era a confirmação de que o “pensamento positivo” era o mais necessário e o que iria solucionar tudo. Ele me pediu conselhos para lidar com a crise da covid-19 e suas repercussões em nossa vida pessoal, social e econômica: “Como podemos manter uma mentalidade e um pensamento positivos?”. Ficou surpreso quando eu lhe disse que em tal situação ― e na vida em geral― acredito (e as pesquisas corroboram isso) que existe algo muito mais útil e maduro do que o pensamento positivo: o pensamento realista. “Mas isso não é o mesmo que ser negativo e resignar-se com a situação atual?”, insistiu. Boa pergunta. A resposta é sim e não. E um “não” em que podemos depositar nossas esperanças.

Viktor Frankl, o famoso psiquiatra vienense que sobreviveu a quatro campos de concentração e mais tarde fundou a psicoterapia centrada na vontade de sentido (denominada logoterapia e análise existencial), cunhou um termo muito interessante: otimismo trágico. Que, em suma, significa a mesma coisa que o “sim e não” que mencionei. Numerosas pesquisas em psicologia demonstram que se trata de um conceito muito útil, sobretudo em tempos difíceis, porque nos permite ver com clareza e aceitar o que é ruim, mas também estar cientes de que podemos decidir como reagir a tudo o que acontece, seja o que for. Vamos ver como traduzir esses estudos para nossa vida cotidiana atual.

A primeira conclusão é que podemos decidir em certas condições. É claro que o coronavírus nos coloca diante de uma crise imensa que não vai desaparecer com pensamentos positivos. Sejamos realistas e reconheçamos isso. Mas uma avaliação realista não para aí. Busca também as coisas que podemos mudar. Examina nossa liberdade para decidir como reagir a uma situação. Até que ponto isso depende de nós? Como decidimos enfrentar a crise?

Um dia, tudo o que está acontecendo será história, tanto coletiva como individual. O que então pensaremos desta história e o que as gerações futuras dirão, não apenas sobre a pandemia, mas sobre nosso comportamento? Seremos um modelo para essas gerações? Isso é o que podemos e devemos decidir hoje, agora, todos e cada um de nós, como coletivo e como indivíduos. Quando olhar para trás, poderei reconhecer com gratidão que, sim, foi um período difícil, mas pelo menos fiz o melhor uso possível dele? Ou poderei dizer que fiz da minha casa ― seja grande ou pequena ― um lugar aconchegante e acolhedor para todos os que nela vivem ou a visitam, o nosso nicho pessoal neste mundo imenso? Que ajudei meus parentes e vizinhos mais velhos? Que aproveitei este período de isolamento involuntário para organizar meus papéis ou outras áreas que precisam de atenção? Ou para passar um tempo precioso com minha família, telefonar ou escrever para amigos e parentes que estão sozinhos, talvez até para aprender um idioma ou uma nova habilidade? Ou terei que admitir que não me interessei por nada e desperdicei esta pausa inesperada?

A segunda conclusão é que você deve estruturar cada dia e administrá-lo independentemente dos demais. Passo a passo. Decisão por decisão. Tarefa por tarefa. Os tempos de crise não são o momento ideal para empreender grandes projetos novos e ambiciosos. Gerenciar cada dia e cada semana já é um grande triunfo. Como não poderia ser? A vida corre aqui e agora, diante de nossos olhos. Temos que começar pela vida cotidiana, e como não poderia ser assim? Arrumar a casa. Literal e metaforicamente.

A terceira é que teremos que fazer o que for necessário, mas de maneira diferente. Compartilhar as responsabilidades e os cuidados. O trabalho em equipe é o melhor construtor da paz. Em outras palavras, dar a cada membro da família a responsabilidade de cumprir suas obrigações diárias, como cozinhar para si mesmo, para a família ou para os filhos. Mas, a partir de agora, tentar fazer isso com um pouco mais de atenção, de amor, de dedicação. Se temos que fazer mesmo, por que não transformar as coisas com a forma como as fazemos? Principalmente agora que muitas pessoas estão confinadas em uma mesma casa, o clima desse pequeno mundo depende de cada uma delas.

Quarta: devemos preencher nossa casa e a nós mesmos com bondade. Todos nós sabemos, conhecemos pessoas que irradiam calor e bondade e outras que não, embora, à primeira vista, pareça que todas fazem o mesmo. E os estudos nos mostram que a bondade e a atenção são contagiantes. Vamos nos enfeitar com a bondade, a atenção, a compreensão e a responsabilidade.

Isto vale também para as pessoas que vivem sozinhas; talvez até mais, porque uma coisa é se alimentar fisicamente, sem mais, e outra, muito diferente, que sejam boas consigo mesmas, que se cuidem e se respeitem. Vamos manter a ordem. Sejamos gentis com nós mesmos e com os outros. Quer vivamos sozinhos ou façamos parte de uma grande família, que outro momento é mais apropriado do que este para ser nossa melhor e mais bondosa versão?

Assim, além do mais, seremos grandes exemplos para nossos filhos, que aprenderão muito mais coisas do que na escola: em especial que, aconteça o que acontecer, continuamos com grande liberdade para decidir como reagir em tempos de crise. Se eles aprenderem essa lição, teremos todos muitos motivos para confiar em que o mundo pós-covid-19 terá uma nova geração capaz de reconstruir um mundo abalado pela crise.

Este é um texto escrito para ‘Ideias’ pelo filósofo e psicólogo Alexander Batthyány (Viena, 1971), logo após a publicação de seu último livro, “La Superación de la Indiferencia. El Sentido de la Vida en Tiempos de Cambio, publicado na Espanha pela editora Herder.


O artigo foi publicado originalmente no site do jornal El País no dia 30 de dezembro de 2020.

Alexander Batthyány é um dos palestrantes convidados do SIMPOSIO INTERNACIONAL DE LOGOTERAPIA que acontecerá nos dias 18 e 19 de junho de 2021 na versão online. Para mais informações, acesse o site do Instituto Busca Sentido.

O impacto da Logoterapia no trabalho de educação física na terceira idade.

Imagem: Foto de Marcus Aurelius no Pexels

No trabalho de educador físico dedicado à promoção de saúde, meu foco sempre esteve voltado ao equilíbrio e à visão integral do corpo. Sempre entendi que não adianta ter uma musculatura definida se o organismo não está de acordo com a aparência. Nessa busca por uma saúde integral, promotora de bem-estar e longevidade, busquei recursos em outras áreas para complementar o meu trabalho como personal trainer e encontrei na Logoterapia um campo fértil para trabalhar corpo, mente, emoções e sentido da vida. Neste artigo, compartilho um pouco da minha trajetória profissional e o impacto que a abordagem logoterapêutica teve em minha atuação e nos resultados alcançados com meus alunos idosos e longevos, inclusive no contexto da pandemia da Covid-19.

A dedicação exclusiva ao público 70+ foi se moldando ao longo da carreira profissional. Já atuei como bailarina profissional e professora em academias, com aulas de dança, alongamento e ginástica. Nessas aulas, os alunos que traziam queixas de dores musculares, articulares ou que tinham alguma restrição ou indicação médica eram direcionados para minhas aulas de alongamento. O reconhecimento no trabalho com esse olhar mais voltado à saúde do que à estética corporal me levou, nos anos 80, a publicar algumas matérias na Revista Saúde. Numa das edições, o jornalista comentou que a diretora de outra revista estava procurando uma personal trainer e que iria gostar muito da minha abordagem. Fizemos contato e, logo em seguida, comecei a desenvolver um trabalho personalizado com ela.

O papel do educador físico é muito amplo, a abordagem do personal trainer é focada nos objetivos, nas necessidades e nas possibilidades individuais dos alunos. E essa habilidade de ter atenção e oferecer cuidados específicos era minha marca registrada como personal. Assim, o trabalho fluiu: aquela aluna me indicou a uma amiga que havia feito cirurgia plástica, depois me chamaram para trabalhar com uma família e segui construindo e consolidando essa atuação profissional – mas ainda atendia alunos de todas as idades. Foi então que um dos alunos me contratou para desenvolver um trabalho com seu pai (vou chamá-lo aqui de Sr. Samuel para preservar sua identidade). Ele já estava em idade bem avançada, havia perdido a voz, movia-se em cadeira de rodas e era acompanhado por um cuidador home care.

No trabalho como personal trainer com o Sr. Samuel, que apresentava diversas restrições, entendi que o foco do meu trabalho era oferecer caminhos, através das aulas, para que aquele senhor conquistasse algum nível de autonomia. Com esse intuito, fui trabalhando estímulos motores, lúdicos e sensoriais, bem como fortalecimento muscular e, aos poucos, ele recuperou a habilidade de segurar um copo sozinho. Tempo depois, numa festa de seu bisneto, mesmo que uma única vez, ele surpreendeu a todos e conseguiu subir as escadas e caminhar até o local do evento sem a ajuda do enfermeiro. Nessa época, eu ainda não tinha encontrado a Logoterapia, mas já via as aulas com uma qualidade de atenção focada individualmente – não olhava só o corpo, mas outras dimensões ligadas a ele.

Por que a Logoterapia potencializou minha atuação como educadora física de pessoas acima de 70 anos, especialmente na pandemia

Meu primeiro contato com a logoterapia foi em um workshop do Núcleo de Logoterapia AgirTrês, em São Paulo, em 2016. Naquele ano, dentre os meus alunos, eu já trabalhava com outro longevo: o “Sr. Ismael” (nome fictício para preservar sua identidade). Ele era judeu, com 89 anos, sobrevivente de um campo de concentração, com doença senil que progrediu para Alzheimer e outras enfermidades, e só falava dos horrores que viveu no campo de concentração.

Eu ainda não havia lido o livro Em busca de sentido, de Dr. Viktor Emil Frankl, que narra à história do autor nesse contexto dos campos de concentração. Viktor Frankl foi um neuropsiquiatra austríaco, criador da Logoterapia, que durante a Segunda Guerra Mundial passou por quatro campos de concentração e comprovou sua teoria sobre sentido de vida na prática. Para mim, foi um choque ouvir o Sr. Ismael, um senhorzinho de cabelos brancos, tão gentil, ter passado por tudo aquilo.

Quando iniciei o curso de introdução à Logoterapia, reconheci pontos de contato da narrativa do Dr. Viktor Frankl com a do meu aluno e, pouco a pouco, fui reconhecendo que tudo o que eu fazia, o método de trabalho que vinha introduzindo com meu aluno tinha muito da Logoterapia.

No início do trabalho com o Sr. Ismael, a solicitação era que eu apoiasse sua caminhada, conversasse sobre vários assuntos e oferecesse atividades motoras compatíveis com sua condição física. E assim começou: caminhávamos na Praça Buenos Aires, em Higienópolis, São Paulo, onde conversávamos muito. Com o passar dos anos, a doença foi comprometendo seus movimentos e ele quase não caminhava longos percursos. Foi então que tive a ideia de mudar a estratégia de trabalho para que ele não parasse com os exercícios que o ajudavam não só fisicamente, mas social e emocionalmente também.

De todas as técnicas de exercícios físicos, como a caminhada, exercícios com bola, com fita elástica, e principalmente as conversas, era no encontro entre o Eu e o Tu que ele se sentia livre e feliz. O Sr. Ismael morava sozinho com o auxílio de cuidadoras. Aos poucos, fui apresentando materiais e técnicas que utilizava para que as outras profissionais que o acompanhavam também pudessem interagir com o Sr. Ismael nos dias em que eu não estava presente. Foram nove anos trabalhando com esse aluno tão especial.

Na pandemia

Em 2020, em meio à pandemia de coronavírus, uma situação tão difícil como a que estamos vivenciando, meu trabalho (como o de muitos) sofreu grande impacto: não podia mais ir até os alunos como estava habituada, pois tanto eu quanto eles somos considerados grupo de risco.

No isolamento social, comecei a observar possibilidades de seguir promovendo saúde e bem-estar ao público da terceira idade. O efeito comum no contexto de isolamento social, especialmente em longevos, é desencadear sentimentos como solidão, estresse, depressão, tristeza, ansiedade, além de impactar a qualidade do sono e apetite. Além dos problemas decorrentes do isolamento social, as consequências emocionais aumentam quando se fala em doenças neste momento com a pandemia, quando os idosos se conscientizam de que o envelhecimento do sistema imunológico contribui significativamente para elevar a taxa de infecção e de mortes e que, com o enfraquecimento da defesa do organismo, pode até influenciar a eficácia da vacina, como afirma Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbin).

Como cuidar das pessoas acima de 70 anos para evitar outras doenças além da Covid-19?

No mês de junho de 2020, busquei formas de cuidar da saúde mental e impedir que a solidão tivesse grande impacto no cérebro e no corpo, principalmente dessa geração. Sabendo que os exercícios físicos e exposição ao Sol ajudam a evitar casos de transtorno de humor, passei a oferecer meu trabalho de personal trainer com Logoterapia aplicada para idosos no prédio em que moro. Dez alunos, na idade entre 80 e 92 anos, aderiram às aulas, com todos os cuidados necessários, máscaras, álcool em gel e distanciamento físico.

Iniciei este trabalho com exercícios respiratórios, alongamento, deslocamentos na quadra e, aos poucos, fui utilizando vários materiais, como bolas de borracha de vários tamanhos e texturas, bolas coloridas para facilitar o campo visual, desenvolvi exercícios físicos para melhorar a coordenação motora, equilíbrio, fortalecimento muscular e mobilidade articular. Os alunos contam que se sentem muito mais dispostos, ágeis, alegres, sem dores, com resultados visíveis.

Poder enxergar o ser humano na sua totalidade, ou seja, como único e irrepetível, como diz o Dr. Viktor Frankl, é muito relevante, especialmente para o aluno longevo, para que ele mantenha a saúde estável e a capacidade de independência o maior tempo possível na sua temporalidade. De acordo com Claudio Garcia Pintos, “a variável temporal é uma temática central na compreensão da existência humana porque o homem é um ser temporal. Conforme a pessoa envelhece e modifica suas necessidades, identifica-se o imperativo de conhecimento e recursos diferenciados que atendem multidimensionalmente essa pessoa.”

Atividade física, Logoterapia e prevenção de saúde no envelhecimento

De acordo com a OMS (2019), o Brasil tem mais de 28 milhões de idosos com mais de 60 anos, número que representa 13% da população do país e que, segundo pesquisas, irá dobrar nas próximas décadas. Não só no Brasil como no mundo todo vem se observando a tendência de envelhecimento da população. Até 2050, a estimativa é chegarmos a 2 bilhões de pessoas acima de 60 anos, ou seja, um quinto da população mundial. Logo mais, em 2030, o número de idosos ultrapassará o total de crianças entre 0 e 14 anos. Nesse contexto, como viver esse período de envelhecimento com saúde, autonomia e sentido?

A atividade física é um dos fatores que mais influenciam na qualidade de vida e na proteção do envelhecimento saudável. Exercícios praticados de forma regular impactam positivamente nos aspectos bio, psico, espiritual e social do indivíduo.

O profissional de educação física, em especial o personal trainer, por ter um contato mais pessoal com os alunos, sabe das consequências emocionais que os idosos enfrentam diante de uma doença ou da ausência de pessoas com quem eles possam conversar (familiares, amigos etc.). Assim, a atividade física focada na manutenção da saúde e da longevidade traz muitos benefícios, como:

– prevenção e diminuição de problemas cardiovasculares e pulmonares;

– auxílio no controle da diabetes, artrites e doenças cardíacas;

– fortalecimento muscular;

– manutenção da densidade óssea;

– redução de riscos de quedas.

A abordagem da Logoterapia no trabalho com esse público específico potencializa o trabalho corporal, pois inclui técnicas voltadas a questões existenciais dessa geração. Por exemplo, com a ênfase ao trabalho lúdico, uso a metodologia do diálogo socrático, possibilitando ao idoso encontrar suas próprias respostas em relação a seus medos, suas angústias e encontrar um sentido para sua vida apesar de tudo.

Para esse público, o tema da morte é muito presente. E, no contexto da pandemia, essa pauta se tornou aguda. Se a morte é inevitável, é a única certeza que temos desde que nascemos, é importante que cada um possa se preparar para a finitude, de maneira a chegar ao final sem tanto sofrimento.

Atividades físicas beneficiam todos os públicos, mas, neste momento, é importante nutrir um olhar diferenciado para aquelas pessoas que, na maioria das vezes, moram sozinhas ou em casal em idade avançada.

Sabendo que esse cenário pode se tornar cada vez mais comum com o envelhecimento da população, a visão do profissional de Educação Física precisa se voltar para a prevenção de saúde, geração de autonomia e qualidade de vida – o foco na beleza estética, em ficar mais “sarado” não é mais (e nunca foi) suficiente. As novas gerações de profissionais terão que se especializar no trabalho com idosos. O foco do trabalho de personal trainer com Logoterapia aplicada para pessoas 70+ está nos exercícios físicos e na interação social, para que todos se preparem para a finitude sem sofrimentos. Meu desejo é que este trabalho seja acessível a cada vez mais pessoas. Acredito que se todos os profissionais da área derem o melhor de seu conhecimento, da sua experiência, poderemos ter idosos autônomos e ativos, num mundo mais consciente e humano.   

Que cada um de nós possa iniciar esta revolução pessoal para um envelhecimento com muito sentido, pois “a grandiosa revolução de uma única pessoa irá um dia impulsionar a mudança total do destino de um país, e, além disso, será capaz de transformar o destino de toda a humanidade.” (Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), pacifista, escritor e educador)

Maísa Fulginitti | Personal Trainer & Care 70+

Instagram: @maisafull

Esperança, eu quero uma pra viver

No final da década de 80, Cazuza e Frejat escreveram a canção clamando por ideologia, num contexto em que a juventude era representante de um espírito revolucionário diante das incertezas políticas e sociais da época. A geração do rock viveu ameaçada pelas perseguições e interdições da ditadura militar, sem poder expressar livremente seu posicionamento político, identitário e cultural. Numa época que prezava por uma determinada ordem e padrão de conduta recém-herdeira da mentalidade militar, caracterizada por um poder patriarcal, branco e heteronormativo, essa música fez e ainda faz sucesso pela mensagem que traz: precisamos de ideais que tragam sentido para a vida.

Naquela época, com o Brasil dando os primeiros passos no processo de redemocratização, o grito por ideologia[1], no sentido de profundidade de convicções políticas, sociais e filosóficas, era urgente, pois o presente era um cenário pouco promissor, com tamanha desigualdade social, econômica e uma série de preconceitos sobre as minorias e doenças como a aids. Hoje, mais de trinta anos depois, revisito essa música atualizando apenas o vocativo, para ampliá-lo. No contexto de pandemia mundial, somado à polarização política e partidária no mundo todo, crise financeira, de valores, desinformação e infotoxicação através do mundo digital, desemprego e depressão, ainda precisamos de ideologias, mas, mais que isso, precisamos de esperança.

Diferente do que comumente se pensa sobre esperança como sentimento positivo a ser cultivado do nada, sabemos que ela precisa de algo – seja concreto ou abstrato –, de um fundamento para que possa se manifestar no indivíduo e no coletivo. Não basta um conselho de alguém, a esperança exige confiança em algo que faz sentido para o sujeito e o direcione para além dele mesmo.

Não podemos ordenar a ninguém que seja otimista ou que espere contra toda a esperança. […] Pois ninguém pode obrigar a esperança, assim como tampouco se pode forçar os outros dois elementos da conhecida tríade, a fé e o amor. […] A felicidade precisa ter um fundamento cujo efeito compareça espontaneamente; em poucas palavras, a felicidade resulta, não se deixa obter, não é fabricável. (Frankl, 2019, p. 84-6)

Tendo isso em mente, afinal, o que esperamos hoje? No que depositamos esperança? No que perdemos a esperança?

Trazendo novamente a perspectiva de Viktor Frankl, que é minha base de reflexão para pensar o ser humano e seu modo de viver e também de minha atuação clínica, observo como ele concebe a esperança (assim como a felicidade) como sentimento edificante do que chama de otimismo trágico humano. Diferentemente de uma positividade infundada, que pode ser alienante, tóxica e até violenta para um indivíduo que atravessa uma fase de sofrimento, Frankl apresenta esse conceito de um otimismo que inclui e, portanto, dá sentido à chamada tríade trágica pela qual todo ser humano passa em vida, a saber: sofrimento, culpa e morte.

Esse otimismo humanizante coloca o indivíduo diante da realidade que se apresenta e, apesar da sensação da falta de sentido (sofrimento), ou da dificuldade de perdoar e aceitar falhas (culpa), ou da finitude da vida (morte), propõe a busca de caminhos para a conservação da vida. A grande pergunta de Frankl orientada à esperança é: “a despeito de todos esses aspectos trágicos da existência humana, apesar disso, como podemos dizer sim à vida?” (Frankl, p. 83)

Hoje, tão importante quanto dizer “sim” à vida individual, é tempo de buscar um “sim” à nossa vida na coletividade. Somos seres interdependentes e coabitantes do meio ambiente e, muitas vezes, esquecemos isso em favor de um “sim” voltado apenas ao nosso próprio umbigo. Esse “sim” alienante costuma ser resultado de três traços de sentimento e comportamento: tédio, ou seja, da falta de interesse genuíno pelo mundo e pelo outro; indiferença, que aparta o sujeito do mundo a partir da perda da iniciativa de mudança, de ação; e proteção narcísica, quando o sujeito, autocentrado, adota um comportamento egocêntrico e de superioridade, quando acredita que algo não pode atingi-lo[2]. No contexto pandêmico, esses traços aparecem em falas que diminuem a gravidade da doença e seus impactos sobre os afetados direta e indiretamente, aparecem em comportamentos que se negam a seguir o protocolo sanitário básico proposto nas diferentes fases, como o uso de máscara e o isolamento social preventivo – ao contrário disso, temos notícias de festas, shows, praias lotadas, como se os frequentadores estivessem numa grande celebração onde a COVID-19 é negada ou tira férias nos momentos de diversão. Uma série de questões envolve esses comportamentos negacionistas e escapistas, mas não são eles a base de uma esperança genuína.

O otimismo trágico exige de nós amadurecimento para encarar o que estamos atravessando nesta pandemia, juntos, mas em barcos com condições completamente diferentes. Atravessar esse mar com a lancha em festa cheia de amigos, nestes tempos, sem olhar para o lado ou para trás, não é dizer sim à vida, é se distanciar dela. Não é ser otimista, é ser egoísta e escapista.

E só posso ser um homem pleno e realizar por inteiro minha individualidade na medida em que transcendo a mim mesmo em direção a algo ou a alguém que se encontra no mundo. Preciso, pois, levar em consideração esse algo, respectivamente, esse alguém, e não a própria autorrealização.” (Frankl, 2019, p. 86)

Graças aos cientistas e profissionais de saúde, temos hoje um fato concreto para alimentar nossa esperança: o plano inicial de imunização em nosso país começou em meio de janeiro com a CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan com insumos chineses. Agora, ao lado do grande número de afetados pela doença, temos também um contador de imunizados. Uma dose de vacina que traz uma boa dose de esperança para o povo e a lembrança de que, cada vez mais, é preciso despertar para o coletivo, preservar a vida em comum, não só a própria vida.

Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. [1983] Argumento a favor de um otimismo trágico. O sofrimento humano (fundamentos antropológicos da psicoterapia). São Paulo: É Realizações, 2019. p. 84-88.

PEREIRA, A. B. (2018). Ideologia, eu quero uma pra viver: sujeito, discurso e busca por um posicionamento na letra musical de Cazuza. Linguagem: Estudos E Pesquisas, 21(1). https://doi.org/10.5216/lep.v21i1.52226

[1] “Em meio a tantas situações negativas, o sujeito se encontra perdido, sem posicionamento concreto, sente-se incapaz de reação frente às situações. Contudo, é possível perceber que há uma semente de esperança, que o sujeito busca por uma saída, que apesar de toda negatividade momentânea, é preciso tomar para si uma posição, uma ideologia.” (Pereira, 2018, p. 46)

[2] “Acham-se acima do comum dos mortais. Consideram que estão acima da lei e das normas sociais e que têm direito a um tratamento especial e exigem esse tratamento”. Daniel Rijo citado por Teresa Firmino em “As máscaras do narcísico”, 5/3/16. Disponível em: https://acervo.publico.pt/ciencia/noticia/narcisismo-outro-lado-da-confianca-1725240

Imagem: O Falso Espelho (1928) / René Magritte / Moma-NY


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

2021 – Um convite para viver o presente à luz da logoterapia

Todos nós aprendemos muito em 2020, mas talvez a lição mais importante que podemos tirar de todos os acontecimentos seja esta: nós precisamos viver o presente.

Ao longo desse ano, todos nós adiamos alguma coisa: um abraço apertado, uma reunião presencial, um passeio divertido, uma viagem especial ou um novo projeto.

Tivemos que evitar o contato físico e, por isso, reinventamos maneiras de nos relacionar. Intensificamos o uso da comunicação e ampliamos o nosso alcance social, descobrindo novas possibilidades de viver a vida. Segundo Viktor Frankl, nós não somos produto das circunstâncias, somos produto das nossas decisões. E estas são as grandes responsáveis pelas mudanças em nossa caminhada.     

Não sabemos o que o amanhã nos reservará, mas seguiremos ainda mais fortalecidos do que nunca. Em meio a esse turbilhão de emoções e frustrações, compreendemos a importância de saber ressignificar os acontecimentos, vivendo o agora.    

Um novo ano se inicia e com ele 365 novos momentos. Que 2021 seja um convite para vivermos cada dia de forma presente e significativa, com escolhas mais conscientes e responsáveis!


Crédito: Foto de Kaboompics.com no Pexels

Humor: uma vacina de prevenção do sentido

Quantas vezes você sorriu hoje?

Talvez você leia essa pergunta e automaticamente torça o nariz, julgando que virá um texto motivacional ou dica para manter a positividade em tempos difíceis. Talvez você se lembre de que não tem sorrido muito ultimamente, por não estar vendo graça nas questões de saúde pública, nem na política ou nas notícias catastróficas que chegam até seus ouvidos e olhos – e não tem graça mesmo. Mas pode ser que essa questão te convide a se inquietar com a diminuição ou a falta de sorrisos no seu dia a dia; e a refletir se “sorrir” não tem sido constante porque você não tem tido motivo para tal ou por não ter buscado esse estímulo.

Um simples sorriso é capaz de provocar uma resposta imunológica do nosso organismo, liberando neurotransmissores, reduzindo pressão arterial, relaxando tensões e dores físicas e emocionais. Mesmo um sorriso induzido, ou seja, sem um motivo aparente, já produz esses efeitos. Sorrir é como uma vacina que estimula nosso organismo a produzir humor, desenvolvendo uma “memória imunológica” que nos predispõe à alegria e ao bem-estar. Não se trata de manter a positividade a qualquer custo, mas de entender a questão do humor como fator preventivo psicoemocional – um fator de autopreservação importante e acessível a todos.

Trago aqui a perspectiva do humor para a Logoterapia, de Viktor Frankl, neuropsiquiatra austríaco que usou desse recurso para atravessar a experiência extrema que viveu no contexto da Segunda Guerra Mundial, em campos de concentração. Esse tema é tão relevante que, em seu livro autobiográfico mais conhecido, Em busca de sentido, há um capítulo dedicado à vivência do humor naquele ambiente. Nessa obra, conta que combinou com um colega de campo, cirurgião de profissão, de criar pelo menos uma piada por dia, fazendo referência não só ao presente difícil que estavam sentindo na pele, mas especialmente a um cenário imaginário futuro, relacionado à prática médica compartilhada por ambos. O contraste de percepções entre o que é terrível e o que é engraçado é expressão da capacidade do ser humano de relativizar o sofrimento e, portanto, de ressignificá-lo:

A vontade de humor – a tentativa de enxergar as coisas numa perspectiva engraçada – constitui um truque útil para a arte de viver. A possibilidade de optar por viver a vida como uma arte, mesmo em pleno campo de concentração, é dada pelo fato de a vida ali ser muito rica em contrastes. E efeitos contrastantes, por sua vez, pressupõem certa relatividade de todo sofrimento.” (Frankl, 2008, p. 63).

O humor, entendido como estado afetivo com efeitos positivos, como riso e alívio, remonta à teoria do século 19, como a visão de Freud sobre uso do humor como resposta à censura. Além dessa fonte, Frankl também bebe dos clássicos, como Aristóteles, que aponta a forma da piada, dos trocadilhos e da zombaria como resultado da visão de superioridade de um indivíduo em relação a algo, alguma situação ou alguém. Tanto assim que ele indica o humor como “arma da alma” mais eficaz para “criar distância e permitir que a pessoa se coloque acima da situação, mesmo que somente por alguns segundos” (Ibidem, p. 62).

Trata-se de uma habilidade que envolve alguns movimentos internos (esforços psíquicos) e que, muitas vezes, é banalizada como besteira, perda de tempo ou que carece de inteligência e sentido. A psicologia, especialmente a visão logoterapêutica, mostra que é justamente o contrário disso. Tanto a percepção quanto a criação de algo que tem graça envolvem algumas habilidades, como distanciamento de si e do problema vivido, aceitação do que se apresenta, criatividade e senso crítico.

O humor também é um recurso terapêutico quando fortalece relações por meio de identificação entre pessoas que compartilham da mesma situação. Na experiência de Frankl, diante do sofrimento inevitável e da condição limitada nos campos de concentração, para todos os prisioneiros, o humor se tornou um dos únicos remédios disponíveis. Na prática clínica, recebo pacientes que enfrentam situações-limite de falta de sentido na vida, por múltiplos motivos, entre eles luto, doenças, estresse traumático, e, nestes tempos, também por efeito da pandemia. É nesse espaço que observo a ação do humor e experimento seu potencial de promover grandes mudanças. Isso porque esse recurso tem a capacidade de manter o indivíduo no tempo presente, sem negacionismo (ou seja, sem fingir que não está acontecendo o que de fato está, no caso, produzindo sofrimento) e, ao mesmo tempo, sem tentar combater de forma autodestrutiva uma situação que não pode mudar. Move o indivíduo, portanto, do lugar da indiferença e do combate em relação à situação de sofrimento e o coloca, mesmo que temporariamente, num lugar de alegria, otimismo, leveza. E, nesse estado, torna-se possível buscar sentido no que está ao alcance, para viver minimamente bem. Quando o humor ativa a alegria, é como se uma luz acendesse e conseguíssemos criar e nos conectar com nossa força para lidar com qualquer adversidade.

E o melhor de tudo é que o humor está disponível, ao alcance de todos – está nas pequenas alegrias. É o que a logoterapeuta Elisabeth Lukas nomeou como “enigma da pequena felicidade”:

“’Pequena’ porque a grande felicidade não nos compete. Não permanentemente. Não sem sedução. Não sem danos. Nossa espécie não se dá bem com ela, faz-lhe mal. […] A pequena felicidade, ao contrário, é de natureza calma e estável. Tem a ver com paz, harmonia e unidade entre aquele que a encontra e o objeto encontrado. Não é algo que move o mundo, move somente um coração.” (Lukas, 2012, p. 171-2)

O que move somente o seu coração hoje? O que te emociona? O que te faz sorrir? E gargalhar? Pequenas alegrias podem ser compartilhadas, mas o enigma a que Lukas se refere é esse encontro individual com as pequenas felicidades de cada um. É esse exercício contínuo que nos ajuda a viver na imprevisibilidade da vida, aceitando-a incondicionalmente, especialmente nos momentos em que nos sentimos impotentes diante dela.

O convite aqui é cultivar sua vacina de alegria no dia a dia, uma “injeção de ânimo” (como diz a expressão popular), neste período cinza que atravessamos juntos, à espera da vacina contra a Covid-19. Não se trata, porém, de se alienar com o humor, nem de diminuir a seriedade dos sofrimentos coletivos e individuais, mas de acessar nossa força, reavaliar nossos hábitos, agir a partir do que está ao seu alcance e preservar a saúde mental e emocional para que possamos sair desta experiência com otimismo. A “vacina” do humor e das pequenas alegrias é uma proposta logoterapêutica preventiva para a saúde, a partir da preservação do sentido da e na vida.

Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

GOMES, Débora. Encontre o bom humor. Revista Vida Simples, 17 mar. 2019. Disponível em: https://vidasimples.co/ser/encontre-o-bom-humor/

LUKAS, E. Psicoterapia em Dignidade: orientação de vida baseada na busca de sentido de acordo com Viktor E. Frankl. Tradução de Helga H. Reinhold. – 1. ed. São Paulo – SP.

SILVEIRA, Daniel Rocha; MAHFOUD, Miguel. Contribuições de Viktor Emil Frankl ao conceito de resiliência. Estudos de Psicologia, Campinas, 25(4), p. 567-76, 2008.

Imagem: A Morte de Sócrates/Jacques-Louis David (1787)


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

A hora da escolha

Escolhemos o tempo todo – quando podemos. Fazemos escolhas que se tornam automáticas ou fáceis no dia a dia, como alimentação, higiene, vestuário, horários… Escolher dentro da rotina é como dançar ritmos diferentes com passos conhecidos. Mas e quando o passo muda? Ou, ainda, quando só toca a mesma música que você já se cansou de dançar? Como escolher?

Este ano, nosso ritmo foi bastante afetado por tudo o que envolveu a pandemia: isolamento social preventivo, diversos planos por água abaixo, rotinas pessoal e profissional desconstruídas, lutos… Nosso padrão de escolhas foi forçado a se adaptar, muitas vezes, a partir dos cenários que se apresentaram em nossas vidas, estressando nosso cérebro – que é naturalmente conservador –, buscando sempre conexões já conhecidas e tidas como certas. Mas, em tempos incertos, é inevitável nos depararmos com o desconhecido e o erro. Em momentos assim, encarar os momentos de escolha e, em seguida, as consequências da decisão, pode ser extremamente estressante.

Da prática clínica psicoterapêutica associada à pesquisa da obra de Viktor Frankl (1905-1997), destaco três pontos ligados ao dilema humano em relação às escolhas: a liberdade, o sofrimento e a responsabilidade. 

Afinal, somos livres para escolher? Que liberdade de escolha é possível? Frankl conduz a discussão sobre liberdade com a perspectiva do livre-arbítrio, indicando que:

O ser humano não é livre de condicionamentos, sejam eles de natureza biológica, psicológica ou sociológica. Mas ele é, e sempre permanece, livre para tomar uma posição diante de tais condicionamentos; ele sempre conserva sua liberdade para escolher sua atitude perante esses condicionamentos. (FRANKL, 2020, p. 23)

Acrescento a esse conceito o do psicólogo argentino Claudio García Pintos (2017, p. 135), que afirma que “a pessoa, sendo livre, é capaz de criar, é capaz de se criar. Portanto, o grande condicionante da pessoa é a sua liberdade e o exercício que faz dela”.

A Logoterapia, abordagem frankliana, tem nesta a sua primeira premissa: a liberdade da vontade. Um de seus princípios é de que somos livres, mesmo numa sociedade ou contexto que cerceia nossa escolha. A liberdade, para Frankl, é interna e, muitas vezes, fica pulsando, adormecida, querendo encontrar saída.

Foi essa qualidade de liberdade que o neuropsiquiatra experimentou como prisioneiro em campos de concentração entre 1942 e 1945. O que nos conduz ao segundo ponto ligado às escolhas: Frankl define liberdade em situação de extremo sofrimento, ou seja, quando é colocado diante de momentos de escolha de vida ou morte. E você há de concordar que nem todas as escolhas que precisamos fazer carregam essa gravidade real. No entanto, é comum, na contemporaneidade, notar o sofrimento presente nos momentos inevitáveis de escolhas, seja quando há muitas opções disponíveis, seja quando estas são restritas ou quase nulas. O núcleo do sofrimento, aponta Frankl, reside no sentimento de vazio existencial que acomete nossa sociedade desde o século passado:

Esse sentimento de vazio tornou-se, em nossos dias, uma neurose de massa. […] Se me perguntais como eu explico a gênese desse sentimento de vazio, só posso dizer que, ao contrário do animal, o homem não tem nenhum instinto que lhe diga o que tem de ser, e, a contrário do homem de tempos anteriores, não há mais uma tradição que lhe diga o que deve ser – e, aparentemente, não sabe sequer o que quer ser de verdade. Por conseguinte, ele só quer o que os outros fazem – e então nos encontramos diante do conformismo – ou, só faz o que os outros querem dele – e então nos encontramos diante do totalitarismo. (FRANKL, 2015, p. 107-8)

Um vazio que vai se tornando um abismo, quando observamos os fenômenos decorrentes do uso viciante de aparelhos e aplicativos que convocam nossa atenção a todo momento, e a forma como as redes sociais acabam “produtizando” seres humanos, via algoritmos que sequer temos conhecimento de como operam. E ali, naquele ambiente virtual, vão se potencializando as fantasias relacionadas ao “ter que”, ao “dever” e ao “querer ser”, pois há muitas narrativas disponíveis – geralmente, figurando sucesso – para espelhar a própria existência e, com isso, as próprias escolhas. Nesse contexto, o sofrimento existencial geralmente se expressa na pergunta “como escolher?”, mas seu núcleo reside antes nas questões do “o que escolher?” e do “para que escolher?”, as quais buscam encontrar o sentido do processo de decisão dentro da liberdade possível a cada ser único. 

Escassas ou abundantes, as opções de escolha podem ser fatores geradores de estresse e inquietação, pois envolvem investimento emocional e, também, cerebral (lembram que gostamos de caminhos neuronais conhecidos? Novidade é sempre estressante para nosso cérebro). Os tipos de escolha que geram mais aflição são os dilemas, isto é, quando há apenas duas alternativas e elas são contrárias entre si e nenhuma delas nos satisfaz totalmente. Como exemplo disso, podemos lembrar das eleições presidenciais de 2018, em que a maior porcentagem de eleitores encarou o dilema de não se ver contemplado e representado por nenhum dos candidatos – tendo dificuldades, inclusive, de se posicionar a favor ou contra num discurso polarizado (que ainda produz efeitos nos dias de hoje). O dilema parece uma rua sem saída, mas o fato é que as rotas viáveis não nos parecem satisfatórias, o que pode nos paralisar.

Em situação de dilema, costumo adotar a técnica frankliana de buscar um denominador comum com o paciente, isto é, reduzir os elementos até chegar a duas opções irrepetíveis ligadas a valores vivenciais (que Frankl define como a relação do indivíduo com os outros, com a arte e a natureza). Para chegar nessas alternativas únicas do campo do “ou”, é necessário apoiar o indivíduo a levar em consideração uma espécie de balanço, e lidar com consciência e maturidade com o que é escolhido e o que é perdido. E isso implica no terceiro ponto fundamental para escolher: a responsabilidade que inclui não só o “eu”, mas também o entorno que será atingido pela minha escolha.

Não se pode escolher tudo, nem qualquer coisa. “A liberdade pode degenerar em arbitrariedade, caso não seja vivida com responsabilidade.” (FRANKL, 2015, p. 110). É por isso que ser livre não é poder tudo, nem fazer todas as escolhas com vistas apenas ao benefício próprio ou de um núcleo afetivo próximo. O denominador comum é uma técnica que nos oferece um percurso para fazer uma escolha consciente, não pensando só no nosso umbigo. Colocam-se na balança os prós e os contras, incluindo a reflexão de quem são os envolvidos e os atingidos com essa escolha. Se isso vai trazer prejuízo para a maioria das pessoas e para o meio envolvido, é preciso criar condições de mitigação dos impactos negativos da escolha da vontade própria nesse contexto, ou realmente abrir mão do desejo individual em prol do coletivo. 

Quanto menos repara em si mesmo, quanto mais esquece a si mesmo, ao entregar-se a uma causa ou a outras pessoas, mais ele é o próprio homem, mais se realiza a si mesmo. Só o esquecimento de si conduz à sensibilidade e só a entrega de si amplia a criatividade. (FRANKL, 2015, p. 107)

O chamado à responsabilidade na hora da escolha é, talvez, o ponto mais importante desta nossa conversa aqui. Isso porque, enquanto humanidade, muitas vezes fomos condicionados (ou obrigados) a entregar nossa responsabilidade de escolha a outros – como governos, religião, sistema social e, agora, algoritmos. Mas mesmo sabendo que essa bagagem histórica, social e tecnológica influencia nossas decisões, como podemos escolher a partir de um lugar de autorresponsabilidade? Começando a pensar menos somente em nós e mais para além de nós; entender que a posição de não escolha (para não sofrer ou se desgastar no processo decisório) também é uma escolha que gera impactos; passar a ver-se como um ser que integra a coletividade e o meio ambiente, buscando não apenas escolhas que promovam o bem-estar próprio, mas também a boa convivência com o outro. 

Escolher implica fazer algo. É tão fantasioso dizer que não temos escolha alguma quanto dizer que podemos escolher o que quisermos – ambas construções de um mundo alienado. A liberdade de escolha com responsabilidade envolve reflexão, enfrentar determinismos e condicionamentos, pensamento crítico e maturidade. Muitas vezes, a hora da escolha será cansativa e pode gerar algum nível de sofrimento, mas só assim estaremos ativos na arena da vida, vivendo de verdade. 

Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. O sofrimento de uma vida sem sentido: caminhos para encontrar a razão de viver. São Paulo: É Realizações, 2015.

FRANKL, Viktor E. Psicoterapia e Existencialismo. 1. ed. São Paulo: É Realizações, 2020.

GARCÍA PINTOS, Claudio. O mar me contou: a logoterapia aplicada ao dia a dia. Vargem Grande Paulista: Cidade Nova, 2017.

Imagem: colagem/Heritage Library


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

A crise da contemporaneidade sob a ótica da Logoterapia

 

“Seja feliz!” é o que lemos estampado em capas de cadernos, posts no Instagram e propagandas. Como educadora e coach, percebo que há uma crise na sociedade contemporânea que reflete uma crença de que uma vida pode ser plenamente feliz o tempo todo e que a realização pessoal é um objetivo a ser perseguido.

Tenho no trabalho a oportunidade de lidar com  a necessidade de aprendizado sobre as dificuldades que essas crenças e formas de viver trazem como consequência. São marcas de uma sociedade que tem se tornado cada vez menos tolerante às dificuldades e limites e tem buscado soluções questionáveis, incluindo medicamentos, para enfrentar os desafios que toda vida humana apresenta.

É a partir desse cenário que quero trazer uma reflexão sobre esta questão tão recorrente e atual sob a ótica da Logoterapia. Viktor Frankl nos convida a enxergar que há um nível de estresse saudável, que incomoda para nos mover ao novo, ao que podemos vir-a-ser. Quando tentamos abafar esse incômodo, as chances são que permaneçamos no mesmo lugar, sem descobrir e vivenciar os nossos potenciais.

Nas palavras dele, o que o ser humano precisa é a busca e a realização de um objetivo que valha a pena, uma tarefa escolhida livremente. É isso que nos move ao futuro, à coragem e a ação. Essa é a motivação real: buscar, encontrar e realizar um sentido concreto. É responder com liberdade e responsabilidade à pergunta que a vida lhe faz hoje.

Essa tarefa não é necessariamente simples ou fácil, mas é o que nos mantém mentalmente saudáveis, independente das condições em que estivermos, sejam elas fáceis ou adversas. A logoterapia apresenta assim o conceito de fatores protetores, sendo o principal deles, a busca e realização de sentido.

Os fatores protetores funcionam como uma “vacina” contra o sem sentido, angústia, tédio ou apatia e promovem condições para enfrentar os desafios. Elizabeth Lukas, psicóloga e escritora austríaca, discípula de Frankl e autora, aponta com muita ênfase a importância de cultivar a  alegria como um fator protetor e cita coisas simples como perceber as pequenas alegrias do dia, como uma mãe cansada que lembra que sua exaustão existe porque a realização de um sonho ocorreu, perceber o cheiro do café quente espalhando pela casa de manhã ou até mesmo poder se encantar com uma flor nova que apareceu num canteiro.

Reconhecer essas alegrias e se permitir esses momentos de contemplação, são poderosos recursos para fortalecer o ser, se tornar mais criativo, perceber outras possibilidades no caminho.

Cultivar estes momentos preciosos, facilita nossa jornada em direção ao sentido, em vez de sucumbir às dificuldades. Ao reconhecer as pequenas alegrias, posso me fortalecer para, com coragem, realizar algo de significado na minha vida, no meu trabalho, a partir das minhas escolhas e ações.

Esta é uma perspectiva logoterapeutica para as crises que vivenciamos na contemporaneidade. Dentro do Núcleo de Logoterapia AgirTrês, estamos juntos com você nesta busca e oferecemos apoio para perceber novas possibilidades de realização de sentido, a partir do que a vida oferece.

Sugestões de leitura:

Capítulo sobre Alegria no livro Psicoterapia em Dignidade de Elizabeth Lukas.

Livro Em busca de Sentido de Viktor Frankl

 

 

Se você ficou interessado em adquirir os livros ou receber mais informações sobre os tipos de apoio que oferecemos no Núcleo de Logoterapia AgirTrês, entre em contato pelo whatsapp: +55 11 99299.0930

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