O sentido da vida na logoterapia de Viktor Frankl e o despertar da humanidade

Crédito : Foto de Tobi no Pexels

O homem é jogado na existência e confrontado com a condição de que há um tempo limitado para sua vida, a percepção de sua vulnerabilidade e impermanência, leva-o a questionar sobre o sentido que pode ter a vida. Assim, a condição humana é marcada não apenas por sua finitude, mas, principalmente, pelo que esta condição engendra e provoca em urgência de uma resposta: dado que a vida tem um fim, o que cabe somente a mim realizar, neste tempo que me é dado?  

Muito cedo Viktor Frankl, fundador da logoterapia, se questionou sobre o sentido da vida. A sua pergunta fundamental não era sobre os motivos que nos levavam a concretizar, voluntariamente, o ato da morrer, através do suicídio, mas o que nos mantinham vivos. Se o suicídio pode ser uma alternativa para escapar do sofrimento inevitável que a vida nos impõe, como apostar na promessa de um futuro, como continuar dando significado em uma existência, muitas vezes marcada por perdas, medo, culpa e desespero? Para quê viver afinal?

Para Viktor Frankl, o que nos define enquanto humano é ter consciência de nossa própria morte. O animal não tem esta percepção, não sabe da importância que pode ter cada momento da vida. Ter esta consciência deveria nos convocar a realizar uma ação no mundo e não nos paralisar, gerar controles ou defesas na tentativa de nos proteger do acaso ou ainda perpetuar a perspectiva da morte a cada passo dado, como se ela estivesse sempre a espreita de se realizar. Ou negar a possibilidade da morte, com todos os recursos disponíveis para “garantir” nossa longevidade.   

O fato é que a vida se abre em múltiplos caminhos e generosas oportunidades, são muitas as possibilidades que nos deparamos ao longo da vida, que nos convocam a responder ao seu apelo de sentido. Somos livres para responder e para decidir o que realizar, qual caminho tomar; mas, na mesma medida de nossa liberdade somos responsáveis por nossas escolhas. Assim, ao tomar consciência de nossa existência, temos o compromisso de responder de modo livre e responsável ao apelo de sentido que a vida nos faz.

Somos convocados a uma existência livre e responsável, conscientes não apenas de quem somos, mas, em perspectiva futura, de quem queremos nos tornar. Se a vida nos convoca a encontrar um sentido na existência, deveria haver uma aposta de onde almejamos chegar enquanto seres humanos, o que queremos ser, o que queremos realizar no mundo.

Se não tomamos consciência da nossa condição humana, vivemos como um animal irracional que busca apenas o prazer: o alimento, o sexo e o descanso. Podemos escolher viver uma vida inteira diante da Netflix, buscar o alimento pelo IFood e ter algum relacionamento via  Tinder ao simples toque do celular, de modo que nunca tivemos tantos recursos à nossa disposição, tanto conforto, mas, ao mesmo tempo, nunca tivemos uma clínica tão permeada pelo discurso de vazio existencial, solidão, falta de perspectiva na vida, alto índice de depressão, violência, uso abusivo de drogas e suicídio.

Para onde estamos indo enquanto humanidade quando nos anestesiamos diante da amplitude que pode ter a vida?  Podemos nos lançar para a infinitas possibilidades de vida, com toda profundidade que ela nos oferece. Basta ter olhos para ver e entrar em contato com a dimensão de possibilidades, que mesmo em condições das mais diversas, estão ao alcance de nossa (1) liberdade de vontade, (2) vontade de sentido e (3) sentido da vida.

Estes são os três pilares que sustentam a visão de homem segundo a logoterapia: (1) liberdade da vontade, dado que o homem não é livre de suas contingências, mas é livre para tomar uma atitude diante de qualquer circunstância; (2) vontade de sentido, como o esforço mais básico do homem na direção de encontrar e realizar sentidos e propósitos; e (3) sentido de vida, dado que ser humano significa ser em face de um sentido a ser preenchido, de valores a concretizar e a realização de sentido sempre implicará na tomada de decisão, pois cabe ao ser humano a responsabilidade de encontrar ou descobrir um sentido em sua vida, para além do sofrimento, da culpa e da morte.  

A logoterapia nos lembra que se a vida tem sempre um sentido e nos cabe descobrir e realizá-lo, devemos nos lançar na vida e estar atento aos sinais que nos convocam a realizar nossa condição humana, nosso poder de decidir que destino devemos cumprir, nesta tensão necessária, entre quem somos e quem devemos nos tornar.

Viktor Frankl já havia formulado sua teoria em torno do sentido da vida, quando sobreviveu a quatro campos de concentração na 2º Guerra Mundial. Sobre esta experiência, me chama a atenção para sua percepção de que “existem sobre a terra duas raças humanas e realmente apenas essas duas: a “raça” das pessoas direitas e das pessoas torpes…o que é então o ser humano? É o ser que decide o que ele é. É o ser que inventou as câmaras de gás, mas é também aquele que ser que entrou nas câmaras de gás ereto, com uma oração nos lábios.”

Para a logoterapia, não somos todos iguais, somos cada um, únicos e irrepetíveis e há graus de humanidade. Podemos ser como porcos, podemos ser santos, temos a liberdade para decidir o que queremos ser e o que queremos nos tornar. Não há “desculpa”, ou truque nem instinto que justifique uma existência que não queira beirar a santidade e os valores de dignidade humana. Assim, a realização de sentido na vida sempre implica numa tomada de decisão, que vai nos situar nesta amplitude humana e mais, apenas quando preenchemos um sentido no mundo é que realizamos a nós mesmos.

De fato, ser consciente das nossas escolhas pressupõe a capacidade humana de nos elevar sobre nós mesmo, de julgar e avaliar nossas próprias ações e a própria realidade em termos morais e éticos. Para Viktor Frankl, “quanto mais a pessoa esquecer de si mesma, dedicando-se a servir a uma causa ou amar outra pessoa, mais humana será e mais se realizará.” pois, se a vida tem um sentido a ser descoberto, se não existo apenas para cumprir uma satisfação particular, é na relação e no compromisso com o outro que posso realizar o sentido próprio de minha vida.

É o que acontece no cotidiano do meu trabalho enquanto psicóloga e logoterapeuta, e que Viktor Frankl bem expressou ao dizer que encontrou o sentido de sua vida ao ajudar seus pacientes a encontrarem sentido em suas próprias vidas. Enquanto, psicóloga, assim como terapeutas, médicos, padres, ou qualquer pessoa que se dispõe a ouvir e ajudar o outro em sofrimento, temos o privilégio, no exercício da clínica, ou da vida, de ser testemunha de histórias que nos inspiram e nos conectam com a humanidade pulsante em cada voz que escutamos. Somos privilegiados em acompanhar alguém na intimidade de seu sofrimento, alguém que se coloca inteiro e disponível em uma esperança confiante e que nos convoca a ser, não uma pessoa portadora de uma técnica, mas um ser humano diante de outro, à serviço de recuperar a dignidade humana de cada paciente, como ser único e irrepetível.

Garcia Pintos em seu livro “Os contos do peregrino” nos fala que o homem que busca sentido é um peregrino. Peregrino como aquele que se encaminha para um lugar sagrado. O homem se encaminha para a realização e descoberta de sentido, nos valores que estão esperando para serem realizados no mundo, a fim de cumprir o sagrado que existe em cada um de nós.  

Como peregrino, só encontramos o caminho se nos direcionamos ao outro, ao nos dedicar a uma causa, ou amar alguém. É este o espírito do peregrino: sair de si próprio para alcançar o sagrado, sair de si para encontrar o sentido de sua própria vida e ser o que somente você pode ser ao realizar um ato humano no mundo.

Não importa a dimensão que seu trabalho pode alcançar, a quem se destina a realização dos valores que lhe cabem cumprir e o caminho que percorre em direção a realização de sentido, dado que, muitas vezes é na rotina silenciosa de seu lar, na intimidade de nossos consultórios e encontros que a vida nos proporciona, que travamos as maiores lutas e enfrentamos os maiores desafios e conquistas. A realização de sentido não precisa estar vinculada ao sucesso, nem mesmo a felicidade. Percorrer o caminho que nos leva ao sentido pode ser árduo e solitário, mas, nem por isso ter menos significado ou menor valor.

Neste contexto, a logoterapia serve como um despertador de nossa própria humanidade ao revelar o valor de cada vida apenas quando nos debruçamos ao cuidado com o outro, ao nos convocar a realizar e descobrir o sentido da vida, na medida em que nos voltamos para além de nós mesmos.  Trata-se de um compromisso com a nossa consciência, entre a responsabilidade e a liberdade, com a convicção de que a vida sempre tem um sentido a ser realizado e que, ao dar os primeiros passos no caminho que decidimos percorrer, somos todos peregrinos, em busca de realizar o sagrado que há em nós, a serviço da humanidade.

Juliana Aguiar Labes, psicóloga, mestre em psicologia clínica PUC-SP, Logoterapeuta em formação – Unilife e Agirtrês, psicanalista pelo CEP, atende em consultório criança, adolescente e adulto

Instagram: @julianalabespsico

Cansaço nosso de cada dia

Estou cansado. As pessoas que atendo no consultório também estão, minha família também está, e imagino que você, que me lê agora, também esteja cansado(a). Que cansaços têm consumido você nestes tempos? Compartilho os meus: estou cansado por conta do aumento exponencial dos atendimentos no consultório psicológico, cansado das pessoas que não têm compaixão consigo e com o próximo, de não poder abraçar as pessoas significativas na minha vida. Cansado dos negacionistas, das pessoas que divulgam fake news. Cansado de olhar a fadiga pandêmica, de acompanhar pessoas afetadas direta e indiretamente pelo vírus, muitas delas que perderam musculatura, que não conseguem andar, que não conseguem respirar. Cansado de lidar com o medo, o medo do medo de contrair a doença, das neuroses que surgem, das relações desfeitas por conta de um mundo onde é cada vez mais difícil conviver. Cansado das telas, do computador, do celular, da televisão, que mostram sempre um mundo (especialmente um Brasil) que poderia ser conduzido de uma maneira diferente, se a questão da união das pessoas tivesse sido prioridade, de ver pessoas passando fome, do luto coletivo.

Falta pão e sobra cansaço. Um cansaço extremo que pode levar à apatia, à dificuldade de levantar para a vida. O choque diante da realidade que se apresenta, de maneira dura e, muitas vezes, cruel. Um grande mar que todos estamos atravessando, só que com embarcações bem diferentes: uns poucos de iate, outros de barco à vela, outros de canoa e a grande maioria nadando, contando com a própria sorte.

Estou cansado das notícias de UTIs lotadas, um ano após o início da pandemia, de ver profissionais de saúde esgotados diante de um trabalho insano, de olhar todos os dias as pessoas em alto grau de sofrimento, muitas delas morrendo sem a possibilidade de se despedir dos entes queridos. O luto que cobre o país e que poderia ser vivenciado de maneira diferente, mais humanizada.

Cansado de home officehome school e da invasão do trabalho no espaço privado das casas, alterando completamente nosso modo de viver. Cansado da falta de empatia, de oferecer um ombro amigo para poder descansar, de poder enxugar as lágrimas que caem a todo instante, clamando por uma resposta que possa acalmar os seus corações. Cansado dos carrascos que ocupam o poder em benefício próprio, deixando a população em risco, desinformando e promovendo o caos.

Resgatando um verso de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, para resumir o sentimento que predomina hoje (quase um século depois do poema): “o que há em nós é sobretudo cansaço”.

Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo.
Cansaço.
[…]
(Álvaro de Campos, “O que há”, 1934)

Talvez o desabafo até aqui dê voz ao seu cansaço também. E dar nome para o que nos tem atravessado é uma chave importante para abrir portas diferentes das que temos visto abertas atualmente: exaustão, fadiga pandêmica, estresse, esgotamento, apatia, burnout

A pandemia escancarou todas essas portas, que já estavam entreabertas para muitos de nós há pelo menos uma década. Basta uma pesquisa simples no Google Trends, ferramenta gratuita da empresa que disponibiliza informações de palavras-chave e tópicos pesquisados pelas pessoas no buscador, para ver que os termos “cansaço”, “exaustão” e “fadiga” já são bastante presentes nas pesquisas na internet, especialmente o primeiro termo. Chamam atenção os picos de pesquisa, no Brasil, dos termos “cansaço pós-covid”, em agosto de 2020 e, recentemente, em abril de 2021, nos Estados de MG, SP e RJ; já “fadiga” apresenta pico de interesse nos meses de março de 2020 e março de 2021, incluindo a maioria dos estados brasileiros. O termo “fadiga pandêmica”, que tem circulado em jornais e mídias sociais, especialmente no primeiro trimestre de 2021, ainda não apresenta dados na ferramenta. Sobre esse termo, recorro à definição da Organização Mundial de Saúde:

O que queremos dizer com fadiga pandêmica?
• Trata-se de uma reação natural e esperada diante de adversidades suportadas e não resolvidas na vida das pessoas.
• Expressa-se como uma desmotivação emergente para se envolver em comportamentos de proteção e buscar informações relacionadas à COVID-19, e também como complacência, alienação e desesperança.
• Ela evolui gradualmente ao longo do tempo e é afetada por uma série de emoções, experiências e percepções, bem como pelo ambiente cultural, social, estrutural e legislativo.
(OMS, 2020, p. 7, tradução livre)

Após mais de um ano de pandemia, o cansaço caracterizado como “fadiga pandêmica” se assemelha a uma resposta diante do trauma, no caso, coletivo. Viktor Frankl (2008) aponta a “apatia” como uma das fases vividas nesse contexto (naquela circunstância, o trauma vivido dentro dos campos de concentração). Esse desânimo multifatorial é relatado pelo neuropsiquiatra como resultante da saudade de seus familiares, do nojo da realidade ao redor, da mortificação de sentimentos normais (“indiferente e já insensível, pode ficar observando sem se perturbar”, relata Frankl).

A apatia e a insensibilidade emocional, o desleixo interior e a indiferença – tudo isso são características do que designamos de segunda fase dentro das relações psicológicas do recluso no campo de concentração – muito cedo também tornam a vítima insensível aos espancamentos diários e em quase cada hora. Essa ausência de sensibilidade constitui uma couraça sumamente necessária da qual se reveste em tempo a alma dos prisioneiros. (FRANKL, 2008, p. 38)

Nossa couraça atual tem se constituído de diversas violências mentais, emocionais, físicas e econômicas geradas tanto por um inimigo invisível – o vírus que nos coloca em estado de vigilância constante – quanto pela frustração diante do cenário atual e a constante incerteza em relação ao presente e futuro político e econômico. O estado de desmotivação e esgotamento nos colocam em estado de maior vulnerabilidade, especialmente para tomar decisões, pois dificulta a visão da situação em perspectiva.

O cansaço de esgotamento não é um cansaço da potência positiva. Ele nos incapacita de fazer qualquer coisa. O cansaço que inspira é um cansaço da potência negativa, a saber, do não-para. (HAN, 2017, p. 76).

Em Sociedade do Cansaço, o filósofo Byung-Chul Han descreve, com concisão e profundidade, os contextos e gatilhos desse estado de aborrecimento que experimentamos nos anos 2000 e 2010, decorrentes de uma violência neuronal a que fomos submetidos – porém, como ele aponta, ainda não vivíamos uma época viral:

Apesar do medo imenso que temos hoje de uma pandemia gripal, não vivemos numa época viral. […] Visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal. Doenças neuronais como a depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), Transtorno de personalidade limítrofe (TPL) ou a Síndrome de Burnout (SB) determinam a paisagem patológica do começo do século XXI. (HAN, 2017, pp. 7-8).

A paisagem patológica predominantemente neuronal, de que fala o filósofo, somou-se a uma pandemia viral, potencializando os sintomas e as consequências catastróficas desse estado de fadiga. Diante desse cenário, como lidar com o cansaço nosso de cada dia?

A OMS recomenda ações governamentais e fortalecimento do apoio público, com base em quatro estratégias-chave: a) entender as pessoas, que implica a escuta ativa dos indivíduos para o estabelecimento de políticas, intervenções e comunicações eficazes; b) reduzir risco; c) envolver as pessoas como parte da solução, não do problema; d) reconhecer e discutir os impactos da pandemia na vida das pessoas (OMS, 2020, p. 4) – todas apontando que a saída é coletiva, começando por ações locais, em grupos, até a escala nacional e global. Nesse sentido, torna-se urgente à nossa nação encontrar sentido na vida de nossos conterrâneos, de nossa comunidade. Colocar ao lado dessa busca a busca de sentido individual, não à frente dela.

Encontrar sentido, para sair do modo sobrevivência e nutrir valores de vivência, é uma chave fundamental. Esse encontro com o sentido da vida começa nos pequenos atos, no cotidiano, em fazer, por amor ao próximo não por medo, as condutas de prevenção do vírus, como respeitar distanciamento social e usar corretamente a máscara; bem como condutas de prevenção mental e emocional, buscando espaços de acolhida, escuta, desabafo. Precisamos de um descanso possível, cuidando uns dos outros com entendimento, compaixão e senso de comunidade, a fim de que possamos, em vez de cansaço, compartilhar pão.

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Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2017.

CAMPOS, Álvaro de (Heterônimo de Fernando Pessoa). [1944] Lisboa: Ática, 1993. OMS – ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Pandemic fatigue – reinvigorating the public to prevent COVID-19. Policy framework for supporting pandemic prevention and management. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe; 2020. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO.

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Imagem: “The Lovers” – René Magritte, 1928 (detalhe da obra em preto e branco)

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Este artigo foi escrito pelo nosso diretor diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

“Otimismo trágico”, a ferramenta psicológica criada para tempos difíceis

Agustina Cañamero, 81, d Pascual Pérez, 84, se beijam com a proteção de máscaras e um plástico em Barcelona.EMILIO MORENATTI / AP

Faz pouco tempo fui entrevistado por um importante jornal austríaco. O jornalista claramente esperava que eu, na condição de diretor do Instituto Viktor Frankl de Viena e titular da cátedra Viktor Frankl em Liechtenstein e Budapeste, transmitisse uma mensagem positiva; e mais ainda, percebi que tudo o que realmente queria era a confirmação de que o “pensamento positivo” era o mais necessário e o que iria solucionar tudo. Ele me pediu conselhos para lidar com a crise da covid-19 e suas repercussões em nossa vida pessoal, social e econômica: “Como podemos manter uma mentalidade e um pensamento positivos?”. Ficou surpreso quando eu lhe disse que em tal situação ― e na vida em geral― acredito (e as pesquisas corroboram isso) que existe algo muito mais útil e maduro do que o pensamento positivo: o pensamento realista. “Mas isso não é o mesmo que ser negativo e resignar-se com a situação atual?”, insistiu. Boa pergunta. A resposta é sim e não. E um “não” em que podemos depositar nossas esperanças.

Viktor Frankl, o famoso psiquiatra vienense que sobreviveu a quatro campos de concentração e mais tarde fundou a psicoterapia centrada na vontade de sentido (denominada logoterapia e análise existencial), cunhou um termo muito interessante: otimismo trágico. Que, em suma, significa a mesma coisa que o “sim e não” que mencionei. Numerosas pesquisas em psicologia demonstram que se trata de um conceito muito útil, sobretudo em tempos difíceis, porque nos permite ver com clareza e aceitar o que é ruim, mas também estar cientes de que podemos decidir como reagir a tudo o que acontece, seja o que for. Vamos ver como traduzir esses estudos para nossa vida cotidiana atual.

A primeira conclusão é que podemos decidir em certas condições. É claro que o coronavírus nos coloca diante de uma crise imensa que não vai desaparecer com pensamentos positivos. Sejamos realistas e reconheçamos isso. Mas uma avaliação realista não para aí. Busca também as coisas que podemos mudar. Examina nossa liberdade para decidir como reagir a uma situação. Até que ponto isso depende de nós? Como decidimos enfrentar a crise?

Um dia, tudo o que está acontecendo será história, tanto coletiva como individual. O que então pensaremos desta história e o que as gerações futuras dirão, não apenas sobre a pandemia, mas sobre nosso comportamento? Seremos um modelo para essas gerações? Isso é o que podemos e devemos decidir hoje, agora, todos e cada um de nós, como coletivo e como indivíduos. Quando olhar para trás, poderei reconhecer com gratidão que, sim, foi um período difícil, mas pelo menos fiz o melhor uso possível dele? Ou poderei dizer que fiz da minha casa ― seja grande ou pequena ― um lugar aconchegante e acolhedor para todos os que nela vivem ou a visitam, o nosso nicho pessoal neste mundo imenso? Que ajudei meus parentes e vizinhos mais velhos? Que aproveitei este período de isolamento involuntário para organizar meus papéis ou outras áreas que precisam de atenção? Ou para passar um tempo precioso com minha família, telefonar ou escrever para amigos e parentes que estão sozinhos, talvez até para aprender um idioma ou uma nova habilidade? Ou terei que admitir que não me interessei por nada e desperdicei esta pausa inesperada?

A segunda conclusão é que você deve estruturar cada dia e administrá-lo independentemente dos demais. Passo a passo. Decisão por decisão. Tarefa por tarefa. Os tempos de crise não são o momento ideal para empreender grandes projetos novos e ambiciosos. Gerenciar cada dia e cada semana já é um grande triunfo. Como não poderia ser? A vida corre aqui e agora, diante de nossos olhos. Temos que começar pela vida cotidiana, e como não poderia ser assim? Arrumar a casa. Literal e metaforicamente.

A terceira é que teremos que fazer o que for necessário, mas de maneira diferente. Compartilhar as responsabilidades e os cuidados. O trabalho em equipe é o melhor construtor da paz. Em outras palavras, dar a cada membro da família a responsabilidade de cumprir suas obrigações diárias, como cozinhar para si mesmo, para a família ou para os filhos. Mas, a partir de agora, tentar fazer isso com um pouco mais de atenção, de amor, de dedicação. Se temos que fazer mesmo, por que não transformar as coisas com a forma como as fazemos? Principalmente agora que muitas pessoas estão confinadas em uma mesma casa, o clima desse pequeno mundo depende de cada uma delas.

Quarta: devemos preencher nossa casa e a nós mesmos com bondade. Todos nós sabemos, conhecemos pessoas que irradiam calor e bondade e outras que não, embora, à primeira vista, pareça que todas fazem o mesmo. E os estudos nos mostram que a bondade e a atenção são contagiantes. Vamos nos enfeitar com a bondade, a atenção, a compreensão e a responsabilidade.

Isto vale também para as pessoas que vivem sozinhas; talvez até mais, porque uma coisa é se alimentar fisicamente, sem mais, e outra, muito diferente, que sejam boas consigo mesmas, que se cuidem e se respeitem. Vamos manter a ordem. Sejamos gentis com nós mesmos e com os outros. Quer vivamos sozinhos ou façamos parte de uma grande família, que outro momento é mais apropriado do que este para ser nossa melhor e mais bondosa versão?

Assim, além do mais, seremos grandes exemplos para nossos filhos, que aprenderão muito mais coisas do que na escola: em especial que, aconteça o que acontecer, continuamos com grande liberdade para decidir como reagir em tempos de crise. Se eles aprenderem essa lição, teremos todos muitos motivos para confiar em que o mundo pós-covid-19 terá uma nova geração capaz de reconstruir um mundo abalado pela crise.

Este é um texto escrito para ‘Ideias’ pelo filósofo e psicólogo Alexander Batthyány (Viena, 1971), logo após a publicação de seu último livro, “La Superación de la Indiferencia. El Sentido de la Vida en Tiempos de Cambio, publicado na Espanha pela editora Herder.


O artigo foi publicado originalmente no site do jornal El País no dia 30 de dezembro de 2020.

Alexander Batthyány é um dos palestrantes convidados do SIMPOSIO INTERNACIONAL DE LOGOTERAPIA que acontecerá nos dias 18 e 19 de junho de 2021 na versão online. Para mais informações, acesse o site do Instituto Busca Sentido.

O impacto da Logoterapia no trabalho de educação física na terceira idade.

Imagem: Foto de Marcus Aurelius no Pexels

No trabalho de educador físico dedicado à promoção de saúde, meu foco sempre esteve voltado ao equilíbrio e à visão integral do corpo. Sempre entendi que não adianta ter uma musculatura definida se o organismo não está de acordo com a aparência. Nessa busca por uma saúde integral, promotora de bem-estar e longevidade, busquei recursos em outras áreas para complementar o meu trabalho como personal trainer e encontrei na Logoterapia um campo fértil para trabalhar corpo, mente, emoções e sentido da vida. Neste artigo, compartilho um pouco da minha trajetória profissional e o impacto que a abordagem logoterapêutica teve em minha atuação e nos resultados alcançados com meus alunos idosos e longevos, inclusive no contexto da pandemia da Covid-19.

A dedicação exclusiva ao público 70+ foi se moldando ao longo da carreira profissional. Já atuei como bailarina profissional e professora em academias, com aulas de dança, alongamento e ginástica. Nessas aulas, os alunos que traziam queixas de dores musculares, articulares ou que tinham alguma restrição ou indicação médica eram direcionados para minhas aulas de alongamento. O reconhecimento no trabalho com esse olhar mais voltado à saúde do que à estética corporal me levou, nos anos 80, a publicar algumas matérias na Revista Saúde. Numa das edições, o jornalista comentou que a diretora de outra revista estava procurando uma personal trainer e que iria gostar muito da minha abordagem. Fizemos contato e, logo em seguida, comecei a desenvolver um trabalho personalizado com ela.

O papel do educador físico é muito amplo, a abordagem do personal trainer é focada nos objetivos, nas necessidades e nas possibilidades individuais dos alunos. E essa habilidade de ter atenção e oferecer cuidados específicos era minha marca registrada como personal. Assim, o trabalho fluiu: aquela aluna me indicou a uma amiga que havia feito cirurgia plástica, depois me chamaram para trabalhar com uma família e segui construindo e consolidando essa atuação profissional – mas ainda atendia alunos de todas as idades. Foi então que um dos alunos me contratou para desenvolver um trabalho com seu pai (vou chamá-lo aqui de Sr. Samuel para preservar sua identidade). Ele já estava em idade bem avançada, havia perdido a voz, movia-se em cadeira de rodas e era acompanhado por um cuidador home care.

No trabalho como personal trainer com o Sr. Samuel, que apresentava diversas restrições, entendi que o foco do meu trabalho era oferecer caminhos, através das aulas, para que aquele senhor conquistasse algum nível de autonomia. Com esse intuito, fui trabalhando estímulos motores, lúdicos e sensoriais, bem como fortalecimento muscular e, aos poucos, ele recuperou a habilidade de segurar um copo sozinho. Tempo depois, numa festa de seu bisneto, mesmo que uma única vez, ele surpreendeu a todos e conseguiu subir as escadas e caminhar até o local do evento sem a ajuda do enfermeiro. Nessa época, eu ainda não tinha encontrado a Logoterapia, mas já via as aulas com uma qualidade de atenção focada individualmente – não olhava só o corpo, mas outras dimensões ligadas a ele.

Por que a Logoterapia potencializou minha atuação como educadora física de pessoas acima de 70 anos, especialmente na pandemia

Meu primeiro contato com a logoterapia foi em um workshop do Núcleo de Logoterapia AgirTrês, em São Paulo, em 2016. Naquele ano, dentre os meus alunos, eu já trabalhava com outro longevo: o “Sr. Ismael” (nome fictício para preservar sua identidade). Ele era judeu, com 89 anos, sobrevivente de um campo de concentração, com doença senil que progrediu para Alzheimer e outras enfermidades, e só falava dos horrores que viveu no campo de concentração.

Eu ainda não havia lido o livro Em busca de sentido, de Dr. Viktor Emil Frankl, que narra à história do autor nesse contexto dos campos de concentração. Viktor Frankl foi um neuropsiquiatra austríaco, criador da Logoterapia, que durante a Segunda Guerra Mundial passou por quatro campos de concentração e comprovou sua teoria sobre sentido de vida na prática. Para mim, foi um choque ouvir o Sr. Ismael, um senhorzinho de cabelos brancos, tão gentil, ter passado por tudo aquilo.

Quando iniciei o curso de introdução à Logoterapia, reconheci pontos de contato da narrativa do Dr. Viktor Frankl com a do meu aluno e, pouco a pouco, fui reconhecendo que tudo o que eu fazia, o método de trabalho que vinha introduzindo com meu aluno tinha muito da Logoterapia.

No início do trabalho com o Sr. Ismael, a solicitação era que eu apoiasse sua caminhada, conversasse sobre vários assuntos e oferecesse atividades motoras compatíveis com sua condição física. E assim começou: caminhávamos na Praça Buenos Aires, em Higienópolis, São Paulo, onde conversávamos muito. Com o passar dos anos, a doença foi comprometendo seus movimentos e ele quase não caminhava longos percursos. Foi então que tive a ideia de mudar a estratégia de trabalho para que ele não parasse com os exercícios que o ajudavam não só fisicamente, mas social e emocionalmente também.

De todas as técnicas de exercícios físicos, como a caminhada, exercícios com bola, com fita elástica, e principalmente as conversas, era no encontro entre o Eu e o Tu que ele se sentia livre e feliz. O Sr. Ismael morava sozinho com o auxílio de cuidadoras. Aos poucos, fui apresentando materiais e técnicas que utilizava para que as outras profissionais que o acompanhavam também pudessem interagir com o Sr. Ismael nos dias em que eu não estava presente. Foram nove anos trabalhando com esse aluno tão especial.

Na pandemia

Em 2020, em meio à pandemia de coronavírus, uma situação tão difícil como a que estamos vivenciando, meu trabalho (como o de muitos) sofreu grande impacto: não podia mais ir até os alunos como estava habituada, pois tanto eu quanto eles somos considerados grupo de risco.

No isolamento social, comecei a observar possibilidades de seguir promovendo saúde e bem-estar ao público da terceira idade. O efeito comum no contexto de isolamento social, especialmente em longevos, é desencadear sentimentos como solidão, estresse, depressão, tristeza, ansiedade, além de impactar a qualidade do sono e apetite. Além dos problemas decorrentes do isolamento social, as consequências emocionais aumentam quando se fala em doenças neste momento com a pandemia, quando os idosos se conscientizam de que o envelhecimento do sistema imunológico contribui significativamente para elevar a taxa de infecção e de mortes e que, com o enfraquecimento da defesa do organismo, pode até influenciar a eficácia da vacina, como afirma Juarez Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbin).

Como cuidar das pessoas acima de 70 anos para evitar outras doenças além da Covid-19?

No mês de junho de 2020, busquei formas de cuidar da saúde mental e impedir que a solidão tivesse grande impacto no cérebro e no corpo, principalmente dessa geração. Sabendo que os exercícios físicos e exposição ao Sol ajudam a evitar casos de transtorno de humor, passei a oferecer meu trabalho de personal trainer com Logoterapia aplicada para idosos no prédio em que moro. Dez alunos, na idade entre 80 e 92 anos, aderiram às aulas, com todos os cuidados necessários, máscaras, álcool em gel e distanciamento físico.

Iniciei este trabalho com exercícios respiratórios, alongamento, deslocamentos na quadra e, aos poucos, fui utilizando vários materiais, como bolas de borracha de vários tamanhos e texturas, bolas coloridas para facilitar o campo visual, desenvolvi exercícios físicos para melhorar a coordenação motora, equilíbrio, fortalecimento muscular e mobilidade articular. Os alunos contam que se sentem muito mais dispostos, ágeis, alegres, sem dores, com resultados visíveis.

Poder enxergar o ser humano na sua totalidade, ou seja, como único e irrepetível, como diz o Dr. Viktor Frankl, é muito relevante, especialmente para o aluno longevo, para que ele mantenha a saúde estável e a capacidade de independência o maior tempo possível na sua temporalidade. De acordo com Claudio Garcia Pintos, “a variável temporal é uma temática central na compreensão da existência humana porque o homem é um ser temporal. Conforme a pessoa envelhece e modifica suas necessidades, identifica-se o imperativo de conhecimento e recursos diferenciados que atendem multidimensionalmente essa pessoa.”

Atividade física, Logoterapia e prevenção de saúde no envelhecimento

De acordo com a OMS (2019), o Brasil tem mais de 28 milhões de idosos com mais de 60 anos, número que representa 13% da população do país e que, segundo pesquisas, irá dobrar nas próximas décadas. Não só no Brasil como no mundo todo vem se observando a tendência de envelhecimento da população. Até 2050, a estimativa é chegarmos a 2 bilhões de pessoas acima de 60 anos, ou seja, um quinto da população mundial. Logo mais, em 2030, o número de idosos ultrapassará o total de crianças entre 0 e 14 anos. Nesse contexto, como viver esse período de envelhecimento com saúde, autonomia e sentido?

A atividade física é um dos fatores que mais influenciam na qualidade de vida e na proteção do envelhecimento saudável. Exercícios praticados de forma regular impactam positivamente nos aspectos bio, psico, espiritual e social do indivíduo.

O profissional de educação física, em especial o personal trainer, por ter um contato mais pessoal com os alunos, sabe das consequências emocionais que os idosos enfrentam diante de uma doença ou da ausência de pessoas com quem eles possam conversar (familiares, amigos etc.). Assim, a atividade física focada na manutenção da saúde e da longevidade traz muitos benefícios, como:

– prevenção e diminuição de problemas cardiovasculares e pulmonares;

– auxílio no controle da diabetes, artrites e doenças cardíacas;

– fortalecimento muscular;

– manutenção da densidade óssea;

– redução de riscos de quedas.

A abordagem da Logoterapia no trabalho com esse público específico potencializa o trabalho corporal, pois inclui técnicas voltadas a questões existenciais dessa geração. Por exemplo, com a ênfase ao trabalho lúdico, uso a metodologia do diálogo socrático, possibilitando ao idoso encontrar suas próprias respostas em relação a seus medos, suas angústias e encontrar um sentido para sua vida apesar de tudo.

Para esse público, o tema da morte é muito presente. E, no contexto da pandemia, essa pauta se tornou aguda. Se a morte é inevitável, é a única certeza que temos desde que nascemos, é importante que cada um possa se preparar para a finitude, de maneira a chegar ao final sem tanto sofrimento.

Atividades físicas beneficiam todos os públicos, mas, neste momento, é importante nutrir um olhar diferenciado para aquelas pessoas que, na maioria das vezes, moram sozinhas ou em casal em idade avançada.

Sabendo que esse cenário pode se tornar cada vez mais comum com o envelhecimento da população, a visão do profissional de Educação Física precisa se voltar para a prevenção de saúde, geração de autonomia e qualidade de vida – o foco na beleza estética, em ficar mais “sarado” não é mais (e nunca foi) suficiente. As novas gerações de profissionais terão que se especializar no trabalho com idosos. O foco do trabalho de personal trainer com Logoterapia aplicada para pessoas 70+ está nos exercícios físicos e na interação social, para que todos se preparem para a finitude sem sofrimentos. Meu desejo é que este trabalho seja acessível a cada vez mais pessoas. Acredito que se todos os profissionais da área derem o melhor de seu conhecimento, da sua experiência, poderemos ter idosos autônomos e ativos, num mundo mais consciente e humano.   

Que cada um de nós possa iniciar esta revolução pessoal para um envelhecimento com muito sentido, pois “a grandiosa revolução de uma única pessoa irá um dia impulsionar a mudança total do destino de um país, e, além disso, será capaz de transformar o destino de toda a humanidade.” (Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional (SGI), pacifista, escritor e educador)

Maísa Fulginitti | Personal Trainer & Care 70+

Instagram: @maisafull

Esperança, eu quero uma pra viver

No final da década de 80, Cazuza e Frejat escreveram a canção clamando por ideologia, num contexto em que a juventude era representante de um espírito revolucionário diante das incertezas políticas e sociais da época. A geração do rock viveu ameaçada pelas perseguições e interdições da ditadura militar, sem poder expressar livremente seu posicionamento político, identitário e cultural. Numa época que prezava por uma determinada ordem e padrão de conduta recém-herdeira da mentalidade militar, caracterizada por um poder patriarcal, branco e heteronormativo, essa música fez e ainda faz sucesso pela mensagem que traz: precisamos de ideais que tragam sentido para a vida.

Naquela época, com o Brasil dando os primeiros passos no processo de redemocratização, o grito por ideologia[1], no sentido de profundidade de convicções políticas, sociais e filosóficas, era urgente, pois o presente era um cenário pouco promissor, com tamanha desigualdade social, econômica e uma série de preconceitos sobre as minorias e doenças como a aids. Hoje, mais de trinta anos depois, revisito essa música atualizando apenas o vocativo, para ampliá-lo. No contexto de pandemia mundial, somado à polarização política e partidária no mundo todo, crise financeira, de valores, desinformação e infotoxicação através do mundo digital, desemprego e depressão, ainda precisamos de ideologias, mas, mais que isso, precisamos de esperança.

Diferente do que comumente se pensa sobre esperança como sentimento positivo a ser cultivado do nada, sabemos que ela precisa de algo – seja concreto ou abstrato –, de um fundamento para que possa se manifestar no indivíduo e no coletivo. Não basta um conselho de alguém, a esperança exige confiança em algo que faz sentido para o sujeito e o direcione para além dele mesmo.

Não podemos ordenar a ninguém que seja otimista ou que espere contra toda a esperança. […] Pois ninguém pode obrigar a esperança, assim como tampouco se pode forçar os outros dois elementos da conhecida tríade, a fé e o amor. […] A felicidade precisa ter um fundamento cujo efeito compareça espontaneamente; em poucas palavras, a felicidade resulta, não se deixa obter, não é fabricável. (Frankl, 2019, p. 84-6)

Tendo isso em mente, afinal, o que esperamos hoje? No que depositamos esperança? No que perdemos a esperança?

Trazendo novamente a perspectiva de Viktor Frankl, que é minha base de reflexão para pensar o ser humano e seu modo de viver e também de minha atuação clínica, observo como ele concebe a esperança (assim como a felicidade) como sentimento edificante do que chama de otimismo trágico humano. Diferentemente de uma positividade infundada, que pode ser alienante, tóxica e até violenta para um indivíduo que atravessa uma fase de sofrimento, Frankl apresenta esse conceito de um otimismo que inclui e, portanto, dá sentido à chamada tríade trágica pela qual todo ser humano passa em vida, a saber: sofrimento, culpa e morte.

Esse otimismo humanizante coloca o indivíduo diante da realidade que se apresenta e, apesar da sensação da falta de sentido (sofrimento), ou da dificuldade de perdoar e aceitar falhas (culpa), ou da finitude da vida (morte), propõe a busca de caminhos para a conservação da vida. A grande pergunta de Frankl orientada à esperança é: “a despeito de todos esses aspectos trágicos da existência humana, apesar disso, como podemos dizer sim à vida?” (Frankl, p. 83)

Hoje, tão importante quanto dizer “sim” à vida individual, é tempo de buscar um “sim” à nossa vida na coletividade. Somos seres interdependentes e coabitantes do meio ambiente e, muitas vezes, esquecemos isso em favor de um “sim” voltado apenas ao nosso próprio umbigo. Esse “sim” alienante costuma ser resultado de três traços de sentimento e comportamento: tédio, ou seja, da falta de interesse genuíno pelo mundo e pelo outro; indiferença, que aparta o sujeito do mundo a partir da perda da iniciativa de mudança, de ação; e proteção narcísica, quando o sujeito, autocentrado, adota um comportamento egocêntrico e de superioridade, quando acredita que algo não pode atingi-lo[2]. No contexto pandêmico, esses traços aparecem em falas que diminuem a gravidade da doença e seus impactos sobre os afetados direta e indiretamente, aparecem em comportamentos que se negam a seguir o protocolo sanitário básico proposto nas diferentes fases, como o uso de máscara e o isolamento social preventivo – ao contrário disso, temos notícias de festas, shows, praias lotadas, como se os frequentadores estivessem numa grande celebração onde a COVID-19 é negada ou tira férias nos momentos de diversão. Uma série de questões envolve esses comportamentos negacionistas e escapistas, mas não são eles a base de uma esperança genuína.

O otimismo trágico exige de nós amadurecimento para encarar o que estamos atravessando nesta pandemia, juntos, mas em barcos com condições completamente diferentes. Atravessar esse mar com a lancha em festa cheia de amigos, nestes tempos, sem olhar para o lado ou para trás, não é dizer sim à vida, é se distanciar dela. Não é ser otimista, é ser egoísta e escapista.

E só posso ser um homem pleno e realizar por inteiro minha individualidade na medida em que transcendo a mim mesmo em direção a algo ou a alguém que se encontra no mundo. Preciso, pois, levar em consideração esse algo, respectivamente, esse alguém, e não a própria autorrealização.” (Frankl, 2019, p. 86)

Graças aos cientistas e profissionais de saúde, temos hoje um fato concreto para alimentar nossa esperança: o plano inicial de imunização em nosso país começou em meio de janeiro com a CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantan com insumos chineses. Agora, ao lado do grande número de afetados pela doença, temos também um contador de imunizados. Uma dose de vacina que traz uma boa dose de esperança para o povo e a lembrança de que, cada vez mais, é preciso despertar para o coletivo, preservar a vida em comum, não só a própria vida.

Referências bibliográficas

FRANKL, Viktor E. [1983] Argumento a favor de um otimismo trágico. O sofrimento humano (fundamentos antropológicos da psicoterapia). São Paulo: É Realizações, 2019. p. 84-88.

PEREIRA, A. B. (2018). Ideologia, eu quero uma pra viver: sujeito, discurso e busca por um posicionamento na letra musical de Cazuza. Linguagem: Estudos E Pesquisas, 21(1). https://doi.org/10.5216/lep.v21i1.52226

[1] “Em meio a tantas situações negativas, o sujeito se encontra perdido, sem posicionamento concreto, sente-se incapaz de reação frente às situações. Contudo, é possível perceber que há uma semente de esperança, que o sujeito busca por uma saída, que apesar de toda negatividade momentânea, é preciso tomar para si uma posição, uma ideologia.” (Pereira, 2018, p. 46)

[2] “Acham-se acima do comum dos mortais. Consideram que estão acima da lei e das normas sociais e que têm direito a um tratamento especial e exigem esse tratamento”. Daniel Rijo citado por Teresa Firmino em “As máscaras do narcísico”, 5/3/16. Disponível em: https://acervo.publico.pt/ciencia/noticia/narcisismo-outro-lado-da-confianca-1725240

Imagem: O Falso Espelho (1928) / René Magritte / Moma-NY


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

2021 – Um convite para viver o presente à luz da logoterapia

Todos nós aprendemos muito em 2020, mas talvez a lição mais importante que podemos tirar de todos os acontecimentos seja esta: nós precisamos viver o presente.

Ao longo desse ano, todos nós adiamos alguma coisa: um abraço apertado, uma reunião presencial, um passeio divertido, uma viagem especial ou um novo projeto.

Tivemos que evitar o contato físico e, por isso, reinventamos maneiras de nos relacionar. Intensificamos o uso da comunicação e ampliamos o nosso alcance social, descobrindo novas possibilidades de viver a vida. Segundo Viktor Frankl, nós não somos produto das circunstâncias, somos produto das nossas decisões. E estas são as grandes responsáveis pelas mudanças em nossa caminhada.     

Não sabemos o que o amanhã nos reservará, mas seguiremos ainda mais fortalecidos do que nunca. Em meio a esse turbilhão de emoções e frustrações, compreendemos a importância de saber ressignificar os acontecimentos, vivendo o agora.    

Um novo ano se inicia e com ele 365 novos momentos. Que 2021 seja um convite para vivermos cada dia de forma presente e significativa, com escolhas mais conscientes e responsáveis!


Crédito: Foto de Kaboompics.com no Pexels

Logoterapia e Promoção da Saúde

Saúde resulta de uma vida com sentido, realizado através do exercício da consciência, das atitudes em um viver  livre e responsável.

“Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.”

Começo este artigo tratando do conceito atual de saúde definido pela Organização Mundial de Saúde (OMS): “um estado dinâmico de completo bem-estar físico, mental, espiritual e social e não meramente a ausência de doença”. Este entendimento sobre o que é saúde está implícito na teoria desenvolvida por Viktor Frankl, na qual o ser humano é compreendido como um ser multi e interdimensional, tanto na saúde quanto na doença. A sanidade do ser humano não é apenas somática, nem apenas somática e psíquica, mas uma sanidade somática, psíquica e noética*, permeada pelo social.

A Logoterapia é uma abordagem com foco no sentido da vida, é a “terapia da esperança”, a “psicoterapia das alturas”, e pode ser utilizada para promover saúde através de prevenção e manutenção desta, ou seja, o foco está na saúde e não na doença.

Pensar em promoção da saúde implica em compreender a natureza do processo humano do adoecer. A Logoterapia parte do pressuposto que o ser humano sofre e adoece não apenas pelas necessidades primárias – sede, fome, sono, sexo – mas igualmente pela frustração de sua principal motivação – o imperativo de viver com sentido.

A falta de sentido, fragiliza, deixa o indivíduo desprotegido, vulnerável ao vazio existencial, a frustação noética e/ou a neurose noogênica, ao se perceber frustrado no caminho do sentido. Encontrar sentido na vida é um dos mais importantes fatores de prevenção, proteção, preservação e sustentação da vitalidade do ser humano.

Na minha prática clínica de 25 anos em atendimento psicoterapêutico, e desde 2000 como logoterapeuta, observo que os pacientes chegam ao consultório apresentando sintomas diversos e queixas variadas, contudo a ênfase é a busca de sentido no sofrimento, necessitando enfrentá-lo e aprender a cuidar de si de uma forma mais saudável, o que implica aprender a lidar com as dificuldades da vida, o que Frankl nomeou de tríade trágica – perdas, falhas e finitude (sofrimento, culpa e morte). Como nos ensina Frankl, “não é o que esperamos da vida, mas sim, o que a vida espera de nós”, essa é a pergunta que deve ser feita no mais profundo âmago do ser humano.

Para promover a saúde do ponto de vista logoterapêutico, precisamos lembrar que a realização pessoal não é o maior objetivo da existência humana, mas sim uma consequência do encontro de sentido na vida. Sentido que só pode ser encontrado através da autotranscendência, isto é, se direcionar para algo (ou alguém) além de si. A autorealização é um efeito secundário, aquilo que se denomina felicidade, que só pode ser alcançada como efeito, e não como meta.

Enquanto propósito significativo capaz de desenvolver a dimensão vital noética profunda, a questão fundamental para essa concretização é novamente modificar o questionamento interno, deixar de se questionar sobre os porquês da vida, e começar a se perguntar sobre os para quês. Pessoas são chamadas pela dimensão noética a despertar a consciência, tornarem-se responsáveis e a vivenciarem profundamente seus atributos de homo faberhomo amans e homo patiens (o homem que faz, ama e sabe sofrer, respectivamente).

A logoterapia não propõe libertar o ser humano daquilo que percebe como sofrimento, mas auxiliá-lo a lidar com ele. Partindo da hipótese de que não há situação na vida que não contenha em si alguma possibilidade de sentido. Esse é o primeiro e mais importante aspecto do caráter preventivo logoterapêutico: amparar pessoas sadias ou doentes na jornada individual da busca de sentido.

Para fortalecer os fatores protetores para prevenção e enfrentamento dos fatores de risco, utilizo na prática clínica recursos logoterapêuticos para despertar e afinar a consciência, apelar ao sujeito sadio interno (conceito encontrado na salutogênese, sintonizado com as propostas de nossa abordagem) engajamento nos pontos culminantes do passado, de concentração no presente e de chegada no futuro, percepção de possibilidades de sentido e incentivo à concretização do que foi percebido.

O segundo aspecto preventivo é que a Logoterapia ajuda a pessoa a tomar decisões que possuam sentido, como um processo psico-educativo contínuo. É necessário aprender a trabalhar com o senso de coerência entre intenção e ação. Elisabeth Lukas dizia a seus pacientes “Queiram aquilo que fazem! ” e não: “Façam o que querem! ”

Concluindo, o terceiro aspecto de prevenção e amparo ao ser humano no fortalecimento interno, para que mantenham suas decisões plenas de sentido, há um importante fator de conscientização, toda decisão contém em si vantagens e desvantagens a serem consideradas, e isto implica em exercer a liberdade de escolha e o consequente enfrentamento com responsabilidade pelo valor da decisão.

“A tese que nos serviu de ponto de partida: ser pessoa é ser livre e ser responsável”. Viktor Frankl

*O termo “noético” deriva da palavra grega nous que significa “espiritual” e é utilizado no lugar desta para evitar conotações religiosas.

Crédito da Imagem: www.pexels.com.br


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, e também coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

Sobre os Desafios da Educação Contemporânea

Quando Viktor  Frankl aborda a liberdade, sempre faz referência à correspondente responsabilidade. Nesse artigo você encontrará importantes reflexões “sobre os desafios da educação contemporânea” no que diz respeito à responsabilidade dos pais em relação à educação dos filhos. Certa vez indagado, Frankl respondeu que “na Logoterapia o paciente (…) precisa ouvir certas coisas que, às vezes, são muito desagradáveis de se ouvir”. Aceita o desafio?

“Existe um premente chamado para tomada de consciência por parte dos pais e mães da necessidade de acompanhar os seus filhos e da necessidade de se responsabilizar por essa criança ou por esse jovem. O que percebemos é que muitas famílias que não o fazem, ou estão sem referencial sobre o que deve ser feito ou não sabem como deve ser feito – por vezes até sem motivação para o fazer. Contudo, se pais e mães não educam, quem educará?”

Observo repetidas vezes situações que me levam a refletir… Pais e mães limitando sua participação na vida dos filhos, chegando quase a se autoexcluir. São pais e mães, é inegável, mas quase nunca estão lá. Delegam suas tarefas às babas, empregadas, avós e avôs e, algum tempo depois, delegam à escola a tarefa de educar. Parece-me que algo está fora de sintonia quando por alguma ou várias razões, pais e mães não desempenham seus papéis, não assumem sua responsabilidade, não dedicam tempo aos filhos, não cuidam da alimentação, do banho, do sono, da higiene, do brincar – ah! o brincar, fundamental! E não acompanham a lição de casa.

Quanto mais reflito, mais me questiono, por que será que tantas famílias agem dessa forma, assumindo apenas parcialmente a responsabilidade por seus filhos? A terceirização da educação dos filhos é o grande drama das famílias contemporâneas.

E nisso, leio uma reportagem sobre a mensagem do Papa Francisco durante a catequese aos peregrinos, na Praça São Pedro em 20 de maio de 2015, que realmente sustentou minhas reflexões sobre isso.

Segundo o Papa, há dois elementos essenciais da educação dos filhos: a sabedoria e o equilíbrio. Ele convida as famílias a retomar seu papel ativo: “Quando a educação familiar redescobre o contentamento de seu protagonismo, muitas coisas mudam para melhor para os pais incertos e desiludidos. Chegou a hora que os pais e as mães saiam de seu ‘exílio’ e reassumam plenamente o seu papel educativo.” Ainda alerta para a necessidade dos pais saberem acompanhar os filhos passo a passo e não exigirem que percorram o caminho do crescimento sozinhos.

Viktor Frankl nos ensina que para o ser humano, o mais importante não é a liberdade “de algo”, mas a liberdade “para algo”. Não é suficiente livrar-se dos obstáculos, deveres e compromissos, para ao final recair no vazio existencial. O importante é transformar a vida em algo que tenha sentido.

Existe um premente chamado para tomada de consciência por parte dos pais e mães da necessidade de acompanhar os seus filhos e da necessidade de se responsabilizar por essa criança ou por esse jovem. O que percebemos é que muitas famílias que não o fazem, ou estão sem referencial sobre o que deve ser feito ou não sabem como deve ser feito – por vezes até sem motivação para o fazer. Contudo, se pais e mães não educam, quem educará?

E o que significa reassumir plenamente o papel educativo paterno e materno? Qual é o papel educativo da família? A família contemporânea modificou-se, assumiu novos padrões. Ao mesmo tempo, como já foi dito, ficou sem referencial sobre o que deve ser feito e como fazer, perdendo-se na multiplicidade e descentramento da cultura pós-moderna. A

CULTURA PÓS-MODERNA E O DESCENTRAMENTO

Considero cultura pós-moderna como uma condição peculiar da cultura contemporânea, que principia no início da década de 70 do século XX, como uma consequência de profundas e irreversíveis transformações sociais. É também caracterizada pela presença de múltiplas redes, com signos e significados diversos, provisórios, incomensuráveis e alternativos. A cultura pós-moderna também tem expressão como condição existencial, pelo descentramento, pelo niilismo e pela expressão do desencanto. O tempo na cultura pós-moderna é o tempo instantâneo, imediato, do sempre jovem; num tipo de vida que nas cidades ocidentais contemporâneas é caracterizado pelo ativismo frenético. O que, em última instância, dificulta unir o passado e o presente ao futuro, bem como tomar consciência da própria biografia, da própria história.

Elisabeth Lukas aponta para as consequências críticas da descentralização da família, afirmando que a família nuclear está desintegrando e a vida familiar se tornou insuportável para muitas pessoas, perdendo seu sentido. O ser humano moderno obteve progresso e muitas vantagens, “libertação dos velhos costumes” e bens materiais, mas atingiu a felicidade que almejava?

Ainda parafraseando Lukas, ao considerarmos o aspecto do sentido da vida, o simples “ter” não garante um estado de “ser” pleno de sentido.

O OLHAR DA LOGOTERAPIA SOBRE A EDUCAÇÃO

Perante esse cenário busco o olhar da Logoterapia a respeito da educação. Educar é afinar a consciência. A educação logoterapêutica tem como fim o desenvolvimento da capacidade de tomar decisões independentes e autênticas, a partir de valores pessoais, pois parte do pressuposto que o ser humano tem em seu âmago a liberdade da vontade, a vontade de sentido e o sentido da vida. Assim, é papel da educação despertar e conduzir o ser humano a responder por si mesmo de forma criativa e concreta, de maneira que possa decidir e agir com responsabilidade perante todos os desafios que a vida lhe trouxer.

Se a infância é uma fase temporária, pré-requisito para a fase da vida adulta, se a criança é um ser em desenvolvimento, por que tanta dificuldade em efetivamente assumir esse papel na educação e prepará-los?

Então, surge outra pergunta: essa família a quem o Papa Francisco convida a reassumir seu protagonismo na educação dos filhos, proporciona a crianças e jovens o afinar da consciência e o despertar da responsabilidade que a Logoterapia propõe?

Enumero alguns fatores que possivelmente estão aumentando a dificuldade de pais e mães a assumirem plenamente o seu papel de educar:

1. crença absoluta que temos o direito de ser feliz,

2. falta de limites,

3. falta de diálogo genuíno,

4. ambição e consumismo,

5. delegação da educação para a escola.

Com a crença absoluta de que temos o direito de ser feliz, a qualquer preço e com quaisquer consequências, chegamos ao ponto nevrálgico, a geração do “eu mereço”, jovens que acreditam que a “felicidade” é um direito adquirido. Grande parte desta última geração, composta por jovens que ganharam tudo, sem ter de lutar por quase nada de relevante, são academicamente preparados, tem farto acesso a toda tecnologia, tem a ilusão de que a vida é fácil, possuem muitas habilidades e competências, mas não aprenderam a lidar com as dificuldades da vida, a tolerar frustrações e decepções.

Acreditam os jovens que é possível desfrutar de um lugar no mundo sem dedicação e esforço, e principalmente, acreditam que é possível viver sem sofrer. Não foram ensinados a lidar com o sofrimento, o conflito, a perda e a finitude – sim, são crentes no mito da eterna juventude e da total felicidade do Facebook. Para ajudá-los, é preciso ensiná-los a falhar, a criar a partir das dificuldades.

Novamente citando Lukas, a Logoterapia ensina que não é o bem-estar exterior que nos traz automaticamente o bem-estar interior, mas o critério decisivo para a satisfação interior do ser humano é a sua atitude interior perante as condições externas, positivas ou negativas.

A pedagoga e escritora Eloisa Miguez afirma que educar é promover a experiência de “oferecer algo de si” ao mundo ou ao outro, é educar para a criatividade, para a convivência, cooperação, solidariedade, ajuda mútua e sensibilização para perceber a relação entre o mundo do valor e da cultura.

Sobre a falta de limites, regras e valores, é constante a omissão familiar, muitas vezes é feita a opção pelo mais fácil, para não gerar atritos ou estresse dentro de um modo de vida já tão estressante.

O PAPEL DA AUTORIDADE

Há uma necessidade premente de mudança nas relações entre pais e filhos, reaprender a negociar com os filhos mantendo a autoridade. Mas a palavra autoridade soa como algo terrível! É natural que tenhamos essa má impressão da palavra quando entendemos que nas últimas três ou quadro décadas a sociedade foi se reorganizando de maneira que a questão da hierarquia foi sendo alterada. E hoje, a organização social está constituída como rede, o que acentua as dificuldades para estabelecer limites.

Até algumas décadas atrás, a família assumia o papel de transmissora de valores e regras, hoje o papel da família é compreendido como o de transmitir segurança, conforto e afeto. Nesta organização social constituída como rede não existe mais lugar diferenciado para a autoridade, não há poder legitimado, sequer o poder familiar, de pais e mães. Então, como trabalhar a questão de limites? Limites claros e compreensíveis, aplicados de forma coerente e firme, permitem que as crianças se desenvolvam sentindo-se seguras e protegidas. Quando as famílias não conseguem trabalhar a questão dos limites, a questão da responsabilidade perante aquilo que se escolhe, perante as decisões, deparamo-nos com a crescente dificuldade de lidar com a frustração. Em algum momento da vida haverá frustração e a Logoterapia nos ajuda a lidar com os conflitos, dificuldades, perdas, falhas, culpa. A Logoterapia diz que, em sua essência, o ser humano é um ser livre – se não livre “de”, livre “para”, livre para escolher que atitude tomar perante as situações que se lhe apresentam. É por isso importante trabalhar com os limites, aprender a dizer não aos filhos quando necessário: como ensina o professor e psicólogo Alejandro De Barbieri, educar sem culpa!

Viktor Frankl deixa claro qual o papel da educação à luz da Logoterapia: “Vivemos na era da sensação da falta de sentido. Nesta nossa época a educação deve procurar não só transmitir conhecimento, mas também aguçar a consciência, para que a pessoa receba uma percepção suficientemente apurada, que capte a exigência inerente a cada situação individual. Numa época em que os 10 mandamentos parecem perder sua validade para tantas pessoas, o ser humano precisa ser capacitado a captar os 10.000 mandamentos que se ocultam de forma cifrada em 10.000 situações com as quais se confronta na vida. De uma forma ou de outra, mais do que nunca a educação é educação para a responsabilidade.”

EDUCAR PARA A RESPONSABILIDADE

Faz parte da educação para a responsabilidade o aprendizado do diálogo genuíno. Quando essa prática não está presente, não há espaço para falar das emoções. E se os pais não ajudarem seus filhos a identificar e lidar com essas emoções, quem o fará? É necessário falar dos medos e da tristeza. – Mas, se a “felicidade” é um direito adquirido e somos todos felizes, jovens e bem-sucedidos, como falar dos problemas, dos sofrimentos, das dúvidas e dos temores? Como bem apresentado no filme Divertida Mente (2015), é importante aprender a lidar com todas as emoções, alegria, raiva e tristeza, e o quanto tudo isso pode ser curativo e transformador, lidar com esses sentimentos. Um momento de crise está repleto de possibilidades para encontrar sentido.

Ao retomar a prática do diálogo genuíno, conversando sobre tudo, trocando ideias, negociando possibilidades, estabelecendo limites e responsabilidades – como consequência da sociedade em rede – e reaprendendo a negociar com os filhos, a decisão final e a responsabilidade das escolhas são dos pais. Educar significa mobilizar a capacidade de decisão responsável.

A respeito de ambição e consumismo surge o louvável argumento de que os pais trabalham demais para dar uma vida “melhor” aos filhos. Mas melhor sobre qual ponto de vista? Material? Então, só isto basta? Esse argumento justifica muitas vezes o fato dos pais quase nunca estarem presentes, e para compensar a ausência constante, tanto física quanto emocional, utilizam dinheiro e presentes como moeda de troca. Sob esta perspectiva, o consumismo é muito útil. Entretanto, essa atitude – resolver as questões dos relacionamentos e vínculos familiares a partir do aspecto financeiro – transmite aos filhos a noção equivocada de que dinheiro substitui responsabilidade, e, que ter dinheiro e pagar a alguém para responsabilizar-se é suficiente. Como diz o filósofo e escritor Sergio Sinay – “Para dedicar tempo aos filhos, é preciso deixar outras coisas de lado”.

Os filhos passam a fazer exigências cada vez maiores, até mesmo de coisas materiais, e os pais acatam, pois são as necessidades materiais as mais fáceis de atender. Centrados nos objetos de consumo, as famílias criam uma rede sem sustentação, de forma que a angústia do vazio existencial está sempre presente e, a convivência supérflua não estabelece os vínculos necessários para que se vivencie os valores de experiência.

Esse vazio existencial, é aquele que Frankl descrevia afirmando que vivemos na era da sensação da falta de sentido, uma época na qual, principalmente nos países industrializados e nas sociedades abastadas, um número cada vez maior de pessoas possui recursos para viver, mas não de um significado para o qual viver. Mais do que nunca a educação necessita ser educação para a responsabilidade, promover a capacidade de tomar decisões autênticas e independentes, de ser seletivo, aprender a distinguir o que é essencial do que não é, o que tem sentido do que não tem.

OS PAIS, A ESCOLA E… AS CRIANÇAS

Ao longo dos anos, com tantas mudanças na organização social, a família foi gradativamente delegando para a escola a tarefa de educar, formar e socializar, porém essa situação já não se sustenta mais. A família é elemento indispensável para a educação e formação no âmbito pessoal. Elisabeth Lukas diz que a família é “o centro gravitacional do amor”, que ela constitui o centro da vida.

Voltamos a questão da responsabilidade, pois delegar é renunciar à responsabilidade pelos resultados.

Como nos lembra Alejandro De Barbieri, os pais são os que devem educar, a escola pode educar como segunda instância, não como primeira. Gostemos ou não, o fato é que, na família se educa emocionalmente e na escola se transmite conhecimentos, a educação formal.

Assim, é importante pensar sobre a questão formativa dos adultos, dos pais e mães, que tem a responsabilidade de educar, ou seja, a concomitante “educação dos pais” trará resultados mais efetivos do que apenas trabalhar a “educação dos filhos”.

O filósofo e escritor Fernando Savater atribui ao “ fanatismo pela juventude” a causa de que agora os pais já não exercem o papel de formadores, senão tentam ser amigos de seus filhos; e este fato, diz o autor, é uma das causas da família como núcleo social ter-se tornado tão informal. Porém, para que uma família funcione adequadamente, é indispensável que alguém nela decida e seja adulto. A vida em família precisa ser valorizada novamente, a experiência da paternidade e da maternidade novamente ser percebida através de seu sentido existencial. Reassumam o protagonismo na educação dos filhos, conclama o Papa Francisco!

É em família que se aprende a conviver com limites e frustrações, a refletir sobre as consequências positivas e negativas de escolhas e atitudes, os filhos precisam da presença constante dos pais, da orientação amorosa e firme para desenvolver uma efetiva capacidade de tomada de decisão responsável.

Parece-me que o mais importante é relembrar o compromisso assumido e ajudar os pais a ampliarem seu campo de visão e despertar para sua responsabilidade de educar os filhos, da urgência em agir e participar amorosamente dessa tarefa.

“Se quisermos estender uma ponte de pessoa a pessoa – e isto é válido também para uma ponte de conhecimento e compreensão – as cabeças da ponte não devem ser precisamente as cabeças, mas os corações”.

Viktor Frankl

Crédito: Foto de Andrea Piacquadio no Pexels


Este artigo foi escrito pela nossa diretora educacional, Simone Guedes, que é pedagoga, especialista em RH e Logoterapia e coordena os estudos e programas de desenvolvimento humano na Núcleo de Logoterapia Agir Três.

O sentido da vida em tempos difíceis

Tempos extremos, como este que vivemos na atualidade, colocam nossa liberdade em questão. Quando a sobrevivência se torna um imperativo, há uma série de imposições externas e internas que impactam nosso modo de operar e de nos relacionar. A pandemia da COVID-19 nos fez instaurar novas medidas no dia a dia: preventivas, como o isolamento físico e procedimentos de higiene para evitar contágio e transmissão; de manutenção, como dos serviços básicos e de abastecimento; e também medidas emergenciais, como a atuação de profissionais de saúde, da área social e de pesquisa, na linha de frente de combate ao vírus. Somando a esse contexto complexo, enfrentamos uma grave crise econômica, que tem gerado desemprego e reduções orçamentárias drásticas. Tudo isso e ainda lidando com a preocupação, o sofrimento e o medo de um inimigo invisível aos nossos olhos.

Imersos neste cenário, podemos nos questionar: “é possível ser livre em tempos de isolamento?”, “como posso ser livre se estou enfrentando diariamente um vírus que pode ser muito grave e letal?” e “será que vou sobreviver à pandemia?” – questões que colocam, em seu centro, não a nossa, mas liberdade do vírus. No fundo, queremos nos ver livres logo desse inimigo externo que nos privou do mundo como o conhecíamos, que trouxe perdas e nos fez encarar nossa própria finitude. Então, a pergunta que é pano de fundo para as anteriores é: “qual o sentido desse sofrimento todo?”.

É essa falta de sentido no sofrimento que nos frustra, vulnerabiliza e fragiliza, a ponto de gerar ansiedade, estresse crônico, melancolia, irritabilidade, neuroses, fadiga mental e emocional e até vazio existencial. E sem dúvida isso afeta toda a nossa forma de ser e de nos relacionar: há pessoas sofrendo extrema pressão do trabalho (seja home office ou in loco, seja pelo excesso ou pela impossibilidade de trabalhar), há pessoas enfrentando solidão, outras cansaço, dificuldades e estresse na convivência privada (com familiares, parceiros e até problemas de violência doméstica). Não é à toa que, assim como hospitais, centros de atendimento psicológico e psicoterapêutico também estão lidando com o aumento exponencial de pessoas que precisam de apoio para lidar com questões psicoemocionais em meio à pandemia. A Federação Internacional da Cruz Vermelha, inclusive, publicou orientação provisória para profissionais e voluntários de primeiros cuidados psicológicos remotos durante o surto de COVID-19.

Mas o que sentido de vida tem a ver com liberdade? Buscar sentido na vida, mesmo em situação de sofrimento, é um caminho para a liberdade, segundo a cosmovisão de Viktor Frankl, médico vienense, sobrevivente de campo de concentração, que criou (e vivenciou) a Logoterapia. O exemplo do que ele enfrentou e, sobretudo, de como experienciou essa situação extrema pode nos trazer pistas de como lidar com o momento atual.

Em seu livro Em Busca de Sentido, onde narra o que viveu no campo de concentração, Frankl aborda o conceito de liberdade interior, trazendo como pergunta orientadora algo semelhante ao que levantamos acima: “Onde fica a liberdade humana?” (Frankl, 2008, p. 88); e discorre sobre a possibilidade de agir “fora do esquema” (no caso, o dos campos de extermínio), de pessoas que foram capazes, apesar das circunstâncias e condições degradantes, de não sucumbir à apatia, irritação, à sujeição do dominador ou perda de vitalidade:

no campo de concentração se pode privar a pessoa de tudo, menos da liberdade última de assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas. E havia uma alternativa! (Frankl, 2008, p. 89)

Ressalvadas as devidas diferenças, essa liberdade como atitude também é hoje uma chave para lidar com a pandemia, inclusive como um fator de preservação de saúde e manutenção da vitalidade humana. Não se trata de se livrar do que faz sofrer, mas de agir nessa situação, lidar com o sofrimento, compreendendo que também nele há possibilidades de sentido. Na experiência de vida dele nos campos de concentração, enquanto alguns se perguntavam se sobreviveriam àquela realidade, Frankl se questionava sobre o sentido do sofrimento e da morte, como parte da vida e da existência humana, afinal:

Uma vida cujo sentido depende exclusivamente de se escapar com ela ou não e, portanto, das boas graças de semelhante acaso – uma vida dessas nem valeria a pena ser vivida. (Frankl, 2008, p. 91)

Uma vida com sentido é esta em que se tem liberdade de escolha de atitude diante do que ela espera de nós, enfrentando com responsabilidade as decisões tomadas. Para Frankl, a liberdade só é possível com responsabilidade. Para ele, “ser pessoa é ser livre e ser responsável”, e a liberdade está em realizar essa busca de sentido na vida, encontrar o “para que viver” de cada ser único e irrepetível que somos. Tempos difíceis, de sofrimento, nos colocam no enfrentamento direto com questões sobre o sentido de vida. Por isso, é fundamental compreender que sempre há uma decisão interior possível diante de uma situação extrema – e que é essa decisão (que pode ir da vitimização à manutenção da dignidade e humanidade) que vai conduzir ao tipo de transformação que podemos vivenciar nessa situação.

É adotando uma atitude humanizadora, de manutenção de sua dignidade, inclusive em situação de sofrimento, que o ser humano se põe em busca do seu sentido na vida. O sentido, para a Logoterapia, está na possibilidade de o ser humano encarar os sentidos que está para realizar, valores a realizar. Posto isso, é viver num campo polar de tensão estabelecida entre a realidade e os ideais por materializar. O sentido deve ser descoberto, ele não pode ser dado.

Então, que caminhos existem para encontrar esse sentido? Frankl aponta a vivência de valores de criação, a liberdade espiritual (sem atribuição dogmática ou religiosa) e a experiência com o que é belo, da natureza e da arte. Bebendo da mesma fonte, o escritor búlgaro Todorov reforça esses elementos, em seu livro Diante do Extremo, nomeando-os como exercício da vontade, cuidado de si (cuidar-se, nutrir-se, respeitar-se em primeiro lugar) e atividades do espírito (busca da beleza e da verdade).

Através desse exercício da liberdade com responsabilidade, é possível identificar o sentido daquilo que a vida apresenta no momento (especialmente em tempos em que nossos prazeres são reduzidos), mobilizar recursos internos, despertar nossa consciência e encontrar o sentido e o significado de nossa existência, para transcender o sofrimento e seguir em frente.

Referências bibliográficas

FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008

INTERNATIONAL FEDERATION OF RED CROSS AND RED CRESCENT SOCIETIES. Primeiros cuidados psicológicos, remotos, durante o surto de COVID-19. Mar. 20. 13p

TODOROV, T. Diante do extremo. Trad. Nícia Adan Bonatti. São Paulo: Ed. Unesp, 2017

Imagem: montagem sobre original de francescoch/iStockPhoto


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

Precisamos falar sobre isso…

Quando o racismo salta aos olhos

Nas últimas semanas, nossos olhos e afetos têm sido impactados pelas notícias estarrecedoras de mortes de negros, incluindo crianças, como os casos dos meninos Miguel (em Recife) e Guilherme (em São Paulo). Mesmo com inúmeros casos assombrosos de vidas interrompidas aqui no nosso território natal, o estopim que trouxe o tema do racismo para a arena da discussão foi o caso do assassinato à luz do dia do afro-americano George Floyd, numa abordagem policial abusiva registrada em vídeo pelo celular de uma adolescente. A partir desse evento, a voz do movimento antirracista Black Lives Matter foi amplificada por uma série de protestos nos Estados Unidos, viralizando com a repercussão dos quadrados pretos nas redes sociais no mundo todo, que furou bolhas também em nosso país. O que temos visto como desdobramento desde então são discussões fundamentais sobre a pauta do racismo estrutural, branquitude, antirracismo, entre outras – algo inédito, na minha perspectiva pessoal.

Como brasileiro e negro, é a primeira vez que percebo um incômodo diferente no olhar de quem se deparou agora com o racismo estrutural que se manifesta há anos, de forma mais abrasiva em casos sinistros como os anteriores, em nossas frias estatísticas de desigualdade racial e também em nosso cotidiano, em formas capciosas de preconceito travestidas em humor, em condutas, falas e expressões. Como psicólogo e professor negro, busco olhar esta atual tomada de consciência desse tema de forma reflexiva e otimista, propondo aqui também minha voz, pela primeira vez expressando de forma pública minha opinião sobre o racismo.

Diante da força dos fatos que nos têm atravessado (e traumatizado), especialmente nestes tempos de pandemia, que têm exposto nossas maiores feridas públicas e privadas, chega o tempo em que precisamos falar sobre isso.

Precisamos falar sobre os episódios de violência (física, econômica ou simbólica) e discriminação que todos nós, negros, vivemos e que geralmente ficam guardados no nosso íntimo ou em nosso núcleo de confiança. Precisamos falar sobre a invisibilidade e o silenciamento que negros sofrem nesse país, reflexo de mais de 350 anos de escravidão que os últimos 130 anos desde a abolição jurídica ainda não conseguiram reparar. Precisamos falar que hoje, segundo dados do PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE), pretos e pardos somam 56,4% da população brasileira, isto é, a maioria. Precisamos falar e dialogar a fim de cultivar uma nova cultura onde negros consigam respirar, ser vistos e ouvidos, por meio de projetos possíveis e reais em nossa sociedade, incluindo todas as raças e cores que a compõem.

Quando o racismo salta aos olhos, mas as pessoas se calam, o silêncio reforça a estrutura do preconceito por meio da manutenção do não saber e do tabu dos “assuntos sensíveis”. O que minha prática clínica de 30 anos em atendimento psicoterapêutico, e desde 2000 como logoterapeuta, me revela é que falar sobre temas que geram sofrimento e buscar sentido mesmo nas dores mais profundas é caminho viável para enfrentar as dificuldades que a vida impõe nas condições que se apresentam. Frankl nomeia as dificuldades fundamentais da vida como tríade trágica – perdas, falhas e finitude (ou sofrimento, culpa e morte). Essa tríade que o médico vienense viveu num período intenso de sua vida nos campos de concentração nazista, e que certamente gerou impactos profundos em sua existência, acaba se transformando em tridente que fere há centenas de anos quem traz na cor da pele o registro de um povo que teve sua humanidade sequestrada pela escravidão, por meio da privação do uso da própria linguagem, da liberdade de seu corpo e da memória de sua história e cultura. Dadas as proporções e as diferenças destes holocaustos (o massacre de judeus e minorias no regime nazista da Segunda Guerra Mundial e o de negros nas Américas coloniais que perdura até os dias atuais), há elementos da obra de Frankl que me movem a não me posicionar como vítima das circunstâncias que se impõem e me ajudam a extrair uma saída possível para essa tragédia – o que ele chama de otimismo trágico. Quando ele afirma que:

“Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá. Afinal de contas, o sofrimento faz parte da vida, de alguma forma, do mesmo modo que o destino e a morte. Aflição e morte fazem parte da existência como um todo.”
(Viktor Frankl, 2008, p. 90)

Ele não diminui o tamanho do sofrimento, nem propõe a imposição de um pensamento perverso de negação dessa dor ou sua aceitação passiva. Pelo contrário, ele propõe atitudes de dignidade, coragem e valor diante de um sofrimento inevitável (como é o caso do racismo hoje). A proposta de liberdade interna na situação de sofrimento certamente exige muito de nós, mas nos convoca a “assumir uma atitude alternativa frente às condições dadas” e a entrever perspectiva de futuro.

Se os tempos atuais fizeram finalmente o racismo saltar aos olhos é porque há também possibilidades concretas de mudança dessa cultura. É tempo de cada um, do seu lugar de fala e atuação, refletir e agir com sua contribuição legítima e mais efetiva possível: seja na linha de frente da luta, seja na manutenção ou na mudança de hábitos, linguagem e escolhas no dia a dia. Do meu lugar como psicólogo, professor e pessoa, sigo propondo espaços de diálogo, acolhida e reflexão em prol de uma cultura em que possamos ver seres humanos antes da raça ou da cor, o que Frankl nomeia como monantropismo (“o saber em torno da unidade da humanidade, uma unidade que ultrapassa todas as diversidades, quer as da cor da pele, quer as da cor dos partidos.” (Frankl, 2010)) – e o que foi evidenciado como possível na fala de Patrick Hutchinson, personal trainer que impediu que outro homem fosse espancado nos protestos antirracistas em Londres, em 15 de junho (na foto, o homem negro é o personal carregando um homem branco desconhecido em seus ombros, salvando-o do pisoteamento). “Tinha um ser humano no chão, e vi que aquilo não ia acabar bem. Agachei e o carreguei nos ombros como fazem os bombeiros” – disse Hutchinson.

Acredito que é preciso falar do que estamos vendo. Porque a fala das dores, dos sofrimentos, e também dos lampejos de consciência que vemos acendendo nos olhos das pessoas e nas lentes da mídia, revela que é possível fazer-se visível aos olhos que estavam cegos para nossas questões raciais, afinal:

Quando é que o olho é capaz de enxergar-se, se prescindirmos do espelho? Somente quando está afetado de catarata. […] Sempre que puder olhar para si mesmo, será porque está com a capacidade visual prejudicada. (Frankl, 2012, p. 20)

Referências bibliográficas

FRANKL, V. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Trad. Walter O. Schlupp e Carlos C. Aveline. 25 ed. Petrópolis: Vozes, 2008.

FRANKL, V. Logoterapia e Análise Existencial. São Paulo: Forense Universitária, 2012.

FRANKL, V. Psicoterapia e Sentido da Vida – Fundamentos da Logoterapia e Analise Existencial. São Paulo: Quadrante, 2010 – p.28.

Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) 2020. Disponível em: <https://sidra.ibge.gov.br/tabela/6403>. Acesso em: 14/6/20.

PINTO, Ana Estela de Sousa. “Só pensei em tirá-lo dali”, diz ativista negro que salvou branco de ser espancado. jun. 2020. Folha de São Paulo. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/06/so-pensei-em-tira-lo-dali-diz-ativista-negro-que-salvou-branco-de-ser-espancado.shtml

Imagem: Heraldo Galan


Este artigo foi escrito pelo nosso diretor diretor clínico, Francisco Carlos Gomes, que é o coordenador do grupo de pesquisa “O vazio existencial na contemporaneidade e as possibilidades de realizar sentido” do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação de São Paulo/PUC-SP – LABÔ.

O artigo foi publicado originalmente no site da Off Lattes que é o canal de divulgação da produção dos grupos de pesquisas do  Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo/PUC-SP – Labô

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