O sentido da vida em tempos difíceis

Tempos extremos, como este que vivemos na atualidade, colocam nossa liberdade em questão. Quando a sobrevivência se torna um imperativo, há uma série de imposições externas e internas que impactam nosso modo de operar e de nos relacionar. A pandemia da COVID-19 nos fez instaurar novas medidas no dia a dia: preventivas, como o isolamento físico e procedimentos de higiene para evitar contágio e transmissão; de manutenção, como dos serviços básicos e de abastecimento; e também medidas emergenciais, como a atuação de profissionais de saúde, da área social e de pesquisa, na linha de frente de combate ao vírus. Somando a esse contexto complexo, enfrentamos uma grave crise econômica, que tem gerado desemprego e reduções orçamentárias drásticas. Tudo isso e ainda lidando com a preocupação, o sofrimento e o medo de um inimigo invisível aos nossos olhos.

Imersos neste cenário, podemos nos questionar: “é possível ser livre em tempos de isolamento?”, “como posso ser livre se estou enfrentando diariamente um vírus que pode ser muito grave e letal?” e “será que vou sobreviver à pandemia?” – questões que colocam, em seu centro, não a nossa, mas liberdade do vírus. No fundo, queremos nos ver livres logo desse inimigo externo que nos privou do mundo como o conhecíamos, que trouxe perdas e nos fez encarar nossa própria finitude. Então, a pergunta que é pano de fundo para as anteriores é: “qual o sentido desse sofrimento todo?”.

É essa falta de sentido no sofrimento que nos frustra, vulnerabiliza e fragiliza, a ponto de gerar ansiedade, estresse crônico, melancolia, irritabilidade, neuroses, fadiga mental e emocional e até vazio existencial. E sem dúvida isso afeta toda a nossa forma de ser e de nos relacionar: há pessoas sofrendo extrema pressão do trabalho (seja home office ou in loco, seja pelo excesso ou pela impossibilidade de trabalhar), há pessoas enfrentando solidão, outras cansaço, dificuldades e estresse na convivência privada (com familiares, parceiros e até problemas de violência doméstica). Não é à toa que, assim como hospitais, centros de atendimento psicológico e psicoterapêutico também estão lidando com o aumento exponencial de pessoas que precisam de apoio para lidar com questões psicoemocionais em meio à pandemia. A Federação Internacional da Cruz Vermelha, inclusive, publicou orientação provisória para profissionais e voluntários de primeiros cuidados psicológicos remotos durante o surto de COVID-19.

Mas o que sentido de vida tem a ver com liberdade? Buscar sentido na vida, mesmo em situação de sofrimento, é um caminho para a liberdade, segundo a cosmovisão de Viktor Frankl, médico vienense, sobrevivente de campo de concentração, que criou (e vivenciou) a Logoterapia. O exemplo do que ele enfrentou e, sobretudo, de como experienciou essa situação extrema pode nos trazer pistas de como lidar com o momento atual.

Em seu livro Em Busca de Sentido, onde narra o que viveu no campo de concentração, Frankl aborda o conceito de liberdade interior, trazendo como pergunta orientadora algo semelhante ao que levantamos acima: “Onde fica a liberdade humana?” (Frankl, 2008, p. 88); e discorre sobre a possibilidade de agir “fora do esquema” (no caso, o dos campos de extermínio), de pessoas que foram capazes, apesar das circunstâncias e condições degradantes, de não sucumbir à apatia, irritação, à sujeição do dominador ou perda de vitalidade:

no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. E havia uma alternativa! (Frankl, 2008, p. 89)

Ressalvadas as devidas diferenças, essa liberdade como atitude também é hoje uma chave para lidar com a pandemia, inclusive como um fator de preservação de saúde e manutenção da vitalidade humana. Não se trata de se livrar do que faz sofrer, mas de agir nessa situação, lidar com o sofrimento, compreendendo que também nele há possibilidades de sentido. Na experiência de vida dele nos campos de concentração, enquanto alguns se perguntavam se sobreviveriam àquela realidade, Frankl se questionava sobre o sentido do sofrimento e da morte, como parte da vida e da existência humana, afinal:

Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida. (Frankl, 2008, p. 91)

Uma vida com sentido é esta em que se tem liberdade de escolha de atitude diante do que ela espera de nós, enfrentando com responsabilidade as decisões tomadas. Para Frankl, a liberdade só é possível com responsabilidade. Para ele, “ser pessoa é ser livre e ser responsável”, e a liberdade está em realizar essa busca de sentido na vida, encontrar o “para que viver” de cada ser único e irrepetível que somos. Tempos difíceis, de sofrimento, nos colocam no enfrentamento direto com questões sobre o sentido de vida. Por isso, é fundamental compreender que sempre há uma decisão interior possível diante de uma situação extrema – e que é essa decisão (que pode ir da vitimização à manutenção da dignidade e humanidade) que vai conduzir ao tipo de transformação que podemos vivenciar nessa situação.

É adotando uma atitude humanizadora, de manutenção de sua dignidade, inclusive em situação de sofrimento, que o ser humano se põe em busca do seu sentido na vida. O sentido, para a Logoterapia, está na possibilidade de o ser humano encarar os sentidos que está para realizar, valores a realizar. Posto isso, é viver num campo polar de tensão estabelecida entre a realidade e os ideais por materializar. O sentido deve ser descoberto, ele não pode ser dado.

Então, que caminhos existem para encontrar esse sentido? Frankl aponta a vivência de valores de criação, a liberdade espiritual (sem atribuição dogmática ou religiosa) e a experiência com o que é belo, da natureza e da arte. Bebendo da mesma fonte, o escritor búlgaro Todorov reforça esses elementos, em seu livro Diante do Extremo, nomeando-os como exercício da vontade, cuidado de si (cuidar-se, nutrir-se, respeitar-se em primeiro lugar) e atividades do espírito (busca da beleza e da verdade).

Através desse exercício da liberdade com responsabilidade, é possível identificar o sentido daquilo que a vida apresenta no momento (especialmente em tempos em que nossos prazeres são reduzidos), mobilizar recursos internos, despertar nossa consciência e encontrar o sentido e o significado de nossa existência, para transcender o sofrimento e seguir em frente.

Referências bibliográficas

FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008

INTERNATIONAL FEDERATION OF RED CROSS AND RED CRESCENT SOCIETIES. Primeiros cuidados psicológicos, remotos, durante o surto de COVID-19. Mar. 20. 13p

TODOROV, T. Diante do extremo. Trad. Nícia Adan Bonatti. São Paulo: Ed. Unesp, 2017

Imagem: montagem sobre original de francescoch/iStockPhoto


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

*Mensagem Nº 30* – 16/5/2018

No último domingo, dia 13, comemoramos o Dia das Mães e a AgirTrês não poderia deixar de lado uma data tão especial. Assim como a Logoterapia, mãe também é verbo. Mãe é cuidar, é acolher, é amar. E nas palavras de Frankl

“Amar é atitude, é gratuito, é especificamente humano, é um ato existencial, é uma descoberta do valor do outro na própria existência, e não uma autosatisfação. Amar o outro em seu vir-a- ser.”

Pensando nisso, nossa equipe escolheu o artigo “A SÍNDROME DO NINHO VAZIO SOB O OLHAR DA LOGOTERAPIA”, de Lucia Helena Chuery. Vale lembrar que as constatações aqui presentes não expressam necessariamente as opiniões do Núcleo, mas são afirmações decorrentes da pesquisa realizada pela autora.

RESUMO
O objetivo deste trabalho foi propor uma reflexão sobre a Síndrome do Ninho Vazio a partir de alguns pressupostos teóricos da Logoterapia e Análise Existencial de Viktor Emil Frankl. Associada à fase do ciclo vital familiar, na
qual o último filho sai da casa dos pais, a síndrome traz como sintomas a solidão, tristeza, apatia e a depressão que acometem pais e mães, em diferentes intensidades. A Logoterapia, centrada na busca do sentido, acrescenta sobre a vivência do homem e da mulher nesses contextos grande valor ao integrar, para além das observações da individualidade da mulher e do homem, dos papéis desempenhados em relação aos filhos, dos conteúdos
vivenciais de cada um além da maternidade e paternidade, o sentido à experiência de existir dessas pessoas, ampliando o entendimento do exercício da parentalidade e da individualidade do ser nessas relações. Assim,
possibilita um entendimento sobre a Síndrome do Ninho Vazio ao referir que a saída do último filho não seria a razão para o sofrimento acentuado dos pais, mas sim o vazio existencial. Concebendo a pessoa que se tornou mãe e se tornou pai como um ser integral e livre para algo, a Logoterapia propõe que saiam de si na busca do sentido, autotrascendendo, sendo responsáveis, atentos às situações da vida com a saída do último filho, descobrindo também seu dever-ser.

Para ler o artigo completo acesse o link a seguir: A Síndrome do Ninho Vazio – Lúcia Chuery

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Abraços e até breve!
Simone Guedes
Diretora Educacional do *Núcleo de Logoterapia AgirTrês*

O que vivi com Viktor Frankl #9 | Relato logovivencial de Adriana Possale

A nona edição da série “O que vivi com Viktor Frankl” é especial. Ela une as datas comemorativas de maio (a da Enfermagem e das Mães) numa só vivência: a de Adriana Possale, enfermeira de cuidados paliativos e mãe de duas meninas lindas. Nesta história, Adriana conta como entrou em contato com a Logoterapia, o que a fez se reconectar com seu sentido do cuidar. Confira!


Estou hoje, em uma tarde linda e fria de Outono escrevendo meu relato de vida, relato de logo vivente. Sou Adriana. Sou enfermeira, sou amiga, sou filha, sou mãe, sou faxineira! E dentre os vários papéis que venho a  exercer no mundo, sou em primeiro lugar pessoa. Sinto o que tu sentes! Nasci no interior de São Paulo, sou a segunda filha, sendo que meu primeiro irmão não chegou a nascer, perdas não vivenciadas de uma mãe, um casal que fez o melhor que pôde, dentro das possibilidades que eles tinham.

A vida me apresentou a Logoterapia em um dos encontros de mulheres do Põe no Mundo, onde eu buscava respostas para minhas angústias existenciais relacionadas ao casamento, a maternagem, ao trabalho em equipe dentro das instituições de saúde, ao meu posicionamento dentro desse contexto geral em se tratando da minha responsabilidade e a responsabilidade do outro, na época fui convidada pela amiga, psicóloga e coach Mayra Aiello que me apresentou para a querida Simone Guedes, diretora pedagógica do Núcleo AgirTrês.

Desde muito cedo, em minha vida pessoal e profissional tenho um sentimento que me impulsiona, algo além de mim, que me leva a buscar o melhor para mim e para o outro, é na sutileza de detalhes que encontramos no outro um pouco de nós e assim somos espelho! Me despindo das culpas e procurando humildar o Ego… Em cada bagagem uma história! Cada paciente uma memória! A dor de cada um é também a minha dor, assim procuro só espalhar Amor … Quando li a frase de VIKTOR FRANKL : “Encontrei o significado da minha vida, ajudando os outros  a encontrarem o sentido das suas vidas” entendi que os momentos vivenciados durante a doença eram também a minha cura interior. 

“A nuvem” que me orienta. Por muito tempo pensei que se trabalhasse muito iria alcançá-la, porém, estudando a ciência da terapia do Sentido de Vida observei que ela sempre estará a frente… inalcançável! Foi aí que entendi que  “O SENTIDO DA ENFERMIDADE CONSISTE EM CONDUZIR A QUEM ESTÁ TOCADO POR ELA, AO SENTIDO DA VIDA” (Jaspers, 1991, p. 19)

Hoje, após quinze anos de experiências com pessoas que vivenciam a tríade trágica (sofrimento, culpa e morte),  na experiência da dor e da doença, curso a especialização em Cuidados Paliativos no Instituto Paliar, só tenho a agradecer a todos que fazem parte da minha Vida, a todos que pude tocar o coração, possibilitando mais do que medicações e curativos, como enfermeira que sou, toquei Vidas com V maiúsculo; Em especial a Valéria Guedes, amiga que definitivamente me conduziu a esta jornada.”

Adriana Possale é mãe, coach e enfermeira com ênfase em cuidados paliativos e abordagem logoterapêutica.

*Mensagem Nº 29* – 2/5/2018

No mês de maio comemoramos a Semana Nacional da Enfermagem, que inicia no dia 12 com o Dia Internacional da Enfermagem e encerra no dia 20 com o Dia Nacional dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem. E justamente pensando em homenagear estes profissionais do cuidar, presentes em todas as etapas do restabelecimento da saúde e da prevenção de doenças, que dedicamos a mensagem de hoje. Afinal, sem o cuidado da dimensão física a conexão com dimensão noética é prejudicada, comprometendo a busca de sentido do indivíduo.

A equipe AgirTrês escolheu o artigo “O sentido do cuidar da criança e da família na comunidade: a experiência da aluna de enfermagem”, de Myriam Aparecida Pettengill e Margareth Angelo, que se apoiam nos princípios logoterapêuticos. Vale lembrar que as constatações aqui presentes não expressam necessariamente as opiniões do Núcleo, mas são afirmações decorrentes da pesquisa realizada pelas autoras.

RESUMO

Este estudo, utilizando abordagem fenomenológica, buscou compreender o significado da experiência de aprendizagem da aluna de enfermagem ao cuidar da criança e da família na comunidade. Os dados foram obtidos por meio de entrevista aberta, individual, tendo como sujeitos nove alunas. Através da análise dos dados emergiram dois temas: ENFRENTANDO O DESAFIO e GERANDO OUTRO OLHAR. A interpretação, segundo o referencial teórico da Análise Existencial de Viktor Frankl, permitiu compreender que o sentido que move a aluna no tema enfrentando o desafio é a busca do conhecimento e o querer fazer algo. Além disso, o estudo permitiu uma reflexão acerca dos componentes da aprendizagem significativa em enfermagem, sendo o tema gerando outro olhar uma conseqüência para o pensar, o sentir e o agir da aluna, favorecendo seu crescimento pessoal e profissional.

“Não se trata de injetar sentido nas coisas,
mas sim, de extrair o sentido delas,
de captar o sentido de cada uma das
situações com que nos defrontamos”
Myriam Pettengill e Margareth Angelo

Para ler o artigo completo acesse o link a seguir: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-62342000000100012&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

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Abraços e até breve!

Simone Guedes
Diretora Educacional do *Núcleo de Logoterapia AgirTrês*