Principais congressos de Logoterapia em 2020

O ano de 2020 chega trazendo importantes congressos sobre Logoterapia para aprofundar conhecimentos e vivências dentro deste universo. Selecionamos abaixo os principais para você se programar.

14 a 16 de Maio – Colômbia

Congresso Colombiano de Logoterapia Y Análisis Existencial

O congresso traz como tema principal “Contribuições para dilemas existenciais” e pretende abordá-lo dentro dos vários campos de atuação da logoterapia, tais como clínica, educacional, social, coaching existencial (coaching logoterapeutico) entre outros.

9 a 12 de Setembro – Espanha

The 5th International Viktor Frankl Congress

Este congresso aborda um tema especialmente interessante: O Futuro da Logoterapia

8 a 11 de outubro – Brasil (Fortaleza-CE)

X Congresso Brasileiro de Logoterapia e Análise Existencial

O congresso realizado pela ABLAE em Fortaleza será imperdível e traz também um tema muito conectado com os nossos dias. Amor, sofrimento e arte – O Legado Frankliano para a Contemporaneidade.

Nós da AgirTrês estaremos presentes e convidamos você para estar conosco aprendendo mais e vivenciando a Logoterapia na prática.

Os refugiados traçaram o caminho que me levou à Logoterapia – por Ana Maria Turk

Ana Mar

Trabalhei durante quase 7 anos em Bruxelas como tutora de mais de 80 jovens menores de 18 anos em busca de asilo político, que chegavam à cidade sozinhos e sem documentos. Neste artigo, compartilho a experiência desse trabalho, que me levou à Logoterapia e me permitiu utilizá-la na prática.

Esses jovens chegam à Bélgica fugindo de situações-limite, por questões políticas, culturais, narcotráfico, entre outras e logo são acolhidos em centros onde são acompanhados durante todo o período de tramitação para a legalidade por educadores, assistentes sociais e psicólogos, além de passarem por um processo educacional, aprendendo a língua do país e conhecendo a nova cultura.

A função do tutor, que, no caso, é designada por um serviço dependente do Ministério de Justiça belga, é ser uma pessoa de confiança e contenção, alguém que acompanhe os jovens nas audiências e durante todo o processo legal até a obtenção do asilo. O objetivo desse trabalho de tutoria é auxiliá-los a obterem o direito de ficar na Bélgica como refugiados com asilo, proteção subsidiária ou com permissão de residência.

O trabalho do tutor contempla muitos elementos jurídicos, bem como sociais e psicológicos. Por esse motivo, para uma melhor preparação do tutor, o serviço de tutelagem oferece seminários de formação em Direito de Imigração e também apoio e formação psicológica.

A Bélgica, por ter sido um país colonizador na África e que conhece mais de perto a realidade política e social de diferentes países no continente, tem uma trajetória muito importante no que diz respeito à questão do asilo político. Muitos africanos na Bélgica gostam de visitar o bairro Matongue-Ixelles de Bruxelas que representa um ponto de encontro em que podem sanar suas necessidades culturais, como relacionamento, culinária do país de origem e contato com o idioma materno.

Durante os anos em que trabalhei como tutora, recebi jovens das regiões de Burundi, Guiné-Conacri, Congo, Nigéria, Tanzânia, Somália, Camarões, Marrocos, e também alguns latino-americanos (mexicanos, colombianos e salvadorenhos), que chegavam à Bélgica, principalmente, devido a problemas com narcotráfico. Os poucos brasileiros, em geral da região de Goiás, vinham por conta de problemas familiares e eram apoiados por grupos de brasileiros imigrados na década de 1960. Mais recentemente, aumentaram o número de jovens sírios e afegãos, por razões óbvias da guerra.

As meninas africanas que chegavam à Bélgica demandando asilo vinham, geralmente, por problemas de matrimônio forçado pelo pai, casos de mutilação feminina (ablação) e por serem identificadas com questões relacionadas à bruxaria. Elas não compreendiam por que seus pais lhes forçavam a se casar tão jovens quando ainda estavam estudando e não recebiam ajuda de suas mães, que foram vítimas dessa mesma situação no passado. Em muitos países da África, a bigamia é uma prática legal, então o nosso trabalho de tutoria também abrangia aceitar os costumes que elas traziam da cultura de origem e transmitir-lhes os valores da nova cultura em que estavam se inserindo.

As experiências vividas durante o trabalho com cada um desses jovens me levou a buscar a formação em Logoterapia. Com o sofrimento inevitável que carregavam, era fundamental ajudá-los a achar um caminho e transmitir-lhes que, apesar de todo a jornada difícil, a vida continuava valendo a pena e pedia que eles lutassem e seguissem em frente.

Como eu podia motivá-los a acreditar na vida? Na busca dessa resposta, acabei conhecendo o Em busca de sentido (El hombre en busca de sentido), e conheci a história de Viktor Frankl e seu trabalho com a Logoterapia. Não podia ter encontrado melhor motivação para me especializar nessa área: ajudar aqueles jovens a reencontrar a vontade de viver.

Quando um homem descobre que o destino dele é sofrer, ele tem de aceitar esse sofrimento porque ele se converte na sua única e peculiar tarefa.  Além do mais, esse sofrimento concede o caráter da pessoa para ser única e irrepetível no universo. Ninguém pode redimir-lhe esse sofrimento, nem sofrer no lugar dele. Nada serve, nem mesmo o sofrimento: este se personifica segundo a atitude adotada frente a esse sofrimento que a vida lhe oferece como tarefa. (Viktor Frankl, El hombre en busca de sentido, p. 140)

A situação era tão ruim que muitos jovens nem sabiam o que havia acontecido e como tinham chegado à Bélgica, inconscientes da própria tragédia. A minha função nessas situações era, inicialmente, procurar um advogado especialista em menores e tramitação de asilo. Trabalhando junto com os advogados e assistentes sociais e gerando muita confiança, as histórias se formavam e muitos jovens entendiam o que havia acontecido e como tinham chegado aonde estavam. Então, eu trabalhava com eles os conceitos fundamentais da Logoterapia, a fim de que eles aprendessem a aceitar o sentido do sofrimento inevitável. Uma vez entendido esse conceito, só lhes restava mudar a atitude para reencontrar o novo sentido para suas vidas. Tomando essa consciência, e com nosso apoio, eram capazes de mudar essa situação enfrentando o sofrimento com dignidade e coragem. Era essencial acompanhá-los no autoconhecimento da vida passada em sua terra natal e da vida presente e futura que teriam no novo país e na nova cultura. Fui transmitindo a eles que a vida se constitui num drama, pois é uma luta frenética com as coisas e inevitavelmente todos os seres humanos passam por sofrimentos. Na ocasião, eu lhes contava a história de Viktor Frankl nos campos de concentração, de todos os vínculos que o psiquiatra austríaco havia perdido e da força que ele teve para continuar lutando pelo sentido da vida, uma vez que viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correta aos problemas e cumprir as tarefas que a vida designa continuamente a cada indivíduo.

Em última instância, viver significa assumir a responsabilidade de encontrar a resposta correta das questões que a existência planteia, cumprir com as obrigações que a vida nos assigna em cada instante particular. (Viktor Frankl, El hombre en busca de sentido, p. 137)

A Logoterapia defende a ideia de que devemos seguir em frente com a vida, já que a primeira força motivadora do ser humano é a luta por encontrar um sentido à própria vida.

Dessa forma, acompanhar os jovens e auxiliá-los a desenvolver competências para solucionar os problemas, negociar e pedir ajuda foi essencial para que, como indivíduos, eles pudessem assumir e responsabilizar-se por sua história. Assim, contribuímos para a retomada de consciência do seu próprio valor, ajudando-os a serem mais autônomos e apoiando-os de forma a promover vínculos construtivos baseados no respeito, na empatia e na reciprocidade, bem como incentivamos a vontade e a capacidade de desenvolver novos projetos.

Por meio da Logoterapia, que nos oferece um novo olhar para uma nova atitude, minha função era apoiá-los a encontrar um novo posicionamento diante do que lhes havia acontecido e, pouco a pouco, orientá-los para que pudessem enxergar os acontecimentos de uma nova perspectiva e se tornassem conscientes de sua nova liberdade e possibilidade.

Todos os jovens devem aprender a se autoprojetar, isto é, serem capazes de se visualizarem no futuro. Poder imaginar que existe um futuro desperta a motivação intrínseca do jovem. E nós acreditávamos junto com cada um deles na possibilidade do asilo político, porém, sempre conscientes da realidade, pois nem todos podem receber o asilo. Contudo, o tempo da espera, do processo pelo asilo é um tempo de ouro que lhes permite um novo olhar sobre si mesmos. Por isso, foi importante conscientizar os jovens refugiados de seus poderes internos, que até então estavam ocultos, e capacitá-los a projetar seu novo futuro. Assim, fomos proporcionando a eles a oportunidade de reavaliar a situação vivida, e pudemos conduzi-los a novas possibilidades.

Para Frankl, cada situação da vida carrega um sentido oculto a ser encontrado. Uma vez descoberto, esse sentido ajudará a definir o sentido geral da vida. Orientar os jovens a encontrar seu sentido de vida e seus valores, além de permitir a ressignificação de seu passado, ajudou-lhes a analisar sua existência a partir da perspectiva de sua responsabilidade, princípio básico da Logoterapia.

Contribuímos para que eles percebessem que nada é irreparável e que cada indivíduo deve encontrar seu sentido a partir de sua consciência atual, pois suas recordações vão refletir as decisões e comportamentos do presente. Revisar e reavaliar a vida nos ajuda a melhorar, a alterar ou a manter atitudes e condutas. Assim, trabalhamos com eles o apego ao passado e a ansiedade da incerteza em relação ao futuro. O trabalho com os jovens refugiados foi, em síntese, pôr em prática a ideia de uma nova vida para cada um deles.

A Logoterapia, de Viktor Frankl, me ensinou que o sentido do sofrimento tem o sentido de colocar o ser humano diante de duas tarefas:

  1. tratar de configurar o sentido, quando for possível;
  2. tratar de suportá-lo, quando necessário.

A capacidade intuitiva e a consciência ética de que Viktor Frankl nos fala é a capacidade que cada pessoa tem de perceber o sentido irrepetível e único escondido em cada situação.

A formação em Logoterapia foi para mim um apoio para ajudar esses jovens refugiados a encontrar novamente um caminho em suas vidas, bem como a compreender e aceitar suas histórias, o que era um grande passo. Com a chegada da adolescência somada às dificuldades da perda e distância do círculo social e afetivo, nosso trabalho foi plantar, pouco a pouco, novas sementes para o futuro.

O trâmite de asilo pode levar de 6 meses a vários anos, um período de muita incerteza para eles. Em muitos casos, o asilo pode ser indeferido, exigindo a interposição de recurso, tornando o processo muito complexo. A inquietude, a insegurança, a questão identitária e racial eram os desafios que esses jovens precisavam enfrentar sozinhos.

Para isso, contamos com o apoio do Centro de Exílio de Bruxelas, criado por Jorge Barudi, neurologista e psiquiatra chileno. Trata-se de um centro de apoio psicológico em que os jovens refugiados fazem terapia e participam de encontros de grupos para conhecer outros jovens que passam pela mesma situação, de forma a criar uma contenção de danos e uma rede de apoio na situação de asilo. Os educadores e assistentes sociais dos centros de acolhida têm como principal missão estimular os jovens a construir sua nova vida.

Os transtornos provocados pelos traumas e a necessidade de ajudá-los a desenvolver a capacidade e a coragem de resistir e fazer o impossível para que suas experiências não determinassem de forma negativa suas vidas foi o que me levou à Logoterapia. Para ajudá-los a encontrar essa ponte de salvação, eles precisavam se sentir cercados de amor, solidariedade e espiritualidade.

O desenvolvimento do sentido da vida, por meio da vontade de sentido da qual nos fala Viktor Frankl, ajudou os nossos refugiados, tanto adolescentes como jovens adultos, a superarem seus traumas e feridas.

A primeira força motivante do homem é a luta por encontrar um sentido na vida. Por isso aludo constantemente à vontade do sentido, em contraste com o princípio do prazer (poderíamos chamá-lo vontade do prazer), que rege a psicanálise freudiana como com a vontade de poder que enfatiza a psicologia de A. Adler. (Viktor Frankl, El hombre em busca de sentido, p. 126)

O asilo político foi o momento no qual precisaram começar a construir sua resiliência. A atitude frente às situações vividas estimulou a reparação dos danos causados, pois conseguiram traçar os entornos interpessoais e sociais que lhes ajudaram a reconhecer que o importante era ter uma atitude positiva e estar rodeado da solidariedade oferecida por novos amigos. A ferida traumática precisava ser compreendida; a autoestima, recuperada; e a confiança, restaurada para que eles voltassem a achar o sentido da vida.

Achar o sentido da vida é necessário na vida cotidiana e pode se tornar indispensável em situações de crise. Vislumbrar um possível sentido à dor conduz o ser humano a encontrar uma maneira de atravessar seu túnel obscuro com a esperança de achar a luz no final.

Lamentavelmente, dada a situação atual, não é possível ajudar os refugiados afetados pela indiferença e rejeição dos muitos governantes europeus. A atitude geral de muito países europeus atualmente não contribui para que os refugiados possam sentir o apoio e recuperar o vazio existencial que sentem por conta das guerras em seus países de origem. A solidariedade empática a eles, a expressão artística, o humor, a ilusão e a espiritualidade são quesitos básicos para ajudá-los a encontrar seu sentido de vida. Apesar de tudo, acredito que continuar transmitindo as ferramentas de Logoterapia é fundamental para auxiliar todos indivíduos, sobretudo em situações-limite, a voltar a achar o sentido e a vontade de viver, pois, como afirma Nietzsche, “quem tem por que viver pode suportar quase qualquer como”.

Ana Maria Turk é educadora, geógrafa, psicogerontologa e especialista em Logoterapia. Contato: Info@cambialamirada.com